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22/06/2017

Pensando o pós-socialismo


Pensando o pós-socialismo no contexto das eleições brasileiras para presidência da República, governo estadual, Senado e Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa Estadual.

Por definição que já vem no próprio nome, as utopias não existem e não foram pensadas para existir. Elas são desenhos detalhistas assim criados para se mostrarem impossíveis de serem realizados. Uma boa parte dos filósofos que lidaram com tais coisas não foi ingênua a ponto de não saber aquilo que Weber e Adorno denunciaram: que o perigo da vida não é sonhar, mas realizar sonhos. Há uma vocação do sonho que é a de tornar-se pesadelo quando ocorre em vigília.

A maior parte dos pensadores contemporâneos, e vários entre os modernos, nunca deixou de saber o que Cioran anunciou dizendo que enquanto temia São Paulo e sua “boa nova” sentia-se aliviado com as incertezas de um Pirro. O fanatismo pelo bem é uma estrada aberta para o mal. Todavia, apesar dos santos serem fanáticos, o que eles não sabem é que a estrada que pisam é pavimentada pelo demônio. Ora, as utopias não foram criadas para atentar o demônio, mas para ridicularizá-lo. O detalhismo delas deveria mostrar aos homens sua impossibilidade e, então, deixar o demônio – amante do detalhe – trabalhando sozinho enquanto pensa estar trabalhando coletiva e produtivamente.

É preciso ser quase um néscio para acreditar que Marx criou uma utopia clássica, no estilo da própria Utopia, a de Thomas More. É necessário ser o próprio néscio para acreditar que ele foi um propagandista ou “marqueteiro” de ideologias em favor de alguma utopia irrealizável, para falar por pleonasmos. É certo que talvez ele não concordasse com tudo do livro O socialismo utópico e o socialismo científico, de Engels, que fazia a utopia clássica ceder espaço para um tipo de utopia histórica, como Habermas classificou o tipo de pensamento histórico do século XIX. Essa maquinaria da história em um estilo de Comte sempre foi algo muito mais de Engels que de Marx. Lênin visitou Engels exatamente porque esperava dele uma benção para a visão de que a revolução socialista sempre está no trilho da história tomada cientificamente. Mas Marx, ele próprio, foi bem menos positivista que seu amigo de estilo britânico. Ele nunca pensou o socialismo como alguma coisa detalhada capaz de engessar a história.

Em seus escritos mais maduros, Marx falou do “comunismo” apenas como um nome para dizer que o desdobramento do capitalismo iria produzir qualquer outra coisa, e essa coisa, se pudesse ser interessante, deveria ser a vida na qual o homem viesse a se desenvolver em todas as suas boas potencialidades. A vida sequestrada diante do trabalho capitalista seria devolvida ao homem, e ele poderia fazer do tempo, que afinal é a própria organização da vida, o que bem entendesse. Estaria livre, como escreveu na Ideologia alemã, para “caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear a noite, fazer crítica depois da refeição”, e tudo isto a seu bel-prazer, “sem por isso ter de se tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico”. Isso nunca foi dizer qualquer coisa semelhante ao que Thomas More disse na sua Utopia, em que até mesmo o tamanho das mesas para se comer coletivamente eram indicadas. Quem se diz culto e não entende nem More e nem Marx nessas diferenças está com problemas cognitivos. Quem acha desinteressante essa vida em que o tempo nos é devolvido é porque ou não sabe o que é experimentar um tiquinho de felicidade ou efetivamente quer sofrer porque gosta do fracasso e do sofrimento por razões de autopunição. Encontramos esse tipo de gente que faz a apologia do fracasso em todo tipo de hospital ou igreja.

Um filósofo cáustico poderia rir de Marx, mas jamais fez isso de verdade. Pois ninguém deNAN10 boa formação filosófica desconhece que tais “boas potencialidades” que Marx anunciou no homem nunca eliminaram as “más potencialidades” que ele descreveu de modo exímio nas páginas sobre história de O capital.  Marx nunca esteve entre aqueles que acreditaram que abundância e a justiça social por si só trariam o desaparecimento daquele que efetivamente abriu a modernidade, “Jack o estripador”. Afinal, Marx foi testemunha de uma sociedade da abundância nascente e, nela, ele viu e aplaudiu a luta de Lincoln pelo fim da escravidão. Ele chegou a mandar uma carta ao presidente, felicitando-o por vitória nas eleições. Mas tudo isso porque ele sabia que havia força contrária com fervor técnico, escravocrata e assassino.

Sim, Marx era a favor da vida americana! Ele dizia que o proletariado do país da bandeira listrada iria arrastar todos os trabalhadores do mundo. Ele falou isso não no sentido de dizer que os Estados Unidos iriam ser um país socialista, ou que iriam realizar algo que não se realiza, a utopia. O que ele felicitava na América era o seu participacionismo, o seu costume de tentar agregar o comunitarismo com a vida liberal, e sua capacidade de tentar desfazer-se das velhas “superestruturas” europeias.

Mas ele sabia muito bem que a guerra da abolição havia sido algo horrível como todas as guerras e ele tinha a certeza que a abundância americana e a vida democrática, que podiam ser vistas como alguma coisa boa, não tinha por si só a capacidade de fazer com que só coisas boas acontecessem. Marx foi um rousseauísta a respeito do homem ao falar filosoficamente do homem – o homem genérico, aquele do Humanismo. Nunca achou que cada um de nós, uma vez em uma sociedade da abundância e sem os problemas da propriedade privada abriria mão de fanatismos ou do desejo de fazer um altar para Jack o estripador. Ao contrário do que o néscio e o quase néscio pensam, Marx conhecia muito bem aqueles que Horkheimer chamou de “os escritores negros da burguesia”, como Maquiavel e Hobbes, os que retrataram a nós mesmos como portadores de psicologias reativas.

Após o fim do que se chamou de “comunismo real”, e que foi levado adiante atrelado ao nome de Marx, este se tornou, para a maioria dos bons filósofos, um pensador clássico a mais. Voltou ao seu tamanho, que não é pequeno. Como Freud e Nietzsche ele agora cabe, realmente, na tríade mencionada por Paul Ricouer como um dos “mestres da suspeita”. Partidos anões que invocam seu legado não possuem mais crédito nenhum, mesmo quando são partidos cujos parlamentares se põem como os melhores dentro do Congresso – o que não é de se estranhar no caso brasileiro. Isso ocorre porque a agenda de benefícios sociais que a nossa vida requisita acaba encontrando apenas nos críticos mais radicais do capitalismo homens e mulheres dispostas. É natural que assim seja.

Mas a política por justiça social não deveria mais ser monopólio do “pensamento marxista de tipo partidário”. Homens e mulheres que foram socialistas nos anos setenta e oitenta, no Brasil, podem muito bem terem lido John Rawls ou Richard Rorty, ou então terem readquirido gosto pelo solidarismo de donativos de um Peter Sloterdijk, e com isso entenderem que há caminhos vários para uma sociedade melhor, e não só um único caminho, muito menos o caminho que nunca se fez como caminho. E isso pode ser feito sem qualquer abandono dos ganhos filosóficos dados pelos “mestres da suspeita”.

Filosofia não é política. Mas a filosofia política é uma disciplina. Nela não se estuda a política do ponto de vista científico. Pensa-se a política ainda com alguma esperança futura, algum tipo de construtitivismo, com normas. Nisso, alguns fazem teorias sociais para a vida melhor. Outros apenas apontam pontos interessantes. Outros, ainda, tendem a ver aspectos salutares que podem ser incentivados. Essas várias maneiras não excluem uma a outra no campo vasto daquela política que visa fazer com que os mais fortes não tenham o direito de humilhar os mais fracos.

Esse modo de pensar não entra na cabeça de uma “nova esquerda” porque essa esquerda ou é a direita ou é uma nova esquerda só no nome, e que pensa como uma esquerda que é incapaz de dar uma banana para a URSS ou para a revolução cubana. Afinal, diferente da filosofia política, a política sempre é o reino do dogma. É difícil fazer diferente. Mas é impossível?

 Talvez possa existir aquele político cuja palavra de ordem não seja uma verdade, mas sim o incentivo para fazer pensar. Um político assim não ganharia eleições? Não sabemos. Tudo pode contar contra ele numa sociedade entorpecida, mas será que toda e qualquer sociedade hoje é necessariamente entorpecida?

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

04/10/2014, um dia antes das eleições presidências de primeiro turno no Brasil

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13 Responses “Pensando o pós-socialismo”

  1. vicente
    25/09/2016 at 10:41

    É necessário observar que entre tantas controversias escolasticas da ideologia feitichista burguesa e critica ao marxismo o prof. caiu em uma delas, apesar da brilhante exposiçao do texto, a saber : o cunho positivista – suposto – de Engels. A isto acrescento que o livro de Engels- Anti Duhring -, por exemplo, foi escrito com o conhecimento do mesmo por Marx que nao encontro uma nesga da filosofia de Comte, portanto apenas para lançar luz a este nevoeiro de confusão que ate hoje impera nas cabeças pensantes academicas e independentes, trago este singelo exemplo e vamos aprofundar nas leituras. Infelizmente somos uma cultura em formação colonial, ainda, e não temos acesso ,ao menos que saibamos fluentemente : ingles, alemao, frances, espanhol, russo ,as principais linguas europeias e norte -americanas para assim iniciar a compeender o que é realmente marxismo, sociedade comunista e outros temas relevantes para transformarmos este mundo em decandencia.

    • 25/09/2016 at 11:16

      Vicente, me poupe de algo dos seus clichés do início do século XX. Tem dó meu caro.

  2. Caçapava
    07/10/2014 at 15:11

    Mas o Marx não era de certa foram favorável à escravidão? Ou foi apenas uma fase da vida dele?

    • 07/10/2014 at 15:23

      Caçapava você anda lendo bobagem do Pondé ou do outro cara da direita tonta? Aqueles caras que pegam frases isoladas ou comentários descontextualizados de cartas! Putz! Para com isso, larga esse tipo de gente. Carinha que aprende Marx por frase tonta de Nelson Rodrigues, que foi uma anta, termina na escolinha do Roger, do Ultraje a Rigor.

    • Caçapava
      07/10/2014 at 22:57

      Mas quem vai contestar Pondé quanto a isso? Ele é o maior filósofo do país.

    • 08/10/2014 at 02:15

      Sim, ele já disse que na academia não tem ninguém para enfrentá-lo. Ou seja, ele pensa que filosofia é enfrentamento. E acha que filosofia é fazer frase reacionária. Ninguém vai realmente contestá-lo.

  3. Amei o texto, do grande filosofo amigo, para entender preciso reler …. grata amigo

  4. Cesar Marques - RJ
    04/10/2014 at 18:34

    “Lênin visitou Engels exatamente porque esperava dele uma benção para a visão de que a revolução socialista sempre está no trilho da história tomada cientificamente. Mas Marx, ele próprio, foi bem menos positivista que seu amigo britânico.”

    A principio, só queria fazer um pequeno adendo, professor: Friedrich Engels não era britânico, ele era tão alemão quanto Marx, inclusive nasceu na mesma província que seu amigo e parceiro intelectual, a Renânia. Num dos últimos Hora da Coruja o senhor também falou isso.

    Acho que o senhor está fazendo tal confusão, pelo fato da indústria têxtil do pai dele (que o Engels posteriormente herdou) ter como base a cidade de Manchester, na Inglaterra.

    • 04/10/2014 at 20:35

      Cesar, Engels podia ter nascido no Brasil. Ele não teve educação continental. E por isso havia diferença. Entende? Você não pode corrigir alguém que fala que Rousseau era francês e e não genebrino. Já pensou em Kant, cuja cidade já foi de vários países? Cuidado com isso (agora, entre parênteses, tenho 57 anos, eu li as biografias de Marx no ensino fundamental, no oitava série – faz bastante tempo que eu sei onde Marx e Engels nasceram. Não faça mais isso com filósofos, você passa por ridículo, sacou?).

    • Cesar Marques - RJ
      04/10/2014 at 22:18

      Professor, primeiramente eu não quis corrigir, e sim contribuir. E com todo o respeito, não acho que o caso da formação do Engels seja semelhante a do Rousseau (esse sim nascido em Genebra mas forjou-se intelectualmente na França), e muito menos com Kant que não saiu de sua cidade, embora vez outra a cidade mudasse de país.

      Parte da formação de Engels se deu em Manchester sim como o senhor lembrou, mas parte relevante dela também se deu em Berlim, onde se formou na mesma faculdade que Marx.

      Enfim, sei que o senhor tem conhecimento de todas essas informações, só as estou escrevendo para mostrar os fundamentos de minha discordância. E encerro por aqui, pois sei que quando o senhor se sente contrariado, começa a lembrar os outros de que o blog é seu.

      Abraços, e obrigado pela atenção, professor Ghiraldelli.

    • 04/10/2014 at 22:49

      Cesar Marques pode corrigir, ninguém acerta tudo. O que não pode é não saber que autor está lendo. Você errou e quer permanecer no erro. Há jovens que aprendem e há os que não aprendem. Como não sou como você, eu sempre aprendo. Só que nesse caso, aprendi não o seu ensinamento, mas apenas aprendi que voCê não entende bem o que lê. E agora isso se confirmou. Mas vou tentar mais uma vez: a citação da filiação de Engels ali onde fiz não é à toa, ela é exatamente para lembrar que o positivismo recebeu guarida na ilha, enquanto que no Continente ele ficou na França e teve dificuldades de entrar no mundo alemão de então. O livro de Engels citado é completamente inglês. Aliás ocorre o mesmo com o Dialética da natureza, do mesmo autor. Não adianta você saber datas se não as utiliza correto. O livro de Engels foi escrito no início de 1880, três anos antes de Marx morrer. Engels não estava usando seu curso de Berlim, já havia passado toda uma vida. Engels estava bem longe de ser considerado um autor alemão a essa altura do campeonato. Aliás, nem jovem ele o foi.

    • Cesar Marques - RJ
      04/10/2014 at 23:41

      Professor Ghiraldelli, realmente eu não tinha a menor intenção de corrigir o senhor. Nunca me passaria algo assim pela cabeça. Apenas achei que o senhor estivesse fazendo alguma confusão, pelos motivos que elenquei anteriormente, e tentei contribuir. Mas diante da explicação que o senhor postou, ficou claro que eu estava totalmente por fora. Bola totalmente fora de minha parte. Vivendo e aprendendo.

      Mais uma vez, obrigado pelos ensinamentos e pela atenciosidade, professor.

      Abraços.

      P.S.: Professor, o senhor poderia indicar para quem tem interesse em conhecer de um modo menos superficial os pensamentos do Marx, umas 3 ou 4 obras do autor, colocando em que ordem elas deveriam ser lidas?

    • 05/10/2014 at 04:31

      Cesar deve-se sempre corrigir ou falar o que se pensa, o que eu disse é que devemos saber que há coisas que, se alguém estiver confundindo, então nada pode ser dito. Tem gente que lê um filósofo e diz “tá errado”, mas não percebe que o erro apontado não é o erro que aquele tipo de autor poderia cometer, não por ele ter de ser um sabichão, mas porque o próprio texto mostra que ele pode estar certo. Insisti nisso porque esse é um dado relevante na hora de ler alguém. Aliás, eu não me meto a escrever sobre o que não é da minha carne e sangue, do que faz parte de mim. Pode ver que há filósofos que eu nunca menciono. Sobre Marx, leia o primeiro volume de O capital.Eu tenho um livrinho falado introdutório, pela Universidade Falada, é só entrar no site e baixar.

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