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24/08/2017

Filosofia como arte de democratizar pedras


Nós filósofos nos preocupamos com filosofia. Só com filosofia. Filosofia é a arte de distribuir pedrinhas. Coloco pedrinhas aqui ali, servindo para o tropeço de uns e pista para outros. Essas pedrinhas nossas não pedem licença e nem pedem aval de outros, nem mesmo de nossos pares. São pedrinhas nossas. Estão longe de serem “pedrinhas de brilhante para o meu amor passar”, embora até possam ser.

Essa nossa disposição de colocar pedrinhas é vista por outros – os que não sabem nada de pedrinhas – como arrogância e soberba, porque não perguntamos para o mundo se elas foram bem dispostas, se estão ou não da forma estética aceitável ou de uma maneira moralmente relevante. Os professores de filosofia criticam filósofos por conta disso. Há professores de filosofia que rejeitam a condição de filósofos, se escondem atrás de outras pedrinhas, as dos muros da escola, enquanto que nós, filósofos, vamos colocando pedrinhas aqui e ali. Às vezes até nós vamos até lá na escola, e por lá também distribuímos pedrinhas e tomamos pedradas.

Dizem que Jesus andou sobre as águas de um modo falso, que na verdade ele pisava sobre pedrinhas que estavam um pouco aquém da superfície. Dizem por aí que uma pedrinha de kriptonita derrota o Superman. Falam que Godzila ataca cidades da maneira que Deus atacou Sodoma e Gomorra, para não deixar “pedra sobre pedra”. E até contam outros que Pedro, a pedra, foi escolhido como pedrinha inicial da Igreja de Jesus Cristo. O cristianismo mesmo não existiria se Paulo não tivesse caído no deserto e batido a cabeça numa pedrinha, tornando-se então um fanático do bem. Por fim, avaliam o poeta por ele ter dito que “no caminho havia uma pedra” e que há a “educação pelas pedras”. Mulheres como Madalena iriam receber a primeira pedra! O “homem da pedra lascada” – é uma expressão velha de antropólogos e arqueólogos.

Todo esse trabalho com pedras vão para um lado, o filósofo e suas pedrinhas vão para outro. Pois esses trabalhos são feitos até por quem tem pedra na cabeça, enquanto que o filósofo não absorve pedras, ele as distribui. As pedrinhas do filósofo são dispostas de modo a fazer com que alguns continuem a tropeçar e outros continuem a se guiar, não se perdendo na floresta e, então, podendo saber voltar. Sou completamente indiferente aos que lá de baixo ou lá de cima atiram pedras. Caso o Batman, a Marilena Chauí ou Téo Pereira não gostem de minhas pedrinhas, isso eu sei bem que não tem a ver com a filosofia. A filosofia que faço democratiza pedrinhas quase como Deus democratiza o mérito, ou seja, por um jogo de dados, produzindo aqui e por ali distúrbios a la Caim e Abel.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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13 Responses “Filosofia como arte de democratizar pedras”

  1. Lara
    13/02/2015 at 15:03

    “Eu queria ser lido por uma pedra”. Manoel de Barros

  2. Robson de Moura
    11/02/2015 at 08:59

    Perceber nesse texto que ‘havia’ uma pedra no meio do caminho do poeta, provavelmente é mais uma pedrinha certinha (para uns alcançarem uma Educação pela Pedra) mesmo que errada (para outros tropeçarem apontando “o erro”). Muito belo esse con-texto.

    • 11/02/2015 at 09:28

      Robson se gostou, repasse. Obrigado por ler minhas coisas.

  3. Alexandre
    11/02/2015 at 04:05

    Foi com uma pedra que Davi derrubou Golias.

  4. 4F
    10/02/2015 at 23:55

    “O poema ‘Conversa com a pedra’ pode ser lido como súmula da poesia de Szymborska. […] A “pedra” ocupa, portanto, o lugar que cabe a Deus, à morte, ao universo, ao medo, ao desejo, a certas memórias, a tudo que tentamos investigar sem sucesso, a tudo que não sabemos e que, a despeito de nossos esforços, devolve-nos à plena ignorância.”

    In: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-66/despedida-wislawa-szymborska-1923-2012/a-poeta-e-a-pedra

    Poema: http://fabricioboppre.tumblr.com/post/79759900198/bato-a-porta-da-pedra-sou-eu-me-deixa-entrar

    • 11/02/2015 at 09:32

      4F agora sim! É isso, os leitores lendo e construindo!

  5. LENI SENA
    10/02/2015 at 22:33

    “Às vezes até nós vamos até lá na escola, e por lá também distribuímos pedrinhas e tomamos pedradas”. rsrs
    Muito bom!

  6. Raimundo Marinho
    10/02/2015 at 18:36

    Que “pedrada-filosofal” hein Mestre…!!!!

  7. Lúcio
    10/02/2015 at 17:03

    Nossa! Legal demais professor Paulo Ghiraldelli, valeu de novo!

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