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28/02/2020

O que é “pensar com a própria cabeça”?


Uma boa parte dos que dizem “eu penso pela minha própria cabeça” é gente que pensa repetindo o que outros falaram. Até engraçado isso. O indivíduo repete como macaquito e se acha um pensador original, às vezes, um gênio incompreendido! Não raro, se imagina um ensaísta crítico. 

Pensar pela própria cabeça não é para qualquer um. Quem se repete muito, mesmo que pareça original, acredite, desde o início já estava pensando sob o comando de outro. O que pensa pela própria cabeça pensa criativamente, se repete pouco, tem uma trajetória tortuosa. Não à toa os grandes filósofos possuem “fases”.

É que o exercício de pensar pela própria cabeça depende de começar a deixar seu cérebro ser usado para que o outro pense nele. Uma maravilha para tal é deixar o pensador clássico pensar dentro da sua cabeça. Nada melhor que deixar um pensador morto voltar à vida emprestando-lhe o seu cérebro. Você consegue? Essa é a primeira etapa do treinamento.

A segunda etapa é a que você, após ter hospedado o pensador, de modo a deixá-lo confiante que dali ele não sai mais, vem com a conta da pensão e o põe prá fora. E então, chama outro grande pensador para ocupar a sua cabeça, usar seu vocabulário e até mudá-lo. Depois de um tempo, já na terceira fase do treino, o interessante é convidar vários grandes pensadores, e tornar-se uma pensão completa, hospedando-os todos. Então, é necessário rearranjar os discursos, de modo a aparar arestas. Novas ideias surgirão. Aí sim, você estará começando a poder pensar com a sua própria cabeça. Daí para diante, a continuidade do exercício é mudar e mudar, testar novas formulações, ser sincero com o objeto analisado, não forçar posições, querer a verdade e não se acomodar à função do autocompletar do computador que é seu cérebro. Não pegar a via mais fácil. Por novos objetos e ver se não está aplicando sobre eles, para narrar suas atividades, esquemas caducos, viciados, repetitivos. Não pense que a vida coerente tem o valor do texto coerente. Este vale, aquela, vale pouco.

O treinamento do filósofo é esse treinamento. Claro que vários que se dizem filósofos fracassaram nesse treinamento. Você vê seus escritos e eles são repetitivos. Mudam as palavras, mas o roteiro é o mesmo e o esquema é o mesmo. Não aprende coisa nova. Não é capaz de fazer o que Nietzsche dizia que era a essência do seu filosofar, fazer experiências com o pensamento. Testar caminhos. Mudar mesmo, radicalmente, para testar caminhos. Poucos são os que aprendem essa postura do filósofo. Por isso os filósofos não são em grande quantidade.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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2 Responses “O que é “pensar com a própria cabeça”?”

  1. coxinhamaster
    20/10/2015 at 19:51

    Bom texto,p nao dizer perfeito.Ser “esse negocio ” de filosofo e dificil quando temos q tomar esse caminho das pedras que vc falou.Particularmente ,nao conheco sequer um grande filosofo,teologo,sociologo,antropologo,que nao tomou esse caminho.Parece tao obvio,mas nao e…..
    Na minha faculdade ,cultivei um habito de ler muitas literaturas,Durante as aulas ,ficava muito “cabrero”(cauteloso) em opnar sem ter algo(teorico) que sustentasse…Interessante ,que surgia muitos ,”baseado apenas na observacao empirica dos fatos ” e opinava tambem.Resultado:percebia uma indiferenca em relacao a mim,ao passo que louvores a outros(acho que eu subentendia uma vaidade).Ate houve um exemplo de uma professora,que passados cinco anos ,nao sai de minha mente:”coxinha ler tal e tal livro,para depois testar o professor”.O que foi seguida por uma estrondosa risada de toda a turma.COntra-ataquei dizendo que aquela foi minh ultima intervencao ali,ja que era leviana aquela observacao.Na treplica,a professora disse que nao queria me constranger,que me pedia desculpas,Nada respondi,e cumprir o que disse durante todo o final de disciplina.
    GOsto de sabedoria antiga(nao tenho pretensao,no entanto ,de ser filosofo) e busco essa “imersao” em textos antigos.Tenho lido muito a Biblia sagrada,Republica e comentarios de Platao,alguns fragmentos de Cicero.
    Abs

  2. Luh
    17/10/2015 at 09:37

    O preconceito diante de alguns filósofos também limita esse exercício.
    Esse treinamento não é fácil, imagina dar lugar para um mente como o Sócrates =)

    Muito bom!!!

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