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27/03/2017

Pedir segurança é (quase) uma tolice


Uma viagem da Europa para o Brasil no início do século XX era demorada e não trazia todos os passageiros vivos. Não raro, doenças atingiam os navios e as famílias de imigrantes chegavam aqui desfalcadas. Viajar por estradas no século XIX para o XX era algo ainda feito a cavalo, em países ricos ou pobres. O trem era um pouco mais seguro, mas não tanto. Ser assaltado e morto nessas estradas era comum. Nas cidades, na entrada do século XX ainda se andava com arma na cinta em vários dos locais considerados desenvolvidos. Ser morto num assalto qualquer na rua era algo corriqueiro a ponto de não ser um escândalo. E mais: a proibição dos duelos não os fez uma prática desaparecida tão rapidamente quanto se pensa hoje. 

Em 1904 Max Weber e sua esposa Marianne visitaram os Estados Unidos por três meses. Apesar de ter participado de duelos juvenis com espada, Weber se espantou com a rudeza dos americanos com os duelos com pistola, muito fáceis de ocorrer do lado de cá do Atlântico em pleno século XX. Nessa época, há menos de cem anos, estar com a vida em exposição para a morte não era algo difícil de se conseguir. Inclusive, é claro, contribuía para tal as doenças de todo tipo, às vezes tidas como tão incontroláveis quanto haviam sido na Idade Média.

A penicilina surgiu só em 1928. Não é ainda centenária. Ou seja, faz muito pouco tempo que conseguimos não morrer de coisas que hoje acreditamos que nunca alguém morreu delas. Hoje, a vida média da maioria dos países aumentou tanto que falamos de algo chamado “aposentadoria” como se isso fosse a coisa mais antiga do mundo. Todavia, sabemos, essa ideia é algo do governo de Bismarck na Alemanha, como lei de 1889.

Tenho uma filha de 30 anos e um filho de 22. Só o segundo usou fraldas descartáveis. Em 1985 elas não existiam e, quando chegaram, eram impagáveis. As técnicas de nascimento e a puericultura são do século XX e, grande parte delas, só dos últimos vinte anos. O saneamento básico eficiente é também algo muito novo. Até bem pouco tempo a vida média de determinados países, inclusive o Brasil, era baixa justamente pela morte de muitos bebes, muitas crianças. Não havia uma família que não possuísse registro de crianças mortas. Mães mortas no parto, então, nem se fale! No mundo todo, até meados do século XX, parir era tão arriscado quanto ir para uma guerra. Havia mais histórias de viúvos casados com cunhadas do que estamos acostumados hoje em dia.

Em suma: as expressões “estar a salvo” ou “estar em segurança” até bem pouco tempo se referiam a situações imediatamente pós-traumáticas, e não a previsões e muito menos como referência para uma política de estado. Lembrando Foucault e Agamben, podemos dizer: a biopolítica é algo da modernidade. Acrescentamos: da modernidade tardia. Só nossa época conseguiu pensar em um Welfare State desejoso de realizar algo como uma “política de segurança”, um cuidado com a vida enquanto “vida nua” colocada como elemento chave da vida política ou, melhor dizendo, da política em geral. E hoje, em qualquer lugar do mundo, vivemos em segurança. Qualquer cidadão do mundo ao lado de uma Usina Nuclear está mais seguro que um indivíduo que viveu há cem anos numa pacata cidade do oeste americano. Qualquer cidadão de Nova York ou do Rio de Janeiro, São Paulo ou Tel Aviv ou Moscou está mais seguro hoje que alguém que viveu numa pequena cidade do interior paulista na entrada do século XX. Tanto é assim que as pessoas faziam poucos planos para filhos, e só às vezes para si mesmas. A vida social e política, com cargos e títulos de nobreza ou títulos quaisquer era, até bem pouco tempo, muito importante justamente porque a “vida nua”, ou seja, a vida biológica, a exclusiva vida de estar vivo, não contava, pois ela é o que ia embora com muita facilidade.

Se computarmos que há pouco mais de cem anos açoitávamos humanos até morrer em praça pública, ou seja, escravos, e que hoje só alguns jornalistas querem que isso aconteça de novo, temos de convir que uma biopolítica realmente se introduziu como marca moderna na sociedade brasileira, como elemento de uma modernidade tardia. Faz pouco tempo que somos candidatos a humanos dignos. Aliás, só de poucos anos para cá temos proibido crueldade com animais.

Nossa demanda hoje por segurança é uma demanda completamente falsa, em termos históricos, mesmo quando computamos os índices de violência das grandes cidades modernas ou os índices de infecção hospitalar de vários lugares do mundo ou os índices de mortes em epidemias na China ou outros lugares muito populosos atuais. Dentro de parâmetros de possibilidade, estamos seguros. Mas não aceitamos isso, porque nossa imagem dessa segurança é destruída diariamente pela facilidade da comunicação. Todo tiro de um marido traído ou uma bomba de um terrorista ou uma bala perdida no Rio de Janeiro chega na Internet móvel instantaneamente para todos. A indústria da propaganda da morte, numa sociedade segura, faz com que a vida tenha alguma coisa de peso, alguma coisa de real, num mundo que tem hoje, como fato efetivo, o sonho do futuro bondoso, que chegou para uma vasta classe média do mundo todo. Trata-se de uma classe média que se unifica, que tem os mesmos problemas, e que dá o estilo para todo o resto da trama social do planeta. Essa classe média nunca viveu de modo tão leve (Sloterdijk) quanto hoje e, portanto, sente que precisa de algo para dar emoção, para dar peso e sentido à vida frívola que todos temos. Falar de doença e tragédias e dizer-se não seguro é, então, uma das formas de readquirirmos algum peso ontológico para poder dizer: estamos no real. O apresentador Datena é o símbolo da modernidade tardia: tudo transformamos em entretenimento, dado que temos tempo livre e segurança para nos entreter, e então nos entretemos em supor que não temos segurança. Na falta de adrenalina real, pedimos que Datena apareça atrás da porta e faça um “buu!”, para sairmos do tédio. Os nazistas já haviam percebido a necessidade do fim do tédio. Um oficial nazista costumava dizer: “poderão dizer tudo de nós no futuro, mas jamais que fomos entediantes”.

Desse modo, todo e qualquer pedido por segurança, vindo dos governados, só serve para ampliar o destacamento policial ou médico do governo contra a população que cria tal demanda. Os governos redirecionam esses pedidos no sentido de fazer girar o mundo econômico, fomentando a indústria farmacêutica e a indústria de armas e derivados (que não são poucos) e, ao mesmo tempo, gerando negociatas e ampliando o aparato de controle e repressão não ao banditismo, doenças ou terrorismo, mas aos movimentos populacionais em geral. Ainda hoje, nos Estados Unidos, apesar Kennedy e Obama, a polícia se destaca pela violência e eficácia ao reprimir movimentos de protesto negro e latino de uma maneira que, não raro, lembra os grandes confrontos raciais dos anos sessenta. E hoje, no Brasil, o governador de São Paulo compra gigantescos, sofisticados e caríssimos carros de guerra de Israel, um aparato que não tem nenhuma utilidade contra o crime comum, mas é efetivamente recomendado pelos israelenses para combater movimentos populares como, por exemplo, as Intifadas (!). São Paulo não tem Intifadas, a não ser que o governador pense – e de fato ele pensa – que jovens pedindo para não fechar escolas e para baixar o preço do ônibus seja uma antifada. Certamente revoltas em favelas contra a violência policial é sempre, para o governo, uma espécie de Intifada e assim é tratada.

Quando vamos aos hospitais brasileiros notamos o mesmo raciocínio: compras de lotes de vacinas que não funcionam, remédios que não podem ser usados porque o governo não liberou, enquanto em outros lugares já foi liberado e vice versa, o que mostra que as decisões sobre tais coisas não são as “decisões técnicas”. Notamos também como que programas como os “Mais médicos” são meramente eleitoreiros, pois não são acompanhados de melhoria do ensino brasileiro de medicina e muito menos da compra do material para que os médicos possam atuar. A demanda por segurança é atendida, mas como ela não tem base tão real quanto pensamos, pode-se dar para tal uma solução também aparentemente real — afinal, pouca coisa muda. Isto é, os índices de mortalidade irão continuar a diminuir, quando comparados historicamente. E terão oscilações momentâneas pequenas, quando medirmos isso sem perspectiva histórica, apenas por cronologia diminuta.

O vitimismo mundial de estados ricos diante do terrorismo e o vitimismo da classe média diante de falta de hospitais e falta de segurança contra bandidos tornou-se algo com pouca base real e, ao mesmo tempo, um prato cheio para uma fome de criação de engodo sobre todos nós. Engodo sobre democracia (que ela vai ser preservada mesmo com aumento do aparato de segurança) e engodo sobre o quanto estamos ainda devendo algo a se fazer em matéria de segurança (o engodo de que o milagre da morte evitável de uma vez por todas está demorando para chegar).

Somos os que fazem com que todo ano apareça um liquidificador novo, pois tudo está velho e ultrapassado e precisa logo ser renovado para que o mundo do milagre prometido chegue de uma vez por todas. Não notamos, então, que o liquidificador fez cem anos só agora, em 2016. Aliás, o sutiã também é só recentemente centenário. Ou seja, com nossa pressa por certas coisas que já temos nos faz criar demandas de coisas que são desnecessárias, mas, às vezes, como no caso da segurança, nocivas. Pedimos sonhos que já vivemos e podemos então gerar feitos políticos que vão nos causar pesadelos.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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4 Responses “Pedir segurança é (quase) uma tolice”

  1. Joedson Paulo
    23/02/2016 at 11:51

    Paulo,

    Obrigado por levar a sério essa tua profissão-missão de questionar…
    Esse foi mais um excelente texto.

  2. Valdério
    20/01/2016 at 14:02

    Paulo,

    Sem humor a vida não vale a pena.

    Depois de ler o seu texto, em particular a introdução, percebi o quanto meus amigos e eu somos chorões com as mortes dos personagens da série Game of Thrones! Nossa expectativa de sobrevivência daqueles que preferimos está fora de propósito com a própria realidade virtual (medieveal) estabelecida pelo criador da série.

    Acredito que nosso poder público aproveita o medo generalizado da população para avançar contra nossas liberdades individuais. Avança inclusive, contra nossa segurança, alegando proteger-nos (de quem?).

  3. Daniel
    19/01/2016 at 02:14

    Pensei nesses dias sobre a sociedade líquida de Bauman. Sociedade líquida aquela que se esfarelou até os seus valores virarem água. Mas ao mesmo tempo essa água se espalhou para todo o mundo, como o modo de vida norte-americano por exemplo . Então, ao invés de virar uma sociedade de luz, como queriam os modernos, virou água suja, então tudo o que ela produz é decadente. Não concordo com ele e estive pensando no que escreveu sobre a sociedade da leveza e desoneração em relação a Sloterdijk. Me parece mais preciso que a a leveza ou a liquidez como pretende Bauman, foi um projeto e não uma decadência, ou seja, as relações não se apodreceram e sim mudaram por causa dessa relação contratual que inventamos com os modernos, a de fazer tudo por garantias de segurança, tão cara de se fazer até meados do século XX. Por enquanto, me parece que o pedido de segurança sem mesmo existir um risco de sua falta é equivocado porque como você disse, a segurança que se movimentava agora estacionou e precisa ser mexida para sentirmos um peso. Penso que não é questão de achar o pedido de segurança uma tolice e sim mais um sintoma de que estamos mudando as relações porque nossas formas tradicionais de produzir peso estão se desgastando, como por exemplo a linguagem científica de escrevermos por conceitos, a música popular que ainda dá para escutar mas ainda preocupados com palavra de efeito ou as religiões. Se quisermos produzir peso temos que nos transformar também. Por isso, o preconceito de filósofos e pessoas conservadoras sobre a Internet, porque ela é uma nova ferramenta de comunicação e principalmente de experimentação que pode nos permitir produzir novos pesos. Penso assim por enquanto.

    • 19/01/2016 at 08:32

      Daniel, por favor, leia bons livros. Baumann não. Não dá. É bobagem do senso comum.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo