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19/10/2019

Amor de pai, cidadania de filho – o caso que apareceu no Fantástico


O garoto disse tudo ao pai, quando este foi tirá-lo da manifestação contra a Copa: “você não
estava conversando comigo, por que agora vem aqui me procurar?”. E depois: “é preciso lutar por coisas dignas”. “Eu quero hospital, educação, escola”. E o pai: “eu pago escola prá você”. Foi algo mais ou menos assim. Acho que isso, por si só, explica o caso. Mas não o resolve.

O que falo diz respeito ao episódio do pai que tentou tirar o filho de uma manifestação e que foi filmado, e que se tornou público uma vez nas redes sociais. Isso mobilizou o Fantástico, da Globo, para uma entrevista no domingo com a família envolvida.

A conversa com os jornalistas foi rápida, e o Fantástico não teve coragem de aprofundar o assunto. Mas, enfim, para quem já havia visto o episódio de diversos ângulos, não foi difícil tirar algumas conclusões.

O pai, motorista, parece não ter instrumentos intelectuais e morais para fazer a mediação entre o filho que, aos dezesseis anos, descobre a cidadania. Não à toa. Pois ele tem ao lado a mãe, professora. Na entrevista dada à Rede Globo, ela chama pelas características que lhe dão orgulho no filho: “há muito adolescente que não se interessa por nada, e nós temos aqui em casa um jovem que está preocupado com o país”. Um pouco de Complexo de Édipo para ser resolvido e eis que o adolescente não entende a frase do pai: “eu te amo cara, não quero que você se machuque”. Ele aproveita o apoio da mãe para associá-lo ao seu ímpeto cívico nascente, de modo a desafiar o pai, tomando nas mãos a independência à sua maneira. Quando ele tiver dezoito anos e quiser fazer o que pensa, não fará mais o que pensa. Ele parece saber disso. Seu pai também.

Esse drama sempre aparece todas as vezes que a realidade social clama pela rebeldia dospai-discute-290x160 jovens ao mesmo tempo em que os pais dizem que querem o melhor para eles, ou seja, que eles se tornem uma cópia educada ou mais instruída e mais rica do que são os próprios pais. Nessas horas, o liberalismo dos pais entra em confronto com o libertarismo dos filhos. Com sorte, em um regime democrático com o nosso, talvez não ocorra nada ao filho, mesmo na vigência desse monstrengo jurídico chamado Lei Geral da Copa, e mesmo diante da violência policial. Com um pouco de azar, e eis que uma família pode receber uma pancada fatal do destino.

jovem e paiO pai quer evitar tal pancada. O menino não é pai e, como adolescente, tem sangue nas veias para querer se integrar em um projeto maior, ou seja, o protesto, o sonho de construir sua identidade segundo um ideal maior. Podia ser uma religião, a música ou esporte. No caso, trata-se da militância junto aos que estão no movimento social de protesto, e atraem skatistas para o campo de imantação dos black blocs e coisa parecida. Afinal, o uniforme ninja é entusiasmante nessa idade. É como se vestir de um zorro real, de se fazer gente, de se olhar no espelho para se dizer: “eu sou diferente do barrigudo do meu pai”. Não há aí desamor, mas há a busca de cada adolescente no sentido de cumprir o determinante da filosofia moderna: o indivíduo precisa ser sujeito e, para tal, precisa agir desinibindo-se a partir de uma identidade.

Como filósofo que viveu isso quando jovem (em uma época brava!), tenho condições e instrumentos de conversar com o jovem e tentar encontrar um meio caminho entre sua atuação e sua convivência com os pais. Mas o pai e a mãe, ali no caso, vão acabar entrando em conflito entre eles mesmos e com o filho. A irmã, no caso, mais nova, vai assistir tudo e esperar a vez dela de dar problema!

Poucos filósofos estão interessados nesse rapaz. Os filósofos que estão no jornal, hoje, estão sedentos de vontade de ridicularizar o jovem, igual ao senso comum reacionário. Os que estão na universidade, fingem ser isso um problema pedagógico menor, e talvez alguns, dominados pelo marxismo hormonal, acabem incentivando o garoto ao voluntarismo perigoso. Tenho total desprezo por esses dois tipos de filósofos.

Da minha parte, acho perfeitamente possível, caso tivéssemos uma escola um pouco melhor, contarmos com a existência de professores filósofos capazes de criar uma saudável mediação no caso. Mas, no Brasil, desqualificamos os professores, e deixamos as famílias do modo que Lula diz que é para ser, com seu novo jargão “educação vem de casa”. Não, não vem. Nessa hora, não vem.

Paulo Ghiraldelli Jr., 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

Veja aqui o vídeo do ocorrido (não é a reportagem do Fantástico): Globo News

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8 Responses “Amor de pai, cidadania de filho – o caso que apareceu no Fantástico”

  1. Adalberto Barreiros
    17/06/2014 at 15:30

    Mais uma vez em cima do muro. Eu sei que intolerância(do Estado) faz nascer intolerâncias. Mas tu não é um Mangnolli né, Paulo? Que acredita que movimentos de rua pleitam/possam tomar o poder, rs.

    • 17/06/2014 at 15:42

      Adalberto, esse texto NÃO é sobre política (aliás, pouco escrevo sobre política), mas sobre família. Ah, sim, claro, família é algo que vale nada não é?

    • Adalberto Barreiros
      17/06/2014 at 16:48

      Tá, mas excetuando o conceito tradicional conservador, família é algo relativo. Considerando o que vc quis dizer é exatamente por isso que o pai deveria ter ficado em casa, conversar, só depois. Não ter feito o papelão que fez diante das câmeras envolvendo a integridade moral do filho, que não tava na criminalidade.

    • 17/06/2014 at 18:14

      Adalberto, você tá mais por fora que umbigo de Mírian Lane. Não tenha filhos, por favor.

  2. MARCELO CIOTI
    16/06/2014 at 10:52

    Numa coisa os skinheads e
    os black blocs tem em comum:
    tem desprezo pela democracia.
    Os skinheads acham que
    é coisa de viado e os black
    blocs acham que é coisa
    da burguesia neoliberal.
    Tenho total desprezo por
    esses dois tipos de
    debeis-mentais.

  3. Roberto William
    16/06/2014 at 01:07

    Oi Paulo!Ótimo artigo. Todavia, você não disse como conversaria com o garoto. Como fazer tal mediação? Até que ponto ele esta certo? Eu gostaria de ler mais sobre seu posicionamento sobre o referido fato.

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