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29/05/2017

Peter Sloterdijk e a criação de uma nova psicologia política para a esquerda


“Taxação subjetiva” – esse é o nome que o filósofo alemão Peter Sloterdijk utiliza ao  apontar para o modelo ideal de distribuição de renda.

Sloterdijk diz que, na atualidade, há três maneiras de redistribuir renda. Pela via dos impostos, pelo mercado de ações e pelas fundações.  A primeira via é a seguida pela social-democracia, que ele vê como não tendo como se manter no longo prazo. A segunda via é o barco alternativo diante dos impasses da social democracia, mas com eficácia limitada e, é certo, com pouco fôlego. A terceira via é a da “taxação subjetiva”; ela depende do espraiamento da generosidade, e isso, garante Sloterdijk, não é difícil quando se olha para a tradição da psicologia política dos países de cultura anglo-saxônica.

Entre os preocupados com distribuição de renda, ou seja, o campo liberal e da esquerda, essa última ideia poderia ser atrativa. Mas, se ela às vezes causa dificuldade de ser aceita, é porque a esquerda em geral pensa de um modo estreito e imediatista (contaminando os liberais). O paradigma dos liberais e da esquerda é o de falar aos pobres, colocando os ricos do outro lado do muro. Os ricos são acusados de desejarem ficar do outro lado do muro sempre, e assim ganham o lugar de adversários, de inimigos, e com eles não se conversa de modo sério e franco.  Não se lhes dá, por meio de um incentivo à cultura da generosidade, a chance de poderem ter orgulho de serem ricos, de saírem do campo isolado em que vivem.  Os grandes milionários doadores, e até mesmo pessoas não muito ricas, podem ter orgulho de manterem fundações de todo o tipo, fazendo funcionar uma série de instituições que, deixadas ao estado ou ao simples livre jogo do mercado, ou nem se realizam ou não vão adiante.

Não é difícil uma nova psicologia irromper e criar uma mentalidade de generosidade. Mas, em geral, quando se fala isso para as esquerdas, tudo fica nublado, pois é como se tal coisa significasse não falar mais para os pobres, deixando-os de lado, e tendo então de falar aos ricos. É como que abandonar  o único refrão que a esquerda conhece, e que até os liberais seguem: “proletários do mundo, uni-vos”. Parece inconcebível ter um projeto antes filosófico que estreitamente político, capaz de falar para as pessoas em geral, pois a política democrática pensada de modo pequeno é apenas a política de se conseguir se sair bem no dia da votação, falando diretamente aos pobres, disputando os seus votos, prometendo algum paternalismo.

Quando a prática pedagógica de Paulo Freire foi usada nos Estados Unidos, muitos americanos começaram a ver que o discurso da pedagogia do oprimido não tinha que ser feito para os pobres, que já sabiam bem o que era a opressão, mas sim para os ricos, pois eram eles que não estavam percebendo que o desenraizamento de vários grupos na América criava a opressão que, enfim, também os atingia. Richard Rorty tinha essa ideia de voltar as narrativas para todos os lados, não para um público específico que, em princípio seria o objeto do discurso e aparentemente o primeiro beneficiário do que se iria falar.

Ora, os beneficiados pela “taxação subjetiva” podem perceber o quanto traz de orgulho o ato de cuidar de iniciativas culturais e sociais e outras, e que isso é vital antes para os cuidadores que para o público em geral. Ter prazer de cuidar de algo que serve muitos, diretamente, é alguma coisa que o pagamento de impostos não traz para nenhum grupo, e  por isso mesmo não cria uma sociedade mais autêntica e coesa. Também não age assim o mercado de ações. Mas uma sociedade com inúmeras pessoas com o gosto de serem úteis por conta de manterem fundações, é uma sociedade com uma pedagogia saudável sobre si mesma. Portanto, não se pensa numa psicologia política de generosidade por conta da bondade ou do culto à doação ao pobre, nada disso. Pensa-se na intrínseca necessidade que cada um de nós tem de poder ser reconhecido, identificado, visto como um cuidador. Trata-se aí de algo como “empreendedores do mundo, uni-vos”.

Sloterdijk sabe que isso não é algo tão utópico quanto pode parecer à primeira vista – embora nada se tenha contra utopias, principalmente para quem é filósofo. Ele conhece a força timótica, a força do orgulho ligada à necessidade de reconhecimento, que todos temos. Os ricos também necessitam dela, ou até mais. Ele sabe que uma economia baseada no gasto não lucrativo, sem retorno, faz parte de uma visão nietzschiana da vida econômica que foi levada adiante por Bataille, bem pesquisada antropologicamente. Conhece as teorias de modo a ver que não se está falando aí de solidarismo ou de liberalismo social ou coisa do gênero, mas de uma grande revolução de mentalidade que tem seus melhores exemplos na Inglaterra e nos Estados Unidos. O thymos é o órgão de mobilização do orgulho e que não pode desaparecer da psicologia humana, exatamente porque se levarmos a sério Hegel, nunca se haverá de pensar em homens que não queiram ser reconhecidos. Ser reconhecido como rico pode muito bem ser algo de se ter orgulho ao ser reconhecido como quem sustenta as melhores iniciativas. Ao se pesquisar esse tipo de atitude no mundo, vinda de muitos desconhecidos, pode-se encontrar mais do que se imagina, e ver que elas são mais eficazes que a bolsa de valores ou os impostos.

Creio que é enganoso pensar que o Brasil, de cultura europeia continental, não tenha germes de uma cultura capaz de desenvolver esse tipo de psicologia política, a que faz os americanos se destacarem como sendo o germe de uma nova mentalidade. Não é questão de acharmos se ou não os nossos ricos são mesquinhos, mas a questão que importa é saber que há exemplos da cultura da “taxação subjetiva” por aqui, e que isso pode ser incentivado. Quem sabe não venhamos a ter, se seguirmos esse rumo, logo uma euforia em que o gastar em favor de um empreendimento social e cultural, tomado como seu próprio, não seja um regalo de euforia?

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

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12 Responses “Peter Sloterdijk e a criação de uma nova psicologia política para a esquerda”

  1. 21/02/2017 at 21:12

    Interessante.

  2. 02/08/2016 at 11:05

    Bom site

  3. Matheus
    16/05/2016 at 15:49

    Depois de ver as pessoas falarem aqui de criar institutos etc, eu me lembrei, quero logo é arranjar um emprego pra poder ajudar um pouquinho o CEFA (quando eu for bem rico, o que é quasi-impossível eu criarei minhas próprias fundações, até lá, vou querer ajudar as existentes!)

  4. Alexandre
    14/05/2016 at 19:50

    Muito interessante. Sempre tive essa vontade de criar instituições para ajudar moradores de ruas, crianças, animais…criar uma biblioteca seria maravilhoso. Quem sabe uma dia, caso o meu sonho de me tornar um escritor de sucesso se realize.

  5. Jordan Bruno
    14/05/2016 at 13:42

    Pois é professor, aqui em Teresina eu comecei a mais ou menos um mês um projeto que visa angariar fundos para a criação de uma biblioteca (na verdade uma estante) voltada para o publico infanto juvenil aqui do bairro … por meio de cartas peço que as pessoas doem valores entre 100 e 20 reais para aquisição de hqs e mangas que serão disponibilizadas aos frequentadores… percebo que as pessoas se sentem muito orgulhosas de participarem de uma atividade como essa, pelo que me dizem ao elogiar pela criação do projeto … espero que isso se transforme no meu tema da monografia do curso de filosofia que estou fazendo na UFPI… além disso, se não me engano tive essa ideia apos aquele hora da coruja sobre outras utopias, que travava de autores como sloterdjike e nozik e a questão dos impostos, mesmo tema deste texto …

    Abraço

  6. Robson de Moura
    12/05/2016 at 15:56

    Valeu Ghiraldelli! Vou levar em conta essa novidade (para mim) na hora de raciocinar um futuro político. Grato pelo envio da mensagem!

  7. Matheus
    12/05/2016 at 15:43

    Muito legal, professor. Eu li há algum tempo (preciso reencontrar o link e postar aqui) um artigo acadêmico que ensaiava justamente redescrever a “mão invisível” do Smith aproximando-o – ainda que sem menção ao sloterdijk ou a essa teoria de “taxação subjetiva” – dessa noção de distribuição de riqueza, e que isso era possível ou comum à epoca do reino unido do séc XVIII, porque havia essa generosidade e reconhecimento de necessidades das classes mais abastadas para as menos.

    Mas deixo de antemão uma questão: como compatibilizar essa (talvez não tão) nova psicologia política com uma tradição (até mesmo cristã) de que “doação é só pro rico se sentir perdoado por seu ‘pecado original’ “?

    (desculpe-me tantas aspas e parênteses)

  8. Fábio Lins
    12/05/2016 at 01:05

    Professor, o senhor teria alguma indicação por onde começar a ler Peter Sloterdijk? Se é melhor começar por um texto introdutório ou partir logo para os livros publicados

    • 12/05/2016 at 08:12

      Fábio, venha para o CEFA, para os hangouts e para os encontros presenciais. Fale com a Fran.

  9. Raimundo Marinho
    11/05/2016 at 17:41

    Mestre Ghi; obrigado pelo texto.

    Pode-se falar em uma revolução dos costumes do brasileiro ?!

    Raimundo Marinho

    • 11/05/2016 at 21:00

      Podemos sim pensar numa nova psicologia política, por que não?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo