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22/01/2019

Ou se conversa sobre democracia e cidadania ou não se fala do que interessa.


[Artigo para o público em geral]

“Nós estamos condenados ao mimo”, disse Peter Sloterdijk em uma conversa com seu colega Thomas Macho. Não há possibilidade de sermos humanos sem sermos mimados, porque a antropogênese é um processo de mimo. Só nos tornamos o que somos porque em determinado momento pudemos ser mais agraciados que outros em termos de proteção da prole. Tornamo-nos ricos porque ganhamos chance de riqueza. E isso ocorreu quando proto-humanos, por conta de chance de acolhimento, começaram a passar para a espécie as características de alguns indivíduos que clamaram – e foram inusitadamente atendidos –  por um maior cuidado das progenitoras que, então, se tornaram mães. Desenvolveu-se a neotenia, fruto exclusivo do mimo.

Desse fato antropológico inicial nunca mais escapamos. Dali para a frente, nos mantemos como os seres da Terra que dependem de maternidade, e cujo percurso se caracteriza cada vez mais pelo plus que é o mimo. A democracia nada é senão uma das formas históricas determinadas por essa nossa gênese atrelada ao mimo. Ela é o lugar em que aumentamos os anos da infância e juventude, por um lado, e é também o campo no qual não são vigentes apenas direitos, mas o direito de criar direitos. Nada mais mimado que isso.

Quando olhamos os humanos por meio dessa narrativa, deixamos de lado a ideia de que somos frutos da necessidade e da carência, para entendermos que somos os rebentos da abundância. Então, toda vez que, no âmbito moderno, obedecemos o pensamento da esquerda e  da direita que se pautam pela ideia de que podemos viver sem mimo, que nossa vida é apenas a vida nua, como teorizou Agamben, e não a vida ética, pecamos por negar nossa origem. Pecamos por seguir a Internacional Miserabilista, ou seja, a visão de que somos seres da necessidade e não do plus, que somos frutos da dureza e não do mimo. E então nos preocupamos com políticas populistas de “mínimos”. O neoliberalismo com o “estado mínimo”, a social democracia com a “satisfação das necessidades básicas”. Recusamos a conversa sobre a melhoria da democracia, que seria a melhor conversa, que é a de ampliar direitos no projeto de invenção de novos direitos.

O realismo é sem dúvida a posição mais nefasta e aquela na qual abandonamos nossa origem promissora. O realismo e fascista, é o culto da vida dura.

Quando alguém diz que não podemos pensar de barriga vazia, uma tal verdade pode estar cumprindo uma função ideológica – quase sempre está. Pode estar a serviço da Internacional Miserabilista. Pode simplesmente estar nos induzindo a acreditar que nosso destino é o destino animal, o de conseguir a barriga cheia para estar feliz. Mas nem mesmo os animais são totalmente assim. Hoje sabemos disso, uma vez que o cão se tornou da família. A indústria de mimo do cão – a indústria pet – nos prova isso.

A esquerda e a direita atuais trabalham com a ideia de uma antropologia que despreza a ideia da evolução enquanto uma ideia de implementação de políticas do mimo. Tudo que é luxo é secundário. Esquece-se que o próprio capitalismo é gerado pelo luxo, como bem lembrou Sombart. Então, a democracia, que é lugar que todos falam e, por todos falarem, há uma profusão maior de mimo reivindicado, é o que é desprezado.

Esquerda e direita são economicistas. E dentro desse quadro o mimo é desconsiderado e, portanto, o que é propriamente humano some do horizonte. Tudo é feito com a ideia de que precisamos garantir a “sobrevivência básica”. Não se percebe que o homem não tem básico. Ele é o animal que vive pelo não básico porque, para ele, o básico é o mimo. O homem é homem no parque de diversões, no agrado, no exercício do orgulho, na fruição de sua imaginação. O homem gera o “mais” e vive do “mais” (o nome diz: “mais valia”). O populismo de direita e esquerda negam isso. O segundo quer que o homem more no Minha Casa Minha Vida (ou BNH) porque acredita que a rua também é moradia. O primeiro quer que o homem defenda a si mesmo, armado, porque acredita com isso estar ajudando-o a não perder sua “capacidade de empreendedor”. Em ambos os casos, não se precisa de democracia, de discussão ética, de pautas morais e, enfim, da conversa sobre a cidadania.

Mas o populismo está errado. A esquerda e a direita da Internacional Miserabilista, se olhasse o Brasil, veria que o economicismo é errado, e que a população quer outra coisa e decide voto por outras razões.

Em todo o processo eleitoral da redemocratização brasileira, de 1985 até agora, só uma vez importou para a população a discussão econômica. Foi na vitória de FHC sobre o PT, por ocasião do Plano Real. Em todas as outras eleições, a discussão econômica, a conversa da sobrevivência, não valeu nada para o eleitor, pois ele estava interessado em bater na corrupção, em melhorar a vida enquanto vida ética, em criar formas de voltar a se orgulhar de si e do país. Nunca o economicismo decidiu pleitos. Por que somos condenado ao mimo, somo seres da vida enquanto vida que só se entende vida com abundância e mimo. Agora, nesse momento, no Brasil de Bolsonaro, novamente é a questão da cidadania que conta – e a população diz bem isso quando, tendo votado no Bolsonaro, pede, com mais de 70% de aprovação, que as escolas discutam política (cidadania) e questões de gênero e sexo (Folha de S. Paulo, 07/01/2019). É o prazer que importa. É o extra-prazer que vale. O necessário do homem é o que é o mais necessário que o necessário.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo

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20 Responses “Ou se conversa sobre democracia e cidadania ou não se fala do que interessa.”

  1. Hugo Lopes de Oliveira
    16/01/2019 at 11:02

    É interessante pensarmos que o homem se forjoi através do mimo, haja vista que sempre quando olhamos para o passado tendemos a vê-lo pior que o presente.

  2. andre ribeiro filho
    11/01/2019 at 17:26

    ÔÔÔ Professor… a título de curiosidade…. O senhor se sembra do “”seu encolheu””” ???? …. o marido da “”dona redonda””” ???? …. a dona redonda literalmente explodia no final da novela do dias gomes…. a saramandaia…..explodiu de tanto comer…. então…. baseado em uma outra novela antiga…. a selva de pedra…. no personagem do Francisco Cuoco…. eu gostaria que o senhor pensasse na possibilidade de fazer uma coisa…. uma coisa pra dar uma “”incrementada”” nos seus vídeos…… eu vou dar a dica pro Senhor….. é o seguinte…. eu gostaria que o Senhor comprasse… sabe o quê, professor…???? um bumbo ….. é … um bumbo …!!!
    que é pra quando o senhor fizer um vídeo meio “””desolado”” com o tamanho da bizarrice desse governo…. meio desanimado….. um vídeo daqueles…. onde o assunto for “”muito forte””…. tipo…. a multa que o Ibama abonou do Bolsa….ou sobre a damares….. ou sobre o Olavo não ter concluído nem o primeiro grau… o Senhor pegaria esse bumbo embaixo da mesa…. e começaria a dar umas dez ou doze batidas nele…. bem fortes…. bem no meio do vídeo… uma coisa bem doida mesmo… só pra desestressar um pouco…. como se fosse um ritual….. um “””ritual de reprovação””” desse governo….. e esse bumbo poderia até ter um nome…. ou até mesmo virar um “”personagem”””…..

  3. Marcos
    10/01/2019 at 16:35

    Obrigado Professor.

    Acompanho seu canal no Youtube a alguns meses, e agora passei pro blog pra me aprofundar mais.

    Adoro filosofia desde as introduções que tive na faculdade de Psicologia.

    Essa visão do Peter Sloterdijk sobre o mimo, é enriquecedora e amplamente plausível de ser aceita pelas diversas ciências.

    E explica muito sobre nossa política tbm!

  4. LMC
    10/01/2019 at 11:48

    Esse Ivo que escreve aqui é pago
    pelo Bolsonaro,PG?Acho que sim!

  5. Ivo Câmargo
    09/01/2019 at 23:12

    Professor, doutor,mestre,PhD,vai para Venezuela com a Gleide Hoffmann, tenha uma ótima viagem.

    • 10/01/2019 at 02:40

      Ivo, vai você que gosta do PT e é burrão. Eu não gosto. (nunca vi ninguém tão burro quanto você Ivo!)

  6. andre ribeiro filho
    09/01/2019 at 18:43

    TEM UM TIOZINHO FALANDO MAL DO PROFESSOR….. ÔÔÔ Professor…. tem um Tiozinho de meia idade fazendo vídeos no Youtube sobre o Senhor…… e falando mal ….. Ele já fez uns dois ou três videos…. Chama-se Jose Marcio Art 142…. Ele pinta o cabelo de preto….. Homem velho que pinta cabelo….. sem comentários…. e esse Tiozinho é intervencionista…. tinha 40 ou 50 mil seguidores…. vivia metendo o pau no Bolsa….vivia chamando o Bolsa de “”direita canhota””””…. ou de “”sabugo de direita”””…. que mamava nas tetas do Congresso….Aí…. uns dois ou três meses antes da eleição…. por oportunismo….ele passou a apoiar o Bolsa…. assim….na maior cara de pau…. e o número de seguidores dele disparou ….. pra quase duzentos mil…. ÔÔÔ Professor…. por incrível que pareça…. eu acho isso…. dele meter o pau no Senhor…. muito legal…. sabe porquê Professor..?????
    é sinal que o senhor incomoda….. está incomodando esse pessoal da extrema direita…..ninguém chuta cachorro morto….. e o detalhe…. esse tiozinho que pinta o cabelo diz que o Senhor é do PT…!!!! Olha a manipulação do Tio….. Sem falar que ele tem a voz embargada…. parece que tá com bala na boca…. parecendo um bebum…. e tem a cara de pau de chamar o Lula de Pinguço….. ou seja…. Eles tão com medo é da Internet, professor….da Internet…!!!! da mesma maneira que a Onda Bolsa chegou ao Poder atráves da Intentet….. Eles sabem que essa mesma Internet… pode dar um tombo neles…. e motivos não faltam….. uma semana de governo….. “”arrastado”””….. que dificuldade…!!!! desde incompetência…. enrolação… emprego de parentes… nepotismo… etc….. ÔÔÔ Professor…. pra terminar….. Esse Tio vai trazer ainda mais visibilidade para os seus videos…. Retribui Professor…. Faz um vídeo dele…!!!!

  7. LMC
    09/01/2019 at 11:20

    Ruim é o Minha Casa Minha Vida.É melhor
    deixar o povo morar em barracos,debaixo
    de viadutos ou morando de favor na casa
    da sogra.Os programas sensacionalistas
    de TV agradecem.

    • 09/01/2019 at 18:56

      LMC eu desconfiava que você era meio tosco, mas com essa heim? Que comprovação. Nem artigo simples você entende!

  8. 08/01/2019 at 15:20

    EXCELENTE IDEIAS DITAS COM MUITA ANÁLISE DE CRÍTICA CONSTRUTIVA;PARABÉNS PROFESSOR PAULO….

  9. Salathyel
    08/01/2019 at 14:48

    Bom dia,
    Professor Paulo G.
    Gostaria que o senhor falasse sobre o oportunista Thomas Giuliano e seu livro “Desmistificando Paulo Freire”, ele está vindo aqui em Teresina-PI, para palestrar sobre. Pelo que entendi ele usa K. Marx e escola de Frankfurt como sendo inspiradoras do pensamento de Paulo Freire e por isso, este não merece o título de patrono da educação. Faça um vídeo para nós… Abraço!

    • 08/01/2019 at 15:27

      Fiz vídeo sobre Paulo Freire e livro. Já tá bom né?

  10. 08/01/2019 at 13:42

    Caro Paulo Ghiraldelli, Eu tenho assistido aos seus vídeos, alguns tenho compartilhado, sou assinante do seu canal no You Tube, e concordo em grande parte de tudo que você diz.
    No vídeo com o título “Bolsonaro! O povo está contra!” teve um momento em que você fala sobre a origem do ser humano e, aí que eu discordo de você.
    Sabemos que a teoria da evolução é apenas uma teoria. Existe outra oposta que se chama teoria da criação, ambas são teorias. Certo que para ir pelo lado da teoria da criação é necessária fé na existência do criador. Mas, a fé é algo que também não tem como ser questionado. Ou se tem fé ou não.
    Dito isso, sou da opinião, ainda mais em se tratando de um pesquisador em filosofia, como é o seu caso, ao se referir à questão da origem do homem citar a existência das duas teorias, por que senão fica parecendo que você contempla uma como lei em detrimento da outra, ou então, quando a questão da criação não está em foco, não fazer referência a ela. Você não acha?

    • 08/01/2019 at 15:30

      Rocha, eu indiquei bibliografia, é um pouco tolice discordar de mim nisso. As narrativas que temos desse tipo (mimo) de coisa não são científicas, não são falsificáveis (embora a teoria da evolução, no geral, seja científica).

  11. Ivo Câmargo
    08/01/2019 at 13:16

    Acreditar no data folha, é o mesmo do que acreditar em papai Noel.

    • 08/01/2019 at 15:30

      Voltou Ivo, mesmo sabendo que você é o motivo de chacota aqui, que é o imbecil mor, você volta?

  12. Isonel Sandino
    08/01/2019 at 12:04

    Prezado prof. Paulo:
    Compartilho texto de minha autoria publicado hoje no jornal aqui de minha cidade. Tentei enviar para seu email mas está voltando.
    Saudações!

    http://m.jornaldamanha.info/debates/244527/a-educacao-brasileira-e-paulo-freire

  13. Ana Paula Bitencourt
    08/01/2019 at 11:29

    Excelente, Professor! Estou aprendendo muito. Os livros, os vídeos e os textos trazem formas de pensar e de agir novos para o meu universo e necessários em tempos sensíveis. Obrigada.

  14. Wenceslau de Angelo Júnior
    08/01/2019 at 11:00

    Análise fundamental e correta proposta no texto. Porém não nos esqueçamos que o homem é um ser individual e esta característica é ampliada a partir da era do Mercantilismo (séculos XIV e XV), logo este agrega o mimo econômico ao seu modo de vida; que é o objeto da lógica das corretes de direita e esquerda.

  15. 08/01/2019 at 06:43

    Muito bom! Ontem dei bastante risada com a polêmica envolvendo o PC Siqueira e os filhos do Bolsonaro no twitter. José Simão postou um meme muito engraçado. Essa família é mesmo uma comédia. O grupo dos desescolarizado que não sabem sequer o que é bem estar social e tem aspirações fascistas.

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