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09/12/2019

Papai participativo


O que é que se fala de um pai hoje em dia? Há um “novo pai”? O que diz a mulher a respeito de seu marido como pai?

Os chamados “bons pais” sempre existiram. A comédia de Aristófanes no qual este ridiculariza Sócrates, diz respeito a um bom pai. Trata-se de um pobre diabo que pensa que seu filho sairia da vida de jogo, gastança, estripulias com bigas e cavalos etc. se fosse acolhido pela confraria socrática, então representada por uns lunáticos e por um Sócrates mais lunático ainda, e sofista. Há ainda na literatura socrática, em um texto de contestada autoria de Platão, o Teages, um pai que implora a Sócrates que este aceite ser preceptor de seu filho, tentando satisfazer a vontade do garoto de ser um filósofo ou um homem público ou coisa parecida. Na Renascença, mesmo pelo mecanismo da infância passada na casa de pobres, propositalmente deixado pelo pai como método de criação, Montaigne manteve com seu pai uma amizade bem participativa, atende-o nas sugestões de traduções com bastante gosto. Na modernidade, as cartas de Marx estudante ao seu pai mostram claramente um jovem que vê neste um amigo com quem pode e deve trocar impressões sobre estudo e tudo o mais.

Mas, se é assim, de onde veio a ideia, mais recente, de que é novidade o pai participativo como bom pai? O que se queria e se quer dizer com esse incentivo à participação paterna na vida do filho, que no Brasil se popularizou de uns vinte ou trinta anos para cá, com o pontapé inicial da propaganda do Gelol, “não basta ser pai, tem que participar”? Se o bom pai sempre foi o pai interessado e, de certo modo, participativo da vida do filho, em algum grau, então por que temos a sensação de que o amor, na substituição do respeito e temor, é um elemento da nova sensibilidade paterna?

Toda a mudança não foi no sentido de uma rigidez na educação então substituída por uma educação mais afetuosa, talvez até moleirona. O que efetivamente se alterou foi o quadro da semântica da palavra “participação”.

Participar da política (democrática) era votar e ser votado. Mas, após os anos sessenta, e com tudo que Maio de 68 nos deixou, participar ganhou uma conotação de “tomar parte”, quer os mecanismos institucionais pudessem ou não aceitar a participação. Nasceu aí de modo novo a noção de “movimentos sociais” e, depois, mais recentemente, o “ativismo”, com as intermediações várias entre um e outro, inclusive o grupo terrorista, o grupo revolucionário, o grupo de vanguarda etc. A noção de participação deslizou e ganhou o sentido de “fazer parte daquilo que antes de tudo já se fazia parte ou daquilo que o próprio participante criou para então fazer parte”. Nisso, o filho entrou fácil nessa nova visão. Mais que qualquer coisa, o filho é um invenção dos pais, e sua vida é então também um momento de engajamento, algo do qual o ativismo se vale para se estabelecer como o que demanda cumprimento. A propaganda do Gelol entrou para o palco exatamente nesse sentido: o pai transformado em torcedor e massagista do jogo infantil – trata-se do pai que se engaja no jogo que é o seu jogo já que é jogo do seu produto e invenção, o filho.

Claro que pode haver nisso uma inversão meio que nociva. Isso ocorreu e vem ocorrendo, de pais sem projeto próprio que infestam o Facebook com fotos em sua própria identidade com o filho no colo, quase que dizendo: “vou fazer valer esta vida do meu filho, já que eu, aos 25 anos ou 35 ou 45, já não posso fazer nada a não ser isso!” Esses pais, não raro, se confundem com os filhos e lá pelas tantas, como diz Contardo Calligaris, a própria criança já não sabe quem é efetivamente o adulto e a criança nessa história.

A juventude após os anos sessenta transformou o “engajamento” em uma palavra para além de tarefas do espaço público, vindo também a compor o ideal do âmbito privado. Pais devem se engajar na vida dos filhos. Participar! Claro que isso também teve implicações jurídicas, coroadas pelas famosas “pensões” e, mais recentemente, a folia dos “exames de paternidade”. Da noção de engajamento livre entrou-se, também, para a lei da paternidade responsável. Não basta ser pai, tem de participar e, obrigatoriamente, também com dinheiro. Para um povo como o nosso, em que a responsabilidade para com a vida sempre foi de difícil aprendizado, a lei teria de vir mesmo. E veio.

“Pai tradicional versus pai moderno” hoje diz menos do que ontem. Não se sabe muito bem do que se está falando quando se usa dessa terminologia. Mas, temos uma noção melhor do que uma mulher quer dizer ao falar que seu namorado ou marido ou coisa parecida é um “pai participativo”.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez 2015).

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One Response “Papai participativo”

  1. noNatuss
    10/08/2015 at 13:16

    O que acha da onda de militarização das escolas públicas? É um bom assunto pra tocar.

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