Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/06/2017

Os selfies e o fantasma do Humanismo


A ideia de Contardo Calligaris a respeito do “selfie perigoso” (Folha, 23/07) é que este ajuda a mostrar para os outros que estamos vivendo mais que eles, os que estão só vendo as fotos, e isso amplia nosso “viver mais”. Assim, como Calligaris disse, posso tirar um selfie na beira de um precipício ou com a mão na boca do leão. Calligaris se esqueceu da menina do Paraná que tirou o selfie no carro em alta velocidade, postando na Internet, e logo em seguida postou também o selfie dela toda ensanguentada – o carro havia capotado. Ou seja, só passar o perigo não é o suficiente, o necessário mesmo para se mostrar que se está vivendo mais que outros é chegar a poder postar a situação de morte.

Creio que o sonho de todos os que carregam pau de selfie e outros apetrechos desse tipo não é morrer e encontrar uma outra vida, vida bela, mas apenas poder tirar um selfie logo no momento após a morte, para poder mostrar uma experiência que o outro, o que vê a foto, não teve, e que portanto não está vivendo.

A vida (moderna) é um tédio. Isso já estava dado antes da Internet, diz Caligaris. O que ocorre agora é que temos situações várias de perigo e emoção que ainda assim são tediosas, pois são situações e não experiências, são feitas por pessoas vazias e, portanto, confluentes com o tédio, mas tudo isso parece poder ser invertido se mostrado para outros no momento exato em que está ocorrendo. Aí entra a Internet, agora com seus dispositivos móveis.

Ou seja, estamos não mais na era digital, de ausência de situações de vida por conta do retiro para o mundo do computador. Nada disso. O computador caseiro ou do escritório é coisa do passado. Estamos todos com dispositivos móveis, no mundo físico e ao mesmo tempo no mundo virtual. Ambos os mundos agora se fundem e criam uma novidade: o mundo do mostrar-se em experiência e tempo real para que a experiência possa parecer uma experiência. Ou a “sociedade do espetáculo” se produz imediatamente na guerra de imagens de todos contra todos, na busca de colocar o outro na berlinda porque ele ainda não viveu o que estou vivendo, ou então nada mais faz sentido. E mesmo assim, estamos no sem sentido.

Ter frenesi não é mais o objetivo. O objetivo é mostrar que estou tendo frenesi imediatamente ao meu frenesi que, enfim, não está ocorrendo, e parece ocorrer se o outro acreditar, pelo imediato da foto que lhe chega, que estou em frenesi. É a última esperança do fim do que Adorno disse que seria o império do humor na sociedade administrada, ou seja, a “apatia burguesa”. Vã esperança.

selfie-touroVivemos como se nem mesmo Hitler pudesse nos tirar do nosso cotidiano morno. Os nazistas diziam entre si: se um dia a guerra acabar e nós perdemos, então seremos julgados por tudo que fizemos de errado e certo, mas de uma coisa não poderão nos acusar: que éramos causadores do tédio. Que nada, fomos empolgantes para o mundo todo. Eles disseram isso sem Internet. Mas só realmente empolgaram para valer quando, no Julgamento de Nuremberg, as mortes dos judeus foram finalmente mostradas, todas filmadas pelos nazistas que, enfim, durante o que ocorreu, exerciam a censura sobre as notícias do que estaria ocorrendo nos campos de concentração. Essa censura acabaria logo se houvesse a Internet. Nenhum nazista deixaria de postar seu selfie junto do judeu que acabara de despir, roubar e levar para a câmara de gás. E isso se o nazista fosse ou não do Paraná. Naquela época o império da imagem quase imediata já se fazia necessário. Mas só os nazistas de hoje podem se curtir com isso. A Internet está povoada de cenas de barbárie em que os bárbaros se exibem, mesmo quando a exibição implica em grave crime com penalidade certeira e inadiável.

Tudo isso reforça a tese de Calligaris. Principalmente esse meu complemento, de que a Internet chegou tardiamente. Mas eu creio que há mais a ser dito a respeito do selfie. Trata-se de um certo resto de gosto estético e, dentro dele, a necessidade da paisagem que contenha o homem, o rosto humano.

Sabemos que o Humanismo está em baixa, talvez morto. Mas o selfie indica que a descoberta de Sócrates e Platão, o gosto do homem pelo homem, e que chegou ao cume no Renascimento, tem sua sombra perdida por aí. Uma sombra sem corpo? Um fantasma? Talvez. Mas que a estética que precisa do homem sobrevive no selfie, isso é verdade. No limite, o que se está fotografando não é a situação de perigo, ainda que ela seja o tema, mas a presença das rugas humanas. O selfie perigoso pode ter que ser feito com a moça bem maquiada. Não tem problema, maquiagem também tem lá suas rugas. Esse elemento de necessidade de tornar o que se apresenta como resto do belo, resto do que deve ser visto com prazer, sendo este resto o rosto humano, deve ser ponderado por nós, filósofos observadores da cultura e da cultura de massas. Indica não uma saudade do morto, mas que o morto não morreu de todo – seu fantasma não foi enterrado ou mandado de vez para o Além, seja lá qual destino se dá a fantasmas.

É isso que precisamos notar: que o Humanismo está em forma de fantasma em quase tudo. Que ele não vai voltar da terra dos mortos, se é que está aí seu fantasma. Mas que não há nada que o substitua e, portanto, o fantasma ganha espaço e legitimidade. Somente quando o selfie contiver o rosto do objeto não humano, somente quando o pau de selfie não tiver nenhuma conotação sexual, somente quando a imagem for a imagem que não contenha nem mesmo o humano desumanizado, então, teremos realmente nos despedido até do fantasma do Humanismo. Por enquanto, estamos entre a missa de Sétimo Dia e o dia da morte. Nesse período, até o católicos fervorosos acreditam em espíritos vagantes.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

Tags: , , , , ,

5 Responses “Os selfies e o fantasma do Humanismo”

  1. Maria Martins
    09/12/2015 at 01:57

    Como seria um self contendo o rosto do objeto não humano?

    • 09/12/2015 at 11:06

      Lembra daquele filme do Travolta trocando de rosto com o Nicholas Cage? Viu que eles começam a se comportar segundo o outro?

  2. roberto quintas
    27/07/2015 at 11:53

    recentemente a internet e as redes sociais tem derrubado essa noção e fronteria entre o que é privado e o que é público.

  3. Matheus Kortz
    23/07/2015 at 20:36

    Uhl agora quero ler o texto do Contardo. E eu que nao gostava dele pelo jeito dele falar, mas quando escreve… é outra historia

  4. claudio dionisi
    23/07/2015 at 16:30

    Nunca vi uma analise do fenômeno Selfie tão interessante!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *