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23/04/2017

Por que pensadores tão diferentes são filósofos?


Por que Marx é filósofo tanto quanto Sócrates? Por que Nietzsche é filósofo tanto quanto Platão? Como pessoas tão diferentes e falando de coisas tão distintas são filósofos? O que as coloca na mesma tradição desse gênero literário chamado filosofia?

Pode-se dizer que eles não fazem religião uma vez que não apelam para dogmas ou para a fé ou para rituais místicos, mas apenas para explicações racionais e causais; pode-se dizer que eles não fazem ciência (experimental), uma vez que não podem submeter suas teses à verificação empírica da mesma maneira que o cientista no laboratório; pode-se dizer que não fazem literatura de ficção, pois elaboram uma investigação objetiva para fornecer uma narrativa, não criando ao bel prazer da própria trama sobre o tema que trabalham o conteúdo da narrativa, como é o caso do escritor. Desse modo, por exclusão, eles ficariam juntos sob uma rubrica final, solitária – a filosofia. Mas não é bem assim. Há um elemento positivo comum que os unifica, esse elemento é a metafísica.

A questão da metafísica é estabelecer, para além-da-física, um elemento comum de explicação do mundo e do nosso comportamento, e ao mesmo tempo um elemento absoluto. Mesmo hoje, quando a filosofia se declara pós-metafísica, principalmente por descartar a busca do absoluto, ela está presa à metafísica por se dizer “pós”, e por procurar elaborar uma narrativa descritiva do mundo que possa substituir a descrição da metafísica, mas sem precisar competir ou se transformar na descrição feita pelos modelos da ciência. É desse modo, por exemplo, que Marx e Platão estão juntos.

Platão se preocupou com a questão da justiça, uma das virtudes gregas, exatamente a quebanner filosofia marx nietzsche socrates platão não se aplicava somente aos indivíduos (como a temperança, a sabedoria e a coragem), mas também à cidade. Ele queria a cidade justa. Ao fazer isso, ele fez investigações para encontrar o fundamento da justiça, ou seja, o justo para além do mundo, o justo perene. O filósofo poderia se livrar da visão dos olhos para só olhar o mundo pela visão do intelecto, e então encontrar a justiça como expressão do Justo, o justo essencial existente no mundo das Formas, das essências. Por sua vez, Marx também esteve preocupado com a justiça, e ele viu que esta poderia se realizar se vivêssemos em uma sociedade igualitária. Todavia, para tal, precisaríamos abolir o mercado, construir uma sociedade sem mercado, o elemento de manutenção da divisão de classes por conta de sua produção de ideologia. O que é a ideologia do mercado? Ora, uma maneira de não deixar as pessoas verem que não são as mercadorias que comandam as coisas, como nos parece quando precisamos de dinheiro para trazê-las conosco, mas que somos nós mesmos que as produzimos. Ou seja, estamos sem enxergar as coisas como elas são exatamente como Platão disse que os não-filósofos não enxergavam as coisas como elas são, e precisariam enxergar se tornando filósofos (e, então, governantes). Desse modo, a investigação de Marx tem um pé na investigação metafísica. Ver a realidade em sua essência, ou seja, em seu fundamento para além do sentidos, para além do físico, ver seu fundo metafísico e, assim, encontrar o Real. Nada de ser engando pelos sentidos e nada de ser enganado pelo mercado. Ver para além da caverna e ver para além da ideologia.

Olhando dessa maneira, Marx se insere na tradição da filosofia, pois está mutatis mutandis fazendo o que Platão fez e vice-versa, ou seja, se Platão estivesse hoje entre nós ele, depois de tomar pé na conversa, no mundo moderno etc., poderia perfeitamente entender Marx como um parceiro.

Esse tipo de paralelo que fiz entre Marx e Platão é possível de se fazer com outros filósofos, sob os diversos aspectos que os caracterizam, sem deixar de fugir dos problemas definidos como filosóficos a partir do rol estabelecido pelo livro A República de Platão. Toda a história da filosofia nada seria senão notas de rodapé na obra de Platão, disse Whitehead, filósofo americano. Ele estava certo. Mas, uma vez posta essas notas de rodapé, o próprio Platão, ao ler sua obra novamente, não seria mais capaz de eliminar as notas e as veria como tão importantes quanto o seu texto. É assim a filosofia.

Por isso a história da filosofia se casa com a filosofia e o filosofar depende da história da filosofia e vice-versa. Por isso, também, a filosofia é obra de confraria e tem de ser feita nas instituições que essa confraria dá aval; no nosso caso, as universidades se tornaram importantes, pois ganharam esse aval.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

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2 Responses “Por que pensadores tão diferentes são filósofos?”

  1. 21/03/2015 at 16:00

    A Filosofia é algo radical, radical por ir aos fundamentos. É visível o radicalismo do Sloterdijk com a sua teoria dos meios de comunicação.

  2. Alberto
    20/03/2015 at 23:44

    Que maravilha professor, você apresente aqui o que uni os filósofos e suas filosofias, algo raro, pois aprendemos a ver nos filósofos o que eles possuem de divergências!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo