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16/08/2017

Os pecados diante de Contardo Calligaris e Santo Agostinho


Para Contardo Calligaris (1) a necessidade tem a ver com suprir carências básicas, quase corporais – fome, por exemplo. O desejo, para ele, tem a ver com suprir carências supérfluas – ter um rádio ao invés de comida, mesmo em uma situação de fome. A distinção entre desejo e razão é da psicanálise, nós filósofos, ao menos alguns – os que são mais ou menos discípulos de Santo Agostinho, como eu – preferem a distinção entre razão, vontade, memória e desejo. Nesse caso, o desejo é o que vem da necessidade corporal, enquanto que a infração é algo que pode ser cometido pela vontade – a má vontade.

Fazemos essa distinção porque temos, como Agostinho, de lidar com o mundo moderno em que não podemos fugir da ideia de livre-arbítrio, que Nietzsche (2) definiu bem como sendo o prazer de romper barreira, o prazer quase que físico, muscular, de se dispor a fazer algo. Assim, não é o desejo a fonte do pecado, para Agostinho, mas a vontade. Não basta o desejo, é necessário a vontade para que atuemos. Com essa psicologia, Agostinho conseguiu fazer duas coisas, a saber: lidar com uma nova concepção de tempo e lidar com o mal.

Primeiro. Livrou-se do tempo cíclico pré-cristão, onde tudo pode retornar mil vezes e, portanto, o futuro é algo pouco delimitado, e passou a lidar com o tempo linear cristão, em que o futuro vem depois do presente e se torna passado, não voltando nunca mais – isso criou a possibilidade de falar de uma faculdade que os antigos não descreviam ou tematizavam: a vontade. A vontade, que não só decide pelo já existente mas cria o inexistente, é o que resolve que haverá futuro, ou seja, que o homem fará algo agora e que isso mudará o que vem depois, distinguindo muito bem o que vem depois do que ocorre agora, que então passa a ser o que já ocorreu.

Segundo. Conseguiu explicar a ação má, coisa que não era problema para os filósofos gregos, que no máximo tinham que descrever o ruim. A ação má vem da deliberação má do homem. E o que é uma deliberação má? É aquela que ao invés de buscar uma situação perene, um via para a felicidade e, portanto, para os grandes valores, que sendo perenes estão sempre na ordem de Deus, busca o que é meramente contingente, passageiro, e que não sacia, pelo contrário, faz reaparecer a atuação da vontade de decidir mais uma vez – eis que se tem aí não a realização da virtude, mas a aquisição do vício. A boa vontade, diferentemente, é quase uma não vontade, uma vez que perde sua condição básica de contingente e segue na direção da perenidade, de nem ter mais que se preocupar em agir. Nessa condição, o espírito encontra a paz, e, portanto, Deus.

Desse modo Agostinho fez do pecado algo do “interior”, algo não do corpo, da carne, como São Paulo diria, mas, diferente deste, algo da decisão do espírito. A decisão é sempre da vontade, para julgar algo e para criar algo. Alimentar o próprio ego, ou seja, realizar o que a vontade quer de modo passageiro é o perigo. Daí o cultivo cristão da humildade. A humildade cristã verdadeira não é um abaixar cabeça para o outro, mas um abaixar cabeça para Deus, para o perene, contra o próprio ego que está sempre ávido de deixar de lado a finalidade inicial e então se locupletar em uma nova e falsa finalidade, o bem estar do aplauso por ter realizado o que realizou.

Por isso tudo Agostinho nunca viu pecado no roubo provocado pela fome, e talvez pudesse até perdoar o pecado do roubo de alguém que quisesse se vingar de outro, ou seja, de um proprietário maldoso. Ele viu pecado no roubo decidido por uma vontade que quer a satisfação do ego (3), o bem estar produzido pelo romper o proibido, o roubo que dá momentaneamente não poder, mas a sensação de poder. Esse é o pecado e é isso que Calligaris, chamando de desejo, diz que pode provocar o erro e então a ação criminosa.

Penso que se conseguimos olhar as coisas assim, aglutinando a explicação de Calligaris e a de Agostinho, e acertando os vocabulários, então estamos preparados para não cair na esparrela daqueles que acham que o crime tem a ver com a fome antes que com o prazer, tem a ver com a necessidade antes que com a deliberação. E com isso não estamos tirando nenhuma razão dos sociólogos, sempre ávidos em dizer que as condições sociais é que criam os criminosos. Claro que são! Mas, devemos acrescentar, com Calligaris e Agostinho, que o crime só ocorre quando surge uma intenção que está junto do pensamento que se associa à vontade.

Agostinho foi tão longe com sua tese que conseguiu, então, satisfazer o pedido cristão de transformar o pecado em algo não só de atos, mas de intenções. Com isso, todas as portas estavam abertas não mais só para a lei, que pune o criminoso, mas para o confessionário, que pune e oferece redenção fora do plano terrestre para o criminoso. Hoje em dia nem é preciso mais levar a culpa para ser expiada no altar dos herdeiros de Agostinho, pode-se buscar a expiação em processos do próprio Calligaris, em sua clínica. Mas isso já é outra história.

(1) Desejo e necessidade, Folha, 21/05/2015.

(2) Ver Nietzsche no aforismo 19 de Além de bem e mal.

(3) Ver o capítulo do roubo de peras, nas Confissões de Agostinho.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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