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23/03/2017

Para onde pode correr nossas energias utópicas?


Quase ao final de seu belo livro Ira e tempo, de 2006, Peter Sloterdijk escreve, lembrando de trinta anos atrás, quando ainda existia o comunismo: “ninguém teria decaído outrora no patético slogan: um outro mundo é possível. O outro mundo estava entre nós e ele era terrível”. (1)

A maioria dos intelectuais ocidentais, já durante toda a era Brejnev, não tinha mais dúvida que nenhuma vida vingava na URSS, a não ser a do completo marasmo. Era um projeto falido em termos econômicos, políticos, morais e intelectuais. Só não se imaginava sua derrocada, porque acreditava-se na instituição militar e no estado policial como uma ancoradouro de sofrimentos maiores. Logo quando veio o fim, percebeu-se que aquilo que havia ruido era não somente o comunismo existente, mas todo e qualquer tipo de socialismo, até mesmo a social-democracia passou a ser questionada, coisa que já vinha acontecendo antes, desde meados dos anos setenta.

A economia de mercado, o capitalismo, parece agora ter realmente acumulado séculos de convivência com a crise. Sabemos hoje, mais que nunca, que a crise é inerente ao capitalismo, mas sabemos mais, ou seja, vemos que o capitalismo sabe bem que a crise lhe é inerente e ele próprio criou meios de conviver com os seus picos. Assim, “um outro mundo é possível”, agora, pode ser falado porque o tal outro mundo, que era terrível, não existe mais. Mas, a bem da verdade, mesmo os que falam essa frase, não ousam dizer que se trata do socialismo. Eles sabem muito bem que qualquer alternativa que se possa colocar  no horizonte terá de ser alguma coisa que em nada lembre o socialismo. Caso seja isso, então não se deverá falar em “outro mundo”, e sim em inferno velho.

Ninguém faz política adulta, hoje, pensando em socialismo. Nem é o socialismo o contraponto, hoje, do capitalismo – se é que deva existir algo como contraponto a um modo de vida que ganhou tamanha universalidade. O embate Capitalismo versus Socialismo tornou-se algo obsoleto. Nem mesmo em termos de filosofia política é possível levar a sério o que Sloterdijk chama de trajetória do animal totemizado, a toupeira. Ninguém mais acredita – em um mundo onde tudo que fazemos é nos apossarmos do aparente exatamente porque nada é mais possível de ser escondido – na capacidade de estarem ocorrendo movimentos nos porões da sociedade, e que serão responsáveis pela eclosão da revolução. O totem-toupeira não tem mais adoradores. Caso Marx andasse hoje entre nós, ele teria um simples cão como companhia, de preferência um Golden, jamais uma toupeira.

A sociedade de mercado em associação com o tipo de capitalismo que temos é uma sociedade do aparente que aparece, do visível e do mais que visível. Todos nós temos a chance de ver tudo e se há ainda alguma ideologia ela funciona pelo excesso de visão (veja o artigo anterior), não por falta. Sabemos como todos fazem sexo ou escondem dinheiro ou de que modo limpam suas vergonhas. Tudo é muito às vistas. O capitalismo é tão descarado que ele põe nos produtos a data de obsolescência programada, cujo núcleo ele chama de “garantia”. Concordamos que as coisas sejam assim, tudo à luz do dia, ao menos no Ocidente. Ainda cumprimos os objetivos do projeto das Luzes – por isso a treliça nas janelas, o véu, a burca e outros tipos de cobertura não são ocidentais. Conosco, nada mais não pode ser visto. O cigarro informa que causa morte e os produtos comestíveis informam nas suas embalagens os seus ingredientes tanto quanto as moças informam o quanto de silicone puseram e onde puseram. Essa orgia que começa nas mercadorias e força a democracia ao seu descaramento atinge as relações pessoais: ou se manda “nudes” ou não se está sendo educado. Ninguém pede visibilidade, todo mundo pede transparência. Ou seja, o que se quer é atravessar corpos com a visão. O visível que ser tanta visibilidade que dilui o objeto. O regime da propriedade privada inaugurou agora um novo conceito de vida privada: há ainda a posse, mas nada é reservado. Quem se diz vouyer num mundo como o nosso, onde há milhares procurando pornografia na Internet, não sabe nada sobre vouerismo que, enfim, não existe mais.

Assim, “um outro mundo é possível” é patético. Pois ele é vazio. O conceito de outro mundo não tem qualquer referente imaginado. Não podemos esconder nada e, então, todos sabem que a frase ou se refere ao socialismo, o que ninguém diria, pois se tornaria alvo de piada ou desleixo, ou então é o próprio vazio mesmo, não se referindo a nada. Afinal, sabemos que há realmente nada a dizer quando se fala “um outro mundo é possível”.

Mas sabemos, também, que em todo lugar que essa frase pode, talvez, em algum momento, estar apontado para algo sério, esse lugar esposa velhos ideias básicos de Locke: direito fundamental à vida, à liberdade e à propriedade. “No que diz respeito à história de sucesso dessa tríade, as descobertas históricas são evidentes: somente nas regiões do mundo em que essas normas são respeitadas, esclarecimentos estão realmente em curso”. (2).

Sloterdijk aponta para mais um requisito, ainda, para a continuidade saudável desse tríade, e esse seria a incorporação de um programa de higienização, mais ou menos como o que Nietzsche pensou, capaz de provocar a “dissolução da figura tóxica da ‘humildade vingativa'”. Nesse caso, dever-se-ia pensar no agente dessa dissolução, que nada seria senão uma “inteligência que se certifica novamente de seus motivos timóticos”. (3)

A oposição aqui é entre motivos timóticos versus eróticos. Estes últimos, empurram os afetos para o interior de uma cultura da posse. Afinal, o amor ou o desejo é o que quer se completar. Os primeiros, diferentemente, empurram para a cultura da ira, do orgulho, ou seja, dos elementos da identidade. Nesse caso, pode-se pensar na generosidade, numa cultura em que esteja em alta conta antes dar que receber. Dar até mais do que se tem, para poder se orgulhar e, então, obter o que é fundamental para o homem, como Hegel o pensou: o reconhecimento.

(1) Ira e tempo. São Paulo: Estação Liberdade, 2012, p. 244.

(2) Idem, ibidem, p. 298.

(3) Idem, ibidem, p. 298.

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8 Responses “Para onde pode correr nossas energias utópicas?”

  1. ABC
    23/05/2016 at 12:56

    Paulo,
    Primeiro, gostaria de dizer que acompanho você a muito tempo e seus textos me abrem novas possibilidades de interpretação e me aproximam de autores em relação aos quais eu talvez não tivesse acesso.
    Vi seu comentários sobre Lacan acima e, compreendendo seus argumentos, acho que há no psicanalista francês uma abordagem grande desse tema, por meio de conceitos filosóficos e de linguística, de modo a poder contribuir para a discussão.
    Especificamente, no tema do reconhecimento em Hegel, do vazio da identidade e da diluição do objeto pela visão, novas frentes são abertas por ele. Bastante resumidamente, muito resumidamente, com o grande risco que isso representa, tem-se que Lacan percebe que nossa subjetividade depende do reconhecimento e que a princípio surgimos através da linguagem do outro na forma de corpo vazio, representável em imagem e angustiado pelo reconhecimento identificatório na linguagem. A pulsão visual portanto já está no início tendo o próprio corpo como objeto. Percebeu também que os objetos de consumo, que ele chamou de latusas, orientavam nosso reconhecimento em nosso tempo. O ponto para ele é que todo reconhecimento em si tem intrínseco a diluição do objeto criado, ou seja, qualquer identidade tem sua ilusão de completude embutida, com suas aparições na clínica. Nas identidades estabelecidas sobre uma generosidade e atos generosos, por exemplo, é comum encontrarmos pessoas que querem a morte daqueles que lhe ajudaram; o apego ao limite à qualificação de bom, paralisando qualquer outra forma de diálogo; a excessiva subserviência e tentativa de agradar ao outro acima de tudo, como faz o obsessivo, mas com um ódio recalcado, etc. Claro que os espaços capazes de nos fazer sermos uma versão melhor de nós mesmos não se dão sem novas via de reconhecimento – e atualmente esses espaços de reconhecimentos no ocidente se dão sobre o reconhecimento mestre de ser consumidor/ ser para o entretenimento -, mas no limite somos seres de linguagem, uma linguagem radicalmente estruturada sobre múltiplas interpretações, faltante, sempre criada em um tempo lógico específico no qual não pode se autocompreender. Tal fato estrutural nos coloca como seres que, mais do que estruturados sobre reconhecimento, transitam por reconhecimentos sem sentido absoluto. Isto aponta para a necessidade da certificação de nossos motivos e estrutura linguísticas, mais do que timóticos. As possibilidades mais amplas que temos de trânsito interpretativo, de comunicação, de novas vias, de novas narrativas, se dão quando vivemos o movimento, a equivocação pela fala de orgulho em orgulho e nos damos conta disso. É que o buraco que nos faz por lógica criar na comunicação está na linguagem e não no orgulho, embora não sem esse.
    Bem, eu quis apenas jogar alguns elementos para mostrar que a psicanálise poderia contribuir para esse debate sobre o destino de nossas energias utópicas, mas a crítica aqui vai mais para os psicanalistas – que se acanham, por serem mal preparados, por estarem fechados em consultórios – do que qualquer outra coisa. Certo que a apropriação dos textos dos autores de fora da psicanálise é fundamental e essa tarefa você tem ajudado.

    • 23/05/2016 at 14:12

      Eu fiz um texto sobre Lacan, básico para alunos, é aquilo que aproveito. Veja na parte aqui de “filósofos”, no menu.

  2. ABC
    20/05/2016 at 12:56

    Paulo, você já leu Lacan?

    • 20/05/2016 at 14:40

      ABC sim, mas não é por onde vou de modo algum.

    • ABC
      20/05/2016 at 15:22

      Pode expor alguns motivos?
      Não é um desafio, é para compreender mesmo até onde algum diálogo pode ocorrer.

    • 20/05/2016 at 16:11

      ABC a filosofia do modo que eu a faço fica muito em seu próprio leito, os instrumentos que uso são os da tradição filosófica. Só ela já é uma arca enorme, não tenho curiosidade pelas coisas que o Lacan fala. Ele não me provoca, não me instiga. Não tenho má vontade, apenas não me dá o que procuro na filosofia.

  3. Vítor Mazzuco
    14/05/2016 at 02:09

    Ao perdermos a ideia de ” um outro mundo é possível “, o desenvolvimento histórico passa a estar vinculado muito mais ao desenrolar da técnica, que, num prazo talvez relativamente curto, poderá mudar substancialmente o ethos do homem, excluindo a política de seu protagonismo histórico.

    • Claudio Dionisi
      17/05/2016 at 12:16

      Concordo, mas não vejo isso com bons olhos.

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Filósofo