Go to ...

on YouTubeRSS Feed

22/10/2017

Os segredos da vida de merda no Brasil


Hoje em dia prevalece o sentimento liberal democrático que faz de qualquer segredo um absurdo. Ninguém guarda segredo e, se no passado recente pedíamos para que nossa vida privada fosse preservada, isso se tornou coisa arcaica diante da Internet, que mostrou a nós mesmos que todos os humanos são narcisos fofoqueiros.

A vida liberal democrática exige transparência, e esta acaba até se invertendo: todo mundo quer fazer a prática pública em segredo e, então, em contrapartida, tornar explícito o que antes teria de ficar protegido, a vida privada.

O sonho burguês de separar por meio de um balcão os negócios da loja, dos prazeres e agruras pessoais, próprios do lar, caiu por terra. Não sem luta. Os burgueses deixaram as lojas para morar em casas separadas. Depois foram para casas de campo e condomínios fechados, criando longe disso a zona industrial, filiando a tal aparato os escritórios na cidade. A separação foi tamanha que possibilitou o aparecimento da dupla família: no lar uma família, no trabalho a outra, com a secretária. Mas o gosto pelas festas e a vontade de aparecer deram os primeiros shows de promiscuidade e, em seguida, a imprensa e agora a internet fizeram tudo voltar ao que se queria evitar, lá atrás, com o balcão.

Não há segredos. Nem há verdades. Pois em lugar que não há segredos e que tudo é público os critérios de verdade se esgarçam de tal maneira que tudo ganha urgência de antes ser mostrado que ser verificado. Verificação? Ah! Para que perda de tempo? A regra da mulher de César se torna a regra para todos. Num lugar assim, mulher honesta e puta é a mesma coisa.

Em uma sociedade assim, que podemos dizer que se trata de uma forma hipostasiada e até bastarda da democracia liberal, é muito difícil que se entenda os segredos de outrora. Deus não tem mistérios, só o demônio esconde coisas. Pensa-se assim nessa sociedade em que se cultiva o íntimo como uma farsa agora tão grande quanto o público, pois ele é o refúgio ao segredo que nós mesmos não tardamos em mostrar. Chega-se até à imbecilidade de se dizer “quem não deve não teme”, e se cobra com isso que todos andem não só nus, mas com o ânus aberto de modo que nenhum bilhete possa ali ser escondido. A ginecologia filmada se torna espetáculo público. A vida privada atrai no BBB por meio de uma imitação do que seria público, já que o privado mesmo se tornou apenas um lugar que se tem saudades sem nunca ter estado.

Por isso, perdemos a capacidade de compreender o específico da cultura que advém da democratização de tudo, ou seja, deixamos de ter mecanismos para entender o que a cultura como o que é necessário de ser cuidado, em todos os casos e principalmente nos casos democratização. Qualquer palavra no sentido de “que se tome cuidado com aquilo, pois não é para todos”, é logo vista como no mínimo “elitismo”, tomado pejorativamente, para depois ser algo posto nas costas da frase mais imbecil da democracia dos tolos: “não querem que o povo tenha acesso ao conhecimento, pois assim ele obedecerá mais facilmente”. Todo espaço tem de caber todos, segundo essa regra tola que afirma que os “do poder” querem “manter o povo na ignorância”. Essa frase é ela sim ignorante.

Quando se diz isso, “todo espaço tem de caber todos”, pessoas inteligentes entendem que isso funciona como a velocidade marcada nas estradas: trata-se do limite, não do ponto obrigatório. Você lê 100 km/h de velocidade, você sabe que não é para você ficar nos 100 km/h “custe o que custar”! Mas, por incrível que pareça, a ideia de que todo mundo pode tudo é facilmente transformável, na cabeça do restolho demente criado pela burguesia, no seguinte: se todos podem ser universitários, então que todos sejam universitários. É algo mais ou menos assim: se todos podem ser pilotos, que todos sejam. Ora, mas como distribuir brevês para todos? Ah, não é necessário muita coisa para tirar um brevê – façamos algo “por correspondência”, “talvez virtual”. E eis que teremos uma população inteira de pilotos. No mesmo rumo, teremos médicos, filósofos, cães e gatos. Tudo é tudo. Todo mundo anda durante o tempo todo na rodovia que permite 100 km/h de velocidade a 100 km/h de velocidade.

Nessa linha de pensamento (!) nenhum conhecimento pode ser um know how de experts. Tudo é de todos. Viva a democracia popular. Ou melhor: viva a terra dos débeis mentais.

Esse tipo de pensamento é o que impede de compreender a razão da missa católica ter sido em latim, o porquê das bibliotecas fechadas dos mosteiros, o não acesso das mulheres às bibliotecas, as proibições a certas leituras mesmo que estivessem na igreja todos os livros, etc. Os burgueses que lutaram contra o velho regime tenderam a espalhar essa história de que cada segredo era uma forma de dominação. Até era, mas não do tipo perversa e conspiratória, apenas do tipo daquela que um pai tem, com um garoto, evitando que ele veja cenas de violência ou excesso de sexo na TV, quando muito pequeno. O que não se entende pode ser repetido em hora imprópria e com pessoas erradas. Era assim que a Igreja via seus segredos. Ler a Bíblia? Todos? Ora, o tonto do Lutero não sabe o que está fazendo, diziam os padres. Olhando hoje as novas igrejas “evangélicas” chegamos mesmo a dar razão para os velhos padres!

Quando olhamos a massa de pessoas hoje na Internet, tendo acesso a conteúdos que não podem compreender e conversas que não podem entender, olhamos a reação desses bárbaros e só com conhecimento histórico temos condição de ver o que está ocorrendo. Muita gente não fez o ensino médio correto. Não tem como saber do que conversam os filósofos e escritores, e então abrem a net e os tomam conversando sobre uma palavra que é “vulva”, e não sabem do que se trata. Ficam sabendo “pela rua” que é “boceta”, e acham que o filósofo está falando realmente daquela boceta que aparece no filme do Alexandre Frota, o único filme que viram na vida e que conseguiram entender (mais ou menos: `às vezes são travestis, imbecil, oK?).

Para que tudo possa ser acessado por todos é necessário que a formação ultrapasse a informação. A Igreja achava que isso não era possíve, a não ser para os “iniciados”, um grupo sempre diminuto, restrito ao estudo durante anos. Os burgueses achavam que se isso não fosse possível, havia aí algum segredo perverso. Depois, quando os burgueses viram que realmente a Igreja tinha lá alguma razão, a barbárie que advogaram caiu nas mãos dos socialistas. Estes, não raro, ao perceberem que talvez não pudessem realmente ter tudo para todos, aceitaram nova forma de barbárie: que se queime aquilo que na cultura de elite é o que não se pode distribuir. Teatro e livros? Só se forem os que enaltecem o proletariado, a revolução e outras bobagens. Muitos comunistas não se horrorizaram nem um pouco quando das fogueiras de livros promovidas por pessoas instigadas por Hitler.

Ainda vivemos isso. Não pelos comunistas, mas por todos, até jornalistas anticomunistas, que não tiveram acesso aos bens culturais necessários para a sua própria vida. A fúria da direita e de certa esquerda contra a USP, por exemplo, é exatamente isso: como que pode existir um lugar aristocrático onde as pessoas dedicam dias e dias à conversa sobre filosofia, arte e letras? Como pode haver um lugar onde as pessoas não possuem cartão de ponto para ensinar? Como pode haver um lugar onde há bibliotecas inteiras com línguas que “o povo” não entende? Como pode existir um lugar em que se formam pensadores que se dão ao luxo de criticar até a si mesmos, até mesmo a sacrossanta democracia? Como podem essas pessoas serem as que formam opinião? Há gente fora e dentro inimiga da USP pensando isso!

Todas essas questões indignadas passam pela cabeça de muitos magoados, ressentidos, fracassados e fundamentalmente estúpidos.

Encontramos essas perguntas carregadas de ódio típico do recrutado pela SS na boca de muita gente da direita e da esquerda. Gente que diz isso: são ricos os que estão na USP e, portanto, pecadores. “Guardam segredos para a dominação de todos e fazem isso colocando todos nós, os dominados, em campos mais dominados ainda” – gemem assim esse restolho da burguesia bárbara.

Esse sentimento aparece em toda democracia liberal que fez da educação um elemento informativo para todos, e não a formação um elemento de melhoria de todos. Aparece nos Estados Unidos, e Tocqueville viu bem isso, ainda que com lentes sem qualquer bom  e necessário polimento, mas não da forma perigosa que emerge hoje no Brasil.

O Brasil pode crescer quanto quiser economicamente, pode fazer com que qualquer negro entre num shopping de luxo, mas não vai sair da pocilga de ter gente de esquerda e direita tentando atingir intelectuais com pedradas (fora e dentro das universidades). Abrimos lugares de acesso às informações sem termos aberto lugares de acesso à formação. Foi um tropeço nosso em uma história republicana ainda marcada pelo lusitanismo do Império. Vamos continuar nisso, por anos, e talvez piorando ainda mais.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

PS: não é nem mais necessário fazer o ensino médio para entrar em uma faculdade pública no Brasil, basta menos de 50% de acerto em uma prova ridícula, o Enem. Sabiam?

Tags: , , , , , , , , , ,

One Response “Os segredos da vida de merda no Brasil”

  1. Diego Michel
    02/03/2014 at 21:10

    Paulo, tempos atrás eu fiz uma pessoa chegar, mais ou menos, nestas suas conclusões, por uma via diferente.

    Veja, estava eu assistindo uma conversa entre um Comandante Geral da Polícia Militar e um parlamentar, em nível estadual, que era presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia. Em vários momentos você facilmente poderia constatar que o parlamentar presidente da Comissão nada sabia de Direitos Humanos.

    Daí eu confrontei uma pessoa que estava ao meu lado: “Como você me diz que ele(s) (parlamentares, chefes do Executivo [Governador]) quer (em) manter o “povo” na ignorância, sendo que ele(s) é (são) a própria encarnação da mesma?”

    Será mesmo que se ele pudesse ler Cícero, adiantaria algo? Ele iria de fato conseguir compreender como se torna um homem público?

    Como você observou, podemos concluir que aquela ideia de igualdade absoluta, em que todos podem ter acesso (no sentido de capacidade de compreensão), sem requisitos mínimos (estudo regular) e sem os pressupostos intelectuais (neste ponto estaríamos mais próximos do que os gregos entendiam como Paidéia) impera com força, e vem ganhando mais corpo ao longo da história, sobretudo quando a ideia de ensino, ao invés de estudo, ganhou força nos dois últimos séculos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *