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24/08/2017

Para compreender Jesus, o homem moderno


O termo “subjetividade” é antes da filosofia continental que da analítica. Os filósofos de linha anglo-americana preferem, não raro, falar em filosofia da mente que em filosofia do sujeito. Tanto isso é verdade que suas contribuições à noção de sujeito são, não raro, no sentido de negar o substancialismo mental, como fez Hume, ou por em xeque a perspectiva da primeira pessoa, como fez Daniel Dennet.

A crítica do primeiro é a de que se investigamos nosso eu nada encontramos a não ser sensações que vão sendo alteradas e, assim, nosso eu não é substancial, mas apenas um feixe de sensações e ideias transitórias. A crítica do segundo é que podemos saber de nosso eu por meio da observação de comportamentos, e que se caminhamos por uma introspecção, achando que vamos ter acesso privilegiado a certas coisas misteriosas que não podemos saber por meio da observação por terceira pessoa, estamos equivocados.

Não desconsidero a linha dos analíticos e tento incorporar o que aprendo com eles, mas penso que a linha continental, ao manter o termo subjetividade, me dá condições de ir mais longe, ver de modo mais amplo o que me interessa. O que me interessa é a subjetividade moderna como o que é um duplo, no sentido de Peter Sloterdijk. Ou seja, levo tão a sério o que Martin Bubber disse de nós, a saber, que somos seres com “instinto de relação”, que não posso deixar de acreditar que o “dois-em-um” de Hannah Arendt é uma boa descrição de nós mesmos. Não nascemos e, então, vamos adquirindo relações. Somos tão instintuais quanto a relações que não posso deixar de considerar que nunca fizemos outra coisa senão estarmos em relações, sermos relações. Nesse sentido, nunca fomos outra coisa senão, desde o início, o fruto dinâmico de uma ressonância de no mínimo dois polos capazes de, pela própria ressonância, traçar uma esfera – uma esfera surrealista, como é o próprio útero, que guarda elementos para o feto junto com elementos placentários em uma só protossubjetividade.

Esse modelo de subjetividade é o que mais me convence. Todavia, quando vou aos filósofos, sinto que é com Hannah Arendt (em A vida do espírito, seu melhor livro) que eu posso perceber porque um tal modelo nunca chegou aos filósofos do modo que caiu nas mãos de Sloterdijk. A maior parte dos filósofos nunca levou o duplo a sério, em um sentido radical, a não ser Santo Agostinho e Nietzsche.  Essa observação, que é de Arendt, me é muito útil para compreender minha própria posição, que endossa a visão de Sloterdijk.

Agostinho e Nietzsche foram os que notaram que somos dois-em-um, como Arendt diz, não porque estamos em luta interna com os contendores que seriam espírito e corpo ou razão e paixão. Somos um duplo não por conta de entidades internas distintas, mas por conta da duplicidade inerente ao nosso espírito. Quando somos dois-em-um em pensamento, é nossa reflexão intelectual que dá conta de nosso duplo e o expressa. Quando somos dois-em-um em vontade, é nosso querer que se opõe a um concomitante e interno não-querer (que, claro, é um querer). Assim, não é o desejo do corpo contra a razão que melhor nos descreve. Essa é a pior descrição. A boa descrição é a que nos faz ver que somos duplos em nosso âmago. Nossos conflitos ocorrem, principalmente, no âmbito da vontade. Ela também é pensamento e sentimento, e ela é prazer de comando, mas só se faz assim ao romper contra algo que é ela mesma, a contra-vontade. Isso é o sujeito moderno, o que se põe voluntariamente para fazer alguma coisa e que, nisso, nesse prazer de romper, de ultrapassar, vê o livre-arbítrio. Ilusão ou não, o livre-arbítrio se faz necessário para sermos sujeitos como a modernidade conceituou o sujeito. Nesse âmbito é que estamos no campo dos dramas interiores, que caracterizam a subjetividade moderna.

Todavia, devemos notar, todos esses dramas, desde D. Quixote, se deslocaram para a literatura. A filosofia não os quis ver. Agostinho e Nietzsche não conquistaram adeptos nessa parte de suas filosofias.

Só com Agostinho e Nietzsche começamos a pensar o “eu” ou o “sujeito” sem os traços monádicos do indivíduo cristalizado. Só com eles a figura de Jesus faz sentido. Jesus não tem uma luta interior entre sua alma e seu corpo, mas uma luta no interior de sua vontade. Uma sua vontade quer construir uma religião, uma outra sua vontade quer obedecer o daimon que lhe promete a vida de seus pais, de sua cidades, com todos os sucessos e êxitos que, enfim, dados os seus dotes, certamente conseguiria. Os quarenta dias no Deserto não invocaram razão e desejo, nada do corpo atrapalhando a alma, mas apenas dois conflitos pouco racionais, conflitos típicos da vontade, do querer.

É nesse sentido que estudo a subjetividade. Para compreender gente como Jesus, ou seja, gente como a gente.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

 

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One Response “Para compreender Jesus, o homem moderno”

  1. Rony
    20/05/2015 at 18:49

    “Quando somos dois-em-um em pensamento, é nossa reflexão intelectual que dá conta de nosso duplo e o expressa. Quando somos dois-em-um em vontade, é nosso querer que se opõe a um concomitante e interno não-querer (que, claro, é um querer).”
    Isso é impactante e elucidativo!
    Abre-se a possibilidade para a compreensão da passagem de Jesus no deserto.

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