Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

30/04/2017

Pessoas que pedem comportamentos serenos, tenho medo delas!


Durante toda a semana, Letícia Sabatela apareceu na Internet bebendo e caindo na rua. Foto velha, recuperada para obra de difamação. Campanha da direita dizendo: “vejam como não é drogada, irresponsável, por isso pode apoiar Dilma”.

Na mesma semana, apareceram vídeos de Ciro Gomes, brigando com militantes pró-Impeachment. A direita chegou até a pagar para que o agredissem, dizendo “ele é esquentadinho, façam-no reagir e filmem tudo”. Também na semana que passou, Dilma apareceu na capa de uma revista tendo supostos “surtos”. Agora, chegou a vez desse grupo do governo, que se diz de esquerda, falar algo parecido: as professora da USP Janaína Paschoal fez uma brilhante e calma defesa das razões do pedido de Impeachment no Congresso, mas ela mudou a postura no comício, falou com o corpo, com gestos. Comício é comício! Ela estava “possuída”, disseram os do governo. Também acho que ela estava possuída. Possuída de indignação. Mas não podemos ter indignações, temos de ser sempre capachos. Quem faz gestos, quem fala com o corpo, é “louco”.

Quem faz gestos é louco. Diógenes era “o Sócrates tornado louco”, disse Platão. Pois Diógenes falava por chistes e pelo corpo. Diógenes se masturbou na Agora, para mostrar aos atenienses que o lugar sagrado da democracia era meramente convencional. Eu falei disso na aula e fui tomado pelos alunos como louco, como quem propagava a pornografia e ofendia os alunos. Fizeram movimentos contra mim, os ignorantes. Os colegas ignorantes incentivaram os alunos ignorantes. “Paulo, o louco”.  Todo filósofo é louco – dizem, não é?

Ciro Gomes, Janaína Paschoal, Letícia Sabatela ou qualquer um de nós que se deixa levar pelas emoções, que tem emoções, que pode reagir sem o maldito cálculo dos sorrateiros, sempre trarão bons ventos para a sociedade. Mas aquele que só observa, fica ali, de tocaia, para soltar um comentário anônimo dizendo “ela (ou ele) perdeu a razão”. E o inseto. Ele que fazer crer que a razão é menos o órgão do rigor para ser associada ao comportamento do carrapato. Nem para se lançar sobre o cachorro o carrapato faz algo, ele simplesmente cai por conta do cachorro passar embaixo dele, que está lá na árvore. Cai por conta da temperatura de quem está embaixo. São assim os críticos que pedem serenidade. Essa gente, tome cuidado meu amigo não-covarde, não importa que posição ocupem, são pessoas para temermos. São crápulas. Todo crápula é calmo.

Tudo isso ocorre porque a psicologia moderna eliminou o Thymos. Na descrição do homem moderno cabe razão e paixão, a parte da coragem que é a parte da ira e também do orgulho, desapareceu. Ficou lá com Platão. Os modernos tiraram a alma timótica do homem e com isso puderam isolar razão. Assim, sem o thymos, ela é sempre “fria”, e se não é assim não é razão. Belo truque da psicologia para poder criar o homem moderno que, como Nietzsche diz, é um “prudente”, um “inseto” desses que muda de cor para evitar o predador. Alias, na modernidade, há a preocupação de tirar da sociedade o louco. A modernidade se desespera ao ver o gênio, o não medíocre, que se impõe na sociedade – é necessário trazer o gênio para a confissão de loucura e arrancá-lo do mundo.

Os crápulas odiavam Sócrates porque ele chegou a classificar as loucuras, e elegeu algumas delas como essenciais. O oráculo possuído, ele dizia, guiava os políticos e a cidade. O homem possuído de paixão homenageia Eros, que é um deus e merece então as homenagens. Sócrates, aquele que morreu calmo, era um destemperado. Não à toa as pessoas saíam no braço com ele, tentavam arrancar seus cabelos. Sócrates nunca foi calmo. Imagine então Diógenes! Os calmos, sabemos bem, tem uma terrível propensão para a covardia.

Os serenos são pessoas perigosas.

Paulo Ghiraldelli Jr,, 58, filósofo.

Tags: , , , , , , ,

12 Responses “Pessoas que pedem comportamentos serenos, tenho medo delas!”

  1. Afonso
    06/04/2016 at 22:36

    De um escritor argentino: “Nietzsche, ao ver como um cocheiro castigava brutalmente um cavalo caído, abraça -se chorando ao pescoço do animal e o beija. Foi em Turim, em 3 de janeiro de 1888, e essa data marca, em certo sentido, o fim da filosofia: com esse fato começa a chamada loucura de Nietzsche, que, tal como o suicidio de Sócrates, é um acontecimento inesquecível na história de razão ocidental ” Piglia

  2. Claudio Dionisi
    06/04/2016 at 15:33

    Obrigado pelo excelente texto, professor. Me senti menos louco ao lê-lo.
    Sempre tive a imagem de Diógenes como um exemplo a seguir. É melhor ser um cão do que ser um inseto. Aqui na “república de Curitiba”, quem fala alto já vira notícia.

  3. Orquideia
    05/04/2016 at 23:59

    Aliás eu gostei do discurso da dra.Janaína,mas acho que ela deve ter ficado um bagaço depois de tanto esforço.[fiu de antena apavorada…

    • LMC
      06/04/2016 at 10:12

      É um comício o que a Janaína fez,o
      PG já explicou.Tá duro de entender,
      hein?

  4. Orquideia
    05/04/2016 at 23:24

    Eu gosto mais de mim quando posso ser calma,mas muitas vezes percebo que tenho maior tendência para o acerto e para a objetividade numa situação menos sisuda e mais emotiva.
    Isso vêm do nosso temperamento tipicamente brasileiro,e não adianta ficar tentando mudar.

    • 06/04/2016 at 08:37

      Orquídea, você foi consumida pela ideologia da calmaria. Cabral só descobriu o Brasil, conta-nos a estória da história, quando se afastou dela.

  5. Alexandre
    05/04/2016 at 23:17

    Que mulher linda essa Letícia Sabatella, até eu que sou gay me sinto hipnotizado.

    • 06/04/2016 at 08:38

      Sim, conheci-a bem de perto, quando jovem, fazendo pequenos bicos e teatro. Era algo ensurdecedor. Quanto mais velha fica, mais bonita fica. Gosto dela.

    • LMC
      06/04/2016 at 10:13

      PG,dizem que a Letícia tem pernas
      muito bonitas.Isso é verdade?

    • 06/04/2016 at 10:52

      LMC, ela é inteira bonita, mas o rosto dela é algo feito por Deus diretamente. No entanto, a Janaina é mais sexy, tem o grelo duro, que Lula não gosta.

    • LMC
      06/04/2016 at 11:26

      Você lembra qual a peça de teatro
      que você viu a Letícia atuar,PG?
      Não lembro dela fazer teatro em
      SP,não.

    • 06/04/2016 at 11:26

      Xii, meu caro, nem te conto. As coisas eram duras, crise do Collor putz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo