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20/09/2017

Para os últimos petistas e o resto do PT 2.0


Alguns amigos sempre me qualificaram como uma pessoa de esquerda, ainda que eu os tenha ensinado que a filosofia é anterior a isso e uma pessoa como eu, que não tem outra vida senão a de filósofo, mesmo como cidadão não tem filiação à direita e à esquerda em termos políticos. Mas, como todo filósofo é, não raro, um mudancista, dado que o exercício do pensamento parece, por ele próprio, empurrar para novidades, então, é mais fácil me ver no campo liberal, no sentido americano do termo.

Digamos que tenho uma sensibilidade liberal, o que em termos americanos significa sim estar mais à esquerda. Afinal, a esquerda americana democrática fala em igualdade sem esquecer da liberdade, o que a esquerda social democrata europeia, por conta de um resquício marxista, às vezes preza somente a igualdade.

No entanto, isso confunde alguns, e nos últimos dias, por conta do fim definitivo do PT diante de mais uma crise, alguns torcem o nariz para comigo (até ex-orientandos amigos, que infelizmente me enganaram, pois eu imagina que tinham me entendido! Sim, há orientando que finge que leu algo do orientador!). Querem que eu fique do lado dos que defendem o decrépito governo da Dilma e o líder mais decrépito ainda chamado Lula da Silva. Ora, nem do lado de Vargas, Jango ou Brizola eu fiquei! Muito menos ficaria do lado de um arremedo desses tipos.

Essas pessoas não percebem que não existe monopólio das melhores bandeiras da modernidade. No Ocidente, em geral uma pessoa com boa educação, com boa formação e leitura, é sensível para com a defesa dos animais, o movimento ecológico, as teses mais gerais do feminismo, os direitos de negros (o que significa cotas étnicas para integração, e não uma política educacional toda baseada em cotas), o direito dos gays inventarem direitos, o apreço pela liberdade de expressão nos termos ocidentais da democracia liberal, a defesa dos direitos humanos e individuais defendidos contra arbitrariedades do Estado (como se pode notar, é um conceito específico: contra as arbitrariedades do Estado, não qualquer outra agressão) e, enfim, formas variadas de política social no sentido da diminuição da desigualdade social e econômica – algo que pode ir de Rawls a Rorty passando pelo solidarismo de Peter Sloterdijk (que aqui no Brasil, por outras vias e doutrinas, foi defendido por Paul Singer). As esquerdas e os liberais têm se colocado na dianteira na sustentação dessas bandeiras, mas isso não impede os conservadores de darem contribuição aqui e ali, às vezes como críticos interessantes dessa plataforma moderna. Olhar pelo retrovisor não faz mal a corredor nenhum, quando ele sabe assim fazer, de modo a não perder o rumo da estrada.

Às vezes um conservadorismo religioso, como o que pode vir do papa Francisco ou mesmo aquele vindo de papas efetivamente retrógrados, ajuda a modernidade a se repensar: a questão do aborto, das células tronco (onde deu certo a tese conservadora), a noção de bondade ligada ao cristianismo etc. – todas essas questões dão balizamento ético para decisões que o Iluminismo moderno quer tomar afoitamente, sem consultar seu primo irmão, o Romantismo. Consultando-o, a modernidade dá passos mais lentos que, não raro, ajudam a acertarmos o nosso caminho (escrevi sobre isso mais detalhadamente em outros artigos, aqui e em livros).

Mas, o que quero falar com tudo isso, é que se não há o monopólio do bem pelos liberais e pelas esquerdas, muito menos isso cabe a um partido político. E menos ainda aos partidos que se envolveram claramente no populismo e, pior, na corrupção. O caso do PT, então, é o o pior já notado ultimamente. A corrupção lhe tomou pelo corpo todo e o banditismo chegou às práticas de cúpula. Desse modo, é natural que as teses de ideais liberais e de esquerda sobrevivam por meio de outros agentes históricos e outros atores sociais. A chantagem do PT hoje não tem mais sentido: pedir para se ficar com Dilma e Lula porque o oposto seria pior é acreditar que  não temos inteligência para criar algo melhor, que temos que ceder à oposição política corrupta. Ora, isso é muita falta de imaginação e muita preguiça de pensar. É confissão de limitação mental. Ou então é, mesmo, o desejo de viver com bandidos ou maluquetes,. Nesse último caso, é ficar com os que falam que Moro tem poder porque “enfraquece o Mercosul”! Essas coisas são ditas por professores que são antes do PT ou do PT 2.0 que da Universidade, e que estão pedindo para serem buscados por ambulâncias e homens de branco.

Paulo Ghiraldelli , 58, filósofo.

 

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20 Responses “Para os últimos petistas e o resto do PT 2.0”

  1. Henrique
    03/04/2016 at 10:41

    Doutor Paulo, o senhor viveu a ditadura, sabe como a vida no Brasil é difícil, como os pobres são mal tratados. Com o Pt o pobre ganhou dignidade, o Brasil deixou de ser um pais de pessoas que passavam fome, o pobre passou a comer 3 vezes por dia. Mas ao que parece isso incomoda as elites. Não podemos perder essas conquistas sociais, o Pt pode não ser tudo o que esquerda quer, tudo o que senhor quis, mas sem o PT estaremos orfãos e sem esse Estado que pode nos oferecer bem estar social.

    • 03/04/2016 at 11:02

      Henrique, eu fui preso na ditadura. Eu sei mais coisa que isso que colocou aí. Agora, uma coisa que sei: honestidade é bom sempre, não vale a pena trocá-la por nenhum prato de comida.

    • LMC
      05/04/2016 at 11:41

      Henrique,te contaram essa do pobre
      passar a comer 3 vezes por dia e
      você acreditou.É a Pegadinha do
      Malandro(com um “L” só,não como
      o Mallandro original,com dois “L”).

  2. Orquideia
    03/04/2016 at 08:30

    Os alunos que o sr.orientou,e que continuaram “petistas fanáticos” leram sim seus artigos.
    Mas esqueceram tudo.
    Quando as pessoas tem uma crença, ficam [para sempre] surdas e cegas para as informações que a contrariam.
    A lógica demora anos para entrar numa mente “conturbada pelo apego”.

    E para muita gente,o petismo é uma …”religião”.

    • 03/04/2016 at 08:52

      Orquídea, não leram. Fingiram que leram. É um tipo de leitura que engana o orientador. Todo bom filósofo é ingênuo até nisso. Sou um bom filósofo.

  3. 03/04/2016 at 00:54

    Paulo, concordo em número, genero e grau “últimos petistas 2.0″… Tenho que ouvir de pessoas próximas e fanáticas pelo PT que historicamente o Brasil sempre foi corrupto, como se isto desculpasse atrocidades políticas governamentais dos irmãos PT e sua gang. Vergonhoso o momento que o Brasil está passando!… Graças a Deus há pessoas que raciocinam neste país para alavancar todas as mudanças que merecemos.

    • 03/04/2016 at 02:28

      Obrigado Claudia, é uma luta raciocinar e convidar ao raciocínio, principalmente nesse clima em que o PT faz chantagem, acusando de “fascista” todos que divergem. Claro, há fascista divergindo do PT. Mas não conta.

  4. Lucas
    02/04/2016 at 21:17

    Paulo, você já viu uma palestra recente do Luiz Eduardo Soares falando que o impeachment não é a solução, mas sim, a criação de mecanismos ou algum mecanismo ou lei que crie uma nova eleição para que a população vote não no PMDB, pois ele nesse vídeos afirma que colocar o PMDB é a continuação do PT e que a mídia a partir da posse do Temer iria levar o povo a esquecer das investigações da Lava-Jato. O que você acha disso? Link para o vídeo
    https://www.youtube.com/watch?v=0OoMGPAxJks
    Lucas do Rio

    • 02/04/2016 at 23:31

      Impeachment não é solução, concordo. Mas o PT tornou as coisas irreversíveis e acho que o LE concorda comigo em pedir eleições.

  5. Luciana
    02/04/2016 at 20:56

    É isso aí Paulo! Penso, logo não sou do PT!! É primordial termos o senso crítico, sermos capazes de pensar e chegar às nossas próprias conclusões!! Não quero e não preciso de um partido pensando por mim! É deplorável ver tantos jovens incapazes de escutar, desconfiar, investigar, pensar, para chegar à uma conclusão……

    • 02/04/2016 at 23:32

      Partido pensando por você, Luciana, é uma desgraça, um líder sabichão pensando por você, pior ainda.

  6. Maximiliano Paim
    02/04/2016 at 18:30

    Talvez num futuro próximo possamos presenciar o pedido das ruas por candidatos sem qualquer partido.

  7. 02/04/2016 at 16:18

    Paulo, vc é esquerdista, mas está puxando o saco da direita pq vc quer ser contratado pela Veja. Vc vê todos os seus colegas na mídia, e só vc de fora, daí vc quer tbém.

    • 02/04/2016 at 17:12

      Zé!
      1) Não, meu caro, eu não preciso de trabalhar para além dos meus livros. Você precisa, trabalhei. E nasci rico e permaneço rico.
      2) Outra coisa: NÃO tenho nenhum colega na mídia, e o Hora da Coruja eu só faço porque é da minha esposa, não tenho nenhum interesse em mídia de maior porte, só na que sou livre para falar. Já trabalhei nisso, na Folha e no Estadão e outros lugres, não é meu caso. Aliás, nem posso, ainda estou em tempo integral na universidade.
      3) Sobre ser “esquerdista”, você não sabe o que sou, não é meu leitor, não é capaz de entender o que escrevo em filosofia e aparece aqui apenas para receber atenção.
      4) Sabe Zé, quando vejo uma pessoa como você, gemendo para ter minha atenção, eu fico com pena e acabo dando atenção. Mas veja, não adianta tentar conversar comigo toda hora. Suas agressões cansam, seu modo meio tonto cansa, sua incultura cansa. Tá? Não irei mais atender você.

    • Carlos
      02/04/2016 at 18:03

      Também acho isso. Debandou pra direita de vez. Quer fazer companhia pro Pondé na TV Cultura.

    • 02/04/2016 at 23:34

      Carlos, é que você não é uma pessoa que lê, e portanto não sabe quem eu sou o que escrevi. Aliás, não sabe nada, por isso sua opinião foi essa. Não concordo com nenhuma linha com o Pondé. E já disse meu caro, eu já tenho programa de TV.

    • LMC
      05/04/2016 at 11:45

      No Jornal da Cultura,toda segunda
      tem o Aírton Soares,que puxa o
      saco da esquerda,como você,
      Carlos Bronco Dinossauro.Xô!!!!!

  8. Fabio Damasio
    02/04/2016 at 16:03

    Concordo em gênero, número e grau. Muita emoção junta tira a razão e, sem razão não somos os animais que imaginamos ser.

  9. 02/04/2016 at 15:28

    Se candidate ae, Paulo.

    • 02/04/2016 at 17:14

      Zé, sei que quer minha atenção, mas não quero a sua.

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