Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

28/06/2017

Por que nos apaixonamos pela pessoa errada?


A “pessoa errada” é, em geral, aquela que nos faz cair de amor e, então, nos despreza e nos faz sofrer. Ou é aquela que não propriamente nos despreza, mas nos trai constantemente e nos faz desesperar. Ou ainda, em uma terceira e pior situação, faz tudo isso é se comporta como uma pessoa vagabunda, encrenqueira, exploradora etc. É o chamado “prato feito”; vem dos piores botecos, mas deixamos de comer em muito restaurante chique para abocanhar essa desgraça.

A questão é velha, e, não raro, a culpada é a tal da “paixão”. O que seria a “paixão”? É algo que ocorre em nós, mas é de força tamanha que nos tira do pensamento claro e da vontade decisória sábia, e então parece ter vindo do exterior. No mundo antigo, vinha do exterior: Eros era um demiurgo e o seu sucessor romano, o Cupido, atingia o futuro apaixonado por uma flecha, a flecha do amor. Pegava o futuro amante desprevenido. “Fui flechado”, dizia o amante, então já sabendo que estava caído pelo amado ou pela amada de um modo terrível. Sabia que iria passar vergonha e infortúnio, na melhor das hipóteses.

Por que isso?

Nossa definição de verdade passa pela ideia de estabilidade e perenidade. Nossa tradição filosófica sempre deu ao contingente um estatuo baixo e, portanto, dizemos que algo é verdadeiro e vale a pena se dura, se é eterno. Deus é eterno. Mas se você não é religioso, serve a ideia de que a Verdade é eterna, ou tem de ser para ser verdade. Assim fazemos para qualificar o amor verdadeiro e dar valor a ele. A paixão é tida como o que é contingente por natureza. Não podemos viver segundo ela, ou seja, não aguentaríamos uma vida inteira de loucuras próprias do apaixonado.  E então, não raro, queremos considerá-la uma ilusão, um breve acontecimento válido, mas que deve passar e, por isso, não ser a nossa verdade. “A paixão engana” – dizemos isso junto com Freud e com Stendhal. Os positivistas insistem: julgamento bom é julgamento objetivo, quer dizer, neutro. E o senso comum endossa: “o amor apaixonado nos faz perder a cabeça”.

Todavia, o que tem a ver a “pessoa errada” com a “paixão”? Tudo a ver. É que a “pessoa errada” é aquela que desmente a ideia de que a paixão passa. A “pessoa errada” é aquela que nos faz cair em paixão reiteradamente, nos levando sucessivamente ao sofrimento. A “pessoa errada” é aquela que nos promete amor, e até dá, mas nós fornece também desgraça, dívida e corneamento, e ainda assim, voltando para nós, nos submete de novo ao amor avassalador. Faz a mentira ficar com a graça da verdade, uma vez que dá constância para o que seria, por definição, o inconstante, o contingente, o falso.

O senso comum tem expressões chulas para tal: “amor de pica, fica”. Ou agora, para a geração atual, mais pudica: “ele tem pegada”, “ela sabe fazer” etc.  Mas não é disso que estamos falando, embora também seja. É da paixão que não atinge somente o desejo, “a carne” no sentido de São Paulo, mas a vontade, no sentido de Santo Agostinho. Faz-nos colocar a vontade como decidindo pelo amor, uma vontade que vem acompanhada, inerentemente, do pensamento sabedor da desgraça que será se entregar. Mas a vontade acaba por dar seu aval, pois seu cálculo é que a desgraça posterior, se vier, será a desgraça final e, ainda assim, valerá a pena fingir que ela não virá. Trata-se aí do auto-engano deliberado. Isso é a paixão pela “pessoa errada”.

Por que somos vítimas disso? Não sabemos e talvez seja uma tolice querer saber isso caso a resposta venha pela ciência atual. É bom que a filosofia engane a ciência através da literatura. Já temos feito isso. Temos usado a verdade da ciência como metáfora, destituindo a ciência de qualquer autoridade. Falamos em “química do amor”, mas não literalmente. Por mais que a ciência insista, a relação permanecerá, na nossa conta, sempre algo misterioso. O mistério vem das consequências. Pois, nos raros momentos em que nos libertamos da “pessoa errada”, nos vemos como bobos, tolos, ridículos, capazes de fazer Almodóvar ficar com inveja, uma vez que não conseguiu criar um personagem capaz de pagar os micos que pagamos.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: , , , , , , ,

10 Responses “Por que nos apaixonamos pela pessoa errada?”

  1. Junior
    13/10/2016 at 09:24

    Professor, qdo estamos nessa situacao, o melhor seria afastarmos definitivamente da “pessoa errada” ou tentarmos vencer esse sentimento destruidor? No meu caso, ele nao quer relacionamento, mas somente amizade colorida… é uma pessoa especial, mas que so me causa angustia qdo nao esta comigo. Ta complicado demais pra mim. Obrigado!

    • 13/10/2016 at 12:31

      Para que continuar com algo que angustia você? Ou você vive a amizade colorida gostando dela, ou não vive.

    • Junior
      13/10/2016 at 18:11

      Como eu estou apaixonado, encarar um “relacionamento” sem entrega dele será complicado. Creio que irei me envolver mais e sofrer mais. O melhor é afastar, certamente. Agradeço a atencao, professor!

  2. Andre
    23/05/2015 at 16:57

    Um dos motivos por ser o odor da pessoa . https://youtu.be/zD0U92oJLY8

  3. Orquidéia
    20/05/2015 at 04:44

    Essa é a parte ruim, prof.Ghiraldelli.
    Não só a atração física conta,muitas vezes também admiramos loucamente a criatura errada,e na imaginação,queríamos ser como ela.

    • ghiraldelli
      20/05/2015 at 10:11

      Calligaris aprovaria sua tese, eu acho.

  4. Caio Lívio SD
    15/05/2015 at 18:39

    O professor sugere algo, além da literatura, como caminho a quem se encontre nestas situações? Ou quem sabe, na própria literatura mesmo hehe? Agradeço.

    • ghiraldelli
      16/05/2015 at 10:56

      Ah, meu caro, essas situações são para serem vividas, a leitura é para outra coisa.

  5. Isaias Bispo
    15/05/2015 at 12:21

    Paulo! Há uma coincidência entre os seus últimos textos e Eros ter me pegado! Aliás, parabéns, ótimo texto! É um grande prazer tê-lo aqui, na internet!

    • ghiraldelli
      15/05/2015 at 17:56

      Cuidado, eis aí um deus terrível.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *