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22/06/2017

Para além de Freud e Marx, uma ética da dádiva segundo Peter Sloterdijk


Que tal uma ética da dádiva, e não uma ética guiada pela ideia de que o mundo é falta, escassez, e que tudo que resta é a “guerra de todos contra todos” por um quinhão último?

A direita adora quando me vê ridicularizando – desnecessariamente – o comportamento do cachorro do Asterix, o Ideia Fix, o cachorrinho de uma ideia só. Ele é o símbolo das esquerdas, que diz ler de Marx a Lacan passando por Adorno para terminar na minguada tese única, a de aumento de impostos. As esquerdas querem inaugurar alguma coisa que acreditam ser inovadora e que irá resolver todos os problemas, que a regra do herói dos tempos do Rei João: vamos tomar dos ricos e dar para os pobres. Se o Rei João cobra impostos, vamos criar o contra-imposto. Que tal fazermos isso por meio do fisco, tirando de todos, ricos e pobres? Assim pensa a esquerda, se é que para falar isso se tenha que pensar.

Os conservadores me aplaudem no primeiro parágrafo, quando digo coisas assim. Eles acham que vou defender menos impostos ou isonomia de impostos. Mas depois, começam a torcer o nariz, quando digo para eles que o estado social democrata pode continuar, o que não tem sentido é acreditar que a alternativa aos seus males é simplesmente a volta a um liberalismo que nunca existiu, o do puro livre mercado, associado a uma diminuição geral dos impostos. Aí a direita, por razões puramente ideológicas defasadas e não por prática, pois ela também adora pegar dinheiro da sociedade por meio do estado, faz cara feia.

Minha proposta é outra. Nada de desmonte do Welfare State ou de seu horizonte, mas simplesmente ver que precisamos mudar toda nossa psicologia política, pois a gerada pelo estado moderno, social democrata ou não, não mais se sustenta. Explico.

Defendo a tese de Peter Sloterdijk. Qual? Ele parte da análise de que há quatro formas de fazer a maquinaria política de uma sociedade funcionar, escale que só a última leva a uma generosidade que calça a solidariedade necessária para uma sociedade civilizada e estável. A primeira maneira é a guerra de pilhagem, a segunda maneira é o estado absolutista com o fisco, a terceira ideia é a do estado social democrata com o fisco sobre todos (às vezes progressivo) e que em tese deve serviços para os menos favorecidos, e, por fim, a quarta ideia que é a do “fisco subjetivo” ou a filantropia, a doação. Sloterdijk diz que a segunda e terceira formas de arrecadar dinheiro para o estado acabaram se fundindo e criando o estado atual, e este está sob o crivo do distanciamento entre os cidadãos e a política. Nossas “sociedades da abundância” (Galbraith) de hoje carregam uma total apatia social e uma passividade mórbida travestida de uma atividade louca em forma de jogo e entretenimento. Para sair disso precisamos da última forma: a do “dinheiro inteligente”, que funciona segundo a atividade de doação para aquilo que realmente interessa aos doadores. Trata-se de algo baseado na psicopolítica do thymos em detrimento da psicopolítica de eros. Trata-se de uma mudança espiritual e prática na sociedade. Uma nova ética para uma nova economia.

As forças de eros são as da falta. Eros é um deus filho da Pobreza e da Astúcia. Sente falta, e faz matreirices para satisfazer desejos. Diferentemente, as forças timóticas são exuberantes, são ativadas no sentido da autoestima e, portanto, da dignidade e do orgulho. O thymos é a parte da alma que se enfurece para defender aquilo que criou ou gosta ou, melhor, se identifica. Trata-se das forças que solicitam reconhecimento – sendo este, então a principal característica do homem, na conta de Hegel. Só o homem é capaz de morrer pela dignidade. Forças timóticas são forças acionadas para a generosidade do dar, para o direcionamento do criar, cuidar e, principalmente, fazer existir aquilo que é pago, mas que não têm preço. E muita coisa é paga e não tem preço na vida coletiva urbana. Não podemos nos iludir: a biopolítica, que nos fez sermos corpos biológicos e não mais vida social ético-moral não venceu de todo o ímpeto timótico da auto-estima. E a auto-estima nos faz estimar outros, instituições, obras e atividades que são parte de nós. Nisso, empenhamos doação material, espiritual, intelectual e, portanto, de tempo e vida.

Ao contrário do que se imagina, não é só a sociedade americana e as do mundo anglo saxão que têm a característica de fazer funcionar uma comunidade toda por meio de forças timóticas. Nos Estados Unidos, isso é o que aparece e o que é incentivado. Mas, mesmo onde a imagem do homem não é do homem da abundância, que sempre pode dar mais, mesmo onde a imagem do homem é a do carente, que estaria vivendo numa Terra de recursos finitos (como pensava Hitler) em que é necessário tomar de uns para dar a outros (como pensava Hitler), a generosidade da doação funciona. No Brasil há uma grande economia que se movimenta pela doação. E isso em campos os mais diversos.

A boa doação é aquela que não substitui o fisco e muito menos o imita. Ou seja, não se trata de propor formas de redirecionamento do fisco ou isenções. A boa doação é alheia ao fisco, é aquela que é feita para aquilo que eu cuido, que quero ver funcionar. Os soldados da República de Platão deveriam ser fortes timoticamente, isto é, ter coragem, bravura, ira, para defender a cidade ideal, mas assim fariam pela identificação com a cidade e pelo orgulho  de cuidarem do que estimavam, ou seja, suas famílias e toda a vida ali delas, a vida da cidade. Embora o homem atual não tenha em sua descrição psicológica nada além de razão e paixão, tendo apagado o thymos (uma história explicada por Francis Fukuyama em seu livro O Fim da história e o último homem), este, por sua vez, continua funcionando. Está mitigado, mas vigente. Muitos fazem dádivas criando programas que são disponibilizados na Internet, muitos fazem vídeos instruindo outros, há os que cuidam de animais, velhos, crianças e doentes por trabalho voluntário, há os que criam e cuidam de florestas e rios voluntariamente. Até escolas públicas são ajudadas assim. Mas, é claro, o espírito americano de grandes doações, ou da ideia de Bil Gates e outros, de não deixar suas empresas para seus filhos, ainda é um tabu no Brasil. Mas, que não se pense que não pode vingar.

Sloterdijk acredita que ou a sociedade do futuro próximo será uma sociedade generosa, de doadores, ou ela simplesmente não será uma sociedade. Quando olhamos pela via de uma antropologia e de uma psicologia que não é a freudiana, e de uma sociologia não marxista, ou seja, quando nos libertamos do mundo erótico e podemos olhar o mundo timótico, não é difícil dar um crédito para Peter Sloterdijk. Afinal, podemos falar em filosofia política para além do liberalismo social de Rawls e do ultra liberalismo de Nozick, não podemos?

Sloterdijk estará em outubro no Brasil, no evento Fronteiras do Pensamento. Vá lá e pergunte sobre isso.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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12 Responses “Para além de Freud e Marx, uma ética da dádiva segundo Peter Sloterdijk”

  1. Orquideia
    04/07/2016 at 08:31

    Muitas vezes fico pensando no caos em que está a cidade em alguns pontos, e nas atitudes dos cidadãos.
    Como os mais frágeis[deficientes,idosos,crianças,bichos de estimação] podem se movimentar nelas,e ter seus direitos respeitados?
    As ruas e calçadas possuem defeitos e protuberâncias, muitos locais ainda são totalmente cercados por guias altas e inacessíveis aos que tem dificuldade de locomoção, há violência e nas periferias,alguns que moram perto de escolas tem a simples idéia de deixar cachorros pitbulls soltos.
    Está proibido para eles[os menos fortes] saírem de casa desacompanhados,atualmente.

    Não há mecanismos perfeitos para solucionar certos problemas.
    Pensei jocosamente que a cidade precisa é “de amor”.
    Que quando as pessoas “amam um pouco mais aos outros”,elas arrumam soluções para impasses intransponíveis.
    Não teríamos chegado a certa evolução social,se esse “amor” nunca tivesse sido usado.
    Ele orientou as inteligências a desenvolverem sistemas econômicos,sociais,a criarem tecnologias e influenciou descobertas da ciência.
    Nada do que fazemos está “a salvo” da forma como nos sentimos.
    O egoísta irá inventar modas egoístas, uma sociedade egoísta e agressiva será pródiga em instrumentos prejudiciais,uma sociedade amorosa inventará soluções, uma sociedade neutra em seus sentimentos irá “andar mais devagar”.

    Pensei o acima descrito no final de 2.014,antes de voltar a ler seu blog.[quando ingressei no facebook,por um tempo, esqueci do restante da internet]
    Esse modo de pensar exposto em seu texto coincide com a idéia que mencionei. [não sei se foi própria ou se foi por influência de algo que li ou ouvi,ou mesmo de algum texto seu muito antigo]

  2. 03/07/2016 at 08:37

    Então, quando Nietzsche aponta o último homem, pode ser lido como uma denúncia do fim do Thymos e o predomínio do duplo eros X razão? Se assim, o além-do-homem seria o retorno desse Thymos então como ethos humano? Parece que Nietzsche era um platônico também.

    • 03/07/2016 at 09:35

      Uma inferência que pode ser trabalhada num texto, Paim. Mas claro que Nietzsche é simplesmente um antiplatônico. Explico isso em A aventura da filosofia.

    • Max Paim
      03/07/2016 at 12:09

      Sim. Mas foi do teu livro sobre Sócrates em trocaste o nome Sócrates por Nietzsche que tinha em mente quando escrevi o comentário, ou seja, Nietzsche não estava pensando no Thymos quando escreveu sobre o além-do-homem. E, conforme disseste, essa volta a Platão por um anti-platônico não foi detectada por ele. Ele merece uma gargalhada, não?

  3. Evando Aparecido Gasque
    02/07/2016 at 23:55

    A minha desconfiança com relação a essa ética da filantropia é que ela parece transfigurar direitos em favores. Em uma sociedade justa – equilibrada – os cidadãos não deveriam precisar de favores econômicos, mas sim de outra ordem. Não me parece sensato estabelecer isso como atitude básica de uma sociedade equilibrada, pois postula a desigualdade material como pressuposto da ordem social.

    • 03/07/2016 at 09:39

      Evando você tem o direito de ser pilhado pelo fisco para coisas que você não sabe. Se é um direito assim que reivindica, você já o tem. Agora veja, seu problema com a doação é que sua descrição de si mesmo é uma descrição realista, hobbesiana. Não condiz com o que fazemos atualmente em boa parte da sociedade. Aliás, nem mesmo no Brasil. É fácil entender meu artigo quando se pensa nele filosoficamente, no entendimento do que é a luta thymos versus eros.

  4. Waldir Souza Guimarães
    02/07/2016 at 12:08

    Muitos ideólogos e utopistas desejam mudanças radicais na sociedade, mas raramente alguém pensa no verdadeiro protagonista dessas mudanças. Tais mudanças radicam na mudança completa dos sujeitos sociais, os quais precisam resgatar ou conquistar sua autentica identidade, que não tem a ver com nenhum mecanismo externo de poder ou estrutura tentando sobrepor-se à vontade livre e criativa (vale dizer: à alma) do próprio ser (humano).

    O homem não é “lobo do outro homem”, e nem de outros animais, mas essencialmente competente para perceber ou entender as reais necessidades que afetam a todos (“a todos” significa: animais racionais e irracionais, vegetais, minerais etc.).

    Infelizmente, muitos estudiosos elaboram teses antropológicas apenas sobre os resultados históricos, sem atentar para o fato (também histórico) de que é preciso voltar-se para si mesmo.

    Da verdadeira abordagem do homem decorre a verdadeira compreensão da vida social (vida social correta).

    Doar ou doar-se não é nenhuma ação fabulosa, ou fantástica, que represente alguma diferença ou privilégio individual. Na ordem cósmica do ser, trata-se de uma Lei.

    Que essa Lei seja urgentemente promulgada em todos os povos!

  5. Thiago Carvalho
    02/07/2016 at 11:29

    A maquina do estado deve ser, tal qual os “cidadães”, solidários entre si para produzir um Estado no qual os que tem o dinheiro concentre suas forças amorosas na filantropia.
    Caso não seja preciso esta minha compreensão, certo é que a sociedade seja mais beneficiada se for generosa, de doadores, porque isto contrasta a sabedorias antigas sobre a ética do senso comum, ou para o senso comum. Ou seja, se for observado na Bíblia, principalmente em Provérbios e Eclesiastes, ou no I Ching, esses recomentadão a doação de si para o bem da família e do Estado. “Quando a família está em ordem, todas as relações sociais humanas estarão em ordem.” I Ching.

  6. Gil Mauro
    02/07/2016 at 11:20

    Muito bom!

  7. Allan
    02/07/2016 at 11:16

    Grande dádiva!

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