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27/05/2017

Pascal


“O eu é odioso”. Essa frase de Blaise Pascal (1623-1662) faz parte da tosca e penetrante ideologia da humildade? É mais um daqueles elementos popularescos de certo tipo de cristianismo, cujo serviço é o de tirar das pessoas o orgulho próprio e submetê-las ao orgulho de outros?

Além de ser visto como cientista, Pascal foi lido no contexto das interpretações da história da filosofia como apologeta cristão. Mas os filósofos mais sábios – Nietzsche à frente – puderam ver nele também um filósofo autêntico e um psicólogo moralista.  “O eu é odioso” deu vazão a uma reflexão que se iniciou de uma maneira religiosa para, ao fim e ao cabo, chegar a elementos interessantes de política, passando por um campo importante do que seria, mais tarde, a teoria da subjetividade.

Como isso se deu?

Conversando com sua irmã por carta, quando da morte do pai, Pascal enveredou pela ideia de que Deus criou o homem com dois amores, um amor infinito pelo criador e um amor finito por si mesmo. A Queda e o rompimento com Deus teria deixado o homem somente com o segundo amor, o qual passou a se expandir para ocupar o vazio, então sentido pelo homem. Esse amor de si tornou-se o amor-próprio, apresentando o eu como centro do mundo. O orgulho seria, assim, a principal concupiscência.

O eu emergiria como odioso: “o eu tem duas qualidades: é injusto em si, fazendo-se centro de tudo; é incômodo aos outros, querendo sujeitá-los: pois cada eu é o inimigo e desejaria ser o tirano de todos os outros” – escreveu Pascal nos Pensamentos. Tentando então mostrar que esse sentimento do eu não se baseava em nada defensável, Pascal lançou-se na explicação do amor do eu pelo eu, e com isso chegou à sua célebre formulação do ego esvaziado. O trecho célebre sobre o assunto foi assim escrito:

“O que é o eu? Um homem que se põe à janela para ver os passantes, se eu estiver passando, posso dizer que se pôs á janela para ver-me? Quem gosta de uma pessoa por causa de sua beleza, gostará dela? Não, pois a varíola, que tirará a beleza sem matar a pessoa, fará que não goste mais; e, quando se gosta de mim por meu juízo (por minha inteligência), ou por minha memória (capacidade de memorizar), gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois, esse eu, se não se encontra no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, senão por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possível, e seria injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades. / Que não se zombe mais, pois, dos que se fazem homenagear por seus cargos e funções, porquanto só se ama alguém por qualidades de empréstimo” (Aforismo 322 – Pensamentos)

Ao acompanharmos atentamente o raciocínio pascaliano, o que sobra do eu para ser amado? Exatamente os adereços, não o que inicialmente seria o seu essencial. Desse modo, por que haveria de se dar razão ao eu quando este, em vão, buscaria fazer de si o principal ponto de chegada do amor?

Mas não é só essa conclusão, em favor da conversa religiosa e teológica sobre a concupiscência, que foi tirada dessa análise do eu. Podemos ver aí também um elogio às avessas do personagem do conto “O espelho”, de Machado de Assis. Nesse conto, sabemos bem, o alferes só se vê como pessoa, uma vez solitário, quando veste seu uniforme militar. Sem este, o pobre diabo estava praticamente se diluindo diante do espelho. Machado fez desdém dos adereços diante do vazio do eu do alferes. Pascal, ao contrário, acabou mostrando que os títulos têm lá se valor, que as hierarquias merecem o que merecem, pois sem elas, e sem Deus, no que se agarrar para voltar a ter o preenchimento da vida, o amor?

Não é de se fazer pensar? Ao mostrar que o eu nada é senão algo que funciona como um cabide, Pascal não estaria dando a chance para um mundo nada democrático, mas eivado de necessárias hierarquias, as mais tolas possíveis?  Não teria ele, nesse caso, se indisposto novamente com o seu desafeto intelectual, Descartes? Afinal, ao contrário de ver a razão como a coisa “mais bem distribuída entre os homens”, como Descartes dizia, Pascal viu as hierarquias como o que é mais bem distribuído entre os homens, fossem essas distribuídas justa ou injustamente.

Teríamos então, a partir da análise do “eu odioso”, duas vertentes de investigação: por um lado todas as pesquisas contemporâneas, pós Nietzsche, Freud e Marx, a respeito da descentralização do eu, do desmoronamento das teorias tradicionais da subjetividade; mas também, por outro lado, uma forma metafisicamente sofisticada de dizer que ou temos nossos uniformes de alferes, cada um com a sua patente, ou antes, nem teríamos qualquer amor-próprio, qualquer afeto por si mesmo, pois nem sequer nos reconheceríamos.

 Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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12 Responses “Pascal”

  1. Thiago Leite
    24/09/2014 at 10:49

    ok!

  2. Thiago Leite
    23/09/2014 at 15:42

    Como um comunista conseguiria identificar-se consigo mesmo no meio de iguais em plena URSS? Nesse caso, como é possível dizer a si mesmo que eu sou eu e você é você se todos somos iguais.

    • 23/09/2014 at 16:45

      Thiago Leite eu acho que você deveria ler os textos lendo os textos. Texto não é pretexto.

  3. Thiago Leite
    23/09/2014 at 15:33

    E a localização do eu? Ela existe?

    • 23/09/2014 at 16:45

      O texto se basta, Thiago, é só se esforçar um pouco.

  4. Thiago Leite
    23/09/2014 at 15:26

    Então como identificar-se? O que nos distingue dos outros a priore?

    • 23/09/2014 at 16:46

      Thiago, não existe “a priore”. Não há “e” nisso. O texto dever ser lido, estudado, pensado. Além disso, há obras na lateral do blog que podem ajudar.

  5. Thiago Leite
    23/09/2014 at 15:13

    O eu é um cpf biológico.

  6. Diego Michel
    18/09/2014 at 23:40

    Paulo, a “descentralização” do eu seria equivalente à ideia bastante difundida de “fragmentação” do eu?

    • 18/09/2014 at 23:49

      Diego a briga contra a filosofia do sujeito dá nomes variados aos processos que montam a filosofia contemporânea nessa luta.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo