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16/08/2017

Por entre as pernas do travesti – corpo abjeto


Em geral, o sexo é bom quando nele somos tornados objeto pelo parceiro. Mas as coisas nem sempre são agradáveis quando somos tornados objetos pelos objetos, situação que ocorre fora do sexo.

A primeira situação é inerente ao sexo. Ele exige objetificação, até reificação às vezes. O sexo implica em gana, e esta concentração libidinal exige uma graduação crescente na capacidade de colocar o corpo do outro ao seu dispor. Nessa hora, algumas feministas, junto com Kant, reclamam sem razão. É gente que não entende de sexo. O sexo é bom é aquele em que o parceiro submete ao outro e, no máximo de seu egoísmo, naturalmente faz brotar o altruísmo, pois o gozo só se potencializa quando também é o gozo do outro.

A segunda situação é inerente à sociedade moderna de mercado, ao menos segundo os olhos de uma certa compreensão marxista. Ocorre, por exemplo, quando se olha uma calça jeans na vitrine e, ao desejar leva-la para casa por meio de dinheiro, se percebe que ela cria vontade própria e dá ordens, pondo-se no lugar do sujeito da relação, e fazendo o comprador se tornar o objeto. As ordens dela são por mais dinheiro. Mas não para às mãos do vendedor, mas para o médico da cirurgia plástica ou para a academia etc. O tempo de cortar a calça para modelá-la ou comprar um número maior acabou. Pois o objeto, a coisa, é o comprador, não mais a calça. Essa inversão fica por contado fetichismo da mercadoria e a correspondente reificação do indivíduo humano no mercado.

Nos dois casos temos o corpo objetificado. O corpo objeto, portanto, não é um grande problema. Aliás, no primeiro caso ele é simplesmente solução. Isso é diferente do corpo abjeto. (1)

O corpo abjeto é aquele que causa repulsa e, de certo modo, exatamente pela sua negatividade, provoca certa atração, ao menos curiosidade. O que é abjeto se faz antes mesmo do que é objeto. Quando o eu ainda não é sequer um eu e, portanto, o que se insinua à sua frente nem é objeto, há aí uma primeira repulsa do primeiro em relação ao segundo. O proto-eu está no caminho do eu por diferença de um proto-não eu, e não quer voltar atrás, pois isso seria retornar à situação de morte da qual se saiu, capitular diante do caos natural e desorganizado do qual se está vindo. A abjeção vem daí. Ela é condição para a identidade posterior do ego. Sua não existência dificultaria o processo de formação de um ego. Sua manutenção e sua passagem para um nível simbólico é necessária no processo de formação ontogenética e filogenética. Ânsia e curiosidade, talvez prazer, possa vir daí, diante de determinadas condições não muito bem delineadas, esponjosas, sanguinolentas, disformes – não naturais!

O corpo da mulher é objeto no sexo. O do homem poder ser também, à medida que a mulher hoje se “masculiniza” e o homem se “feminiliza” (sem implicações homo ou heterossexuais). O corpo de todos é objeto se contarmos que somos todos objetos na sociedade de mercado segundo um tipo de marxismo. O corpo da travesti (similares) é abjeto. Há homem que não quer beijar a travesti. Há homem cuja abjeção chega ao máximo e quer eliminar a travesti. No entanto, ambos querem olhar o local em que há ainda o membro masculino. Isso fascina. Recobra-se o primitivismo do nojo misturado ao desejável descanso da matéria amorfa, desorganizada. Não raro, ambos os nauseados acabam tendo ereção ao ver a travesti nua. Nem é preciso estar nua. É interessante que a transgênero provoque, para além dos comentários díspares, os mesmos confusos sentimentos.

O corpo abjeto, é claro, não está envolvido com a relação sujeito-objeto. Ele é pura relação. Mas sendo algo de efetivação complicada, põe a pura relação em uma condição também complicada. Haverá mesmo algo como uma pura relação, um puro meio, nesse caso, e que é ao mesmo tempo rechaçado e desejado? Às vezes podemos estar perdendo o sujeito não para uma necessária e resultante sociologia do entre, da relação, mas para o que é o abjeto.

Quando alguns se opõem ao corpo tornado objeto para o sexo não é só porque não sabem o que é sexo ou gozo. Não sabem mesmo. Mas há mais: confundem o abjeto com o objeto. Acreditam que a coisa, o objeto, vai lhes provocar o que provoca o abjeto. Não notam que são processos distintos. Um frigidez da mulher e uma certa militância confusamente feminista associada pode ser só fruto de processos complexos de abjeção, tomados como processo de objetificação.

Paulo Ghiraldelli, 57. Filósofo.

1. A maneira que trato a noção de abjeto aqui é inspirada nos escritos de Julia Kristeva.

 

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4 Responses “Por entre as pernas do travesti – corpo abjeto”

  1. José
    24/03/2015 at 00:31

    Um homem pode ser hetero e ao mesmo tempo sentir tesão pelo pau de um travesti?

    • 24/03/2015 at 01:18

      Quem gosta de homem não é heterossexual, é homossexual. Parabéns José, você finalmente saiu do armário.

  2. 23/03/2015 at 15:17

    Paulo, essa ideia de um Eu que vem do não-eu tem algo a ver com a ideia da consciência que está preza ao inconsciente?

    • 23/03/2015 at 17:51

      O eu vem de um não eu por diferenciação. Apenas isso.

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