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20/02/2020

Os miseráveis


Qual a visão geral que temos da “modernidade”? No resumo máximo, de caráter sociológico, esta daqui: A aristocracia foi derrotada pela burguesia, e tal classe emergente não só impôs a todos as regras do “mundo do trabalho”, mas também fez valer uma nova moral, atinente a este novo mundo.

No que essa imagem implica? Aos poucos, para dizer que se tem dignidade, as pessoas não puderam mais afirmar títulos ou origens familiares e, muito menos, capacidade de ócio, mas ostentar o único título tornado válido: ser trabalhador. “Case-se com ele, moça, é um homem trabalhador” substituiu o “case-se com ele mesmo sem amá-lo, é de uma família que tem nome”. A era burguesa par excellence fez da disciplina do trabalho um rótulo superior a todos os outros.

Pode ser que isso hoje esteja arranhado e meio confuso. Mas, um resquício de um tipo de ascetismo vindo do mundo burguês do trabalho ainda é vigente. Ele é bem claro nas classes médias. Tanto a classe média rica, que não quer saber de pobre de modo algum, quanto a classe média mais baixa, que teme se proletarizar, têm como lema diante do pobre um único dístico: se há necessidade de ajudá-lo, se não temos como só tirá-lo da nossa vista, então que o façamos viver uma vida rigorosa, ascética, porque foi assim que nós, os não-pobres, conseguimos o que temos. Claro que não foi assim, para a maioria das pessoas ricas, que elas conseguiram o que possuem. Herança conta sempre. Em um país como o nosso, conta mesmo! Mas o que vale nesse lema é ajudar o pobre de modo que ele sempre saiba que ele é pobre e que, sendo pobre, algum padecimento precisa sofrer. Ele deve sofrer diante dos que ganharam tudo “com o suor de seus rostos”.

Assim, quando os programas públicos – da direita ou da esquerda, tanto faz – emergem de departamentos estatais para ajudar os pobres nas metrópoles de hoje, tudo é feito antes no sentido de manter pequenas punições doloridas junto com algum ganho. O poder público pode construir albergues para os moradores de rua, mas não no centro onde eles pedem esmolas. Que eles venham da periferia para o centro, ou que fiquem por lá mesmo. Também é possível ajudá-los com comida, mas que eles deixem de beber e abandonem as drogas. Vamos trazê-los para os albergues, mas seus fiéis e únicos amigos verdadeiros, seus cães, não podem entrar. Que não haja “promiscuidade”, ou seja, que pobre não faça sexo, caso contrário, não fica no albergue e toda a ajuda é cortada. É assim que são os programas sociais para pobres. Quando se sai disso, é por pouco tempo. Logo depois tais regras, em surdina, voltam a valer por meio de um ou outro político ou agente social ou mesmo da arquitetura e de todo o arranjo espacial e temporal que envolve o tratamento do estado ou dos mais ricos para os pobres. Está no ar que respiramos a regra ascética para o pobre.

Vigora nesse caso a mesma ideia do rico que diz que vai morar na favela porque lá ele não paga imposto. Mas, claro, ele nunca se muda. Ou então a opinião da madame da Casa do Saber, que diz que até ela quer ficar presa, pois o preso vive num hotel de cinco estrelas com visitas íntimas, come por conta o estado e ganha um salário (essa mentira está disseminada). É difícil não acreditar que gente assim não fique contente quando algum marido empresário contrata grupos de extermínio.

O amor das classes médias pelos pobres é repleto de condições. Essas condições agrupadas tem um nome: ódio. Pode não ser ódio de coração, mas é algo que na prática funciona como ódio. É só isso.

Há uma tremenda vontade dos que possuem algo de valor em disciplinar aos que nada têm, de modo a convencê-los (talvez mais a si mesmos), que aquilo que possuem foi conseguido exclusivamente por mérito do trabalho ou mérito intelectual. Fazendo isso, tais setores médios acabam se denunciando: eles próprios não se veem legítimos em suas posses. Mas tais grupos repisam dia a após dia essa lenga-lenga.

Há sempre mais miséria entre as classes baixas do que humanidade entre as classes altas, escreveu Vitor Hugo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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11 Responses “Os miseráveis”

  1. LENI SENA
    14/09/2015 at 20:54

    “Há sempre mais miséria entre as classes baixas do que humanidade entre as classes altas”, perfeita tua conclusão, Paulo. Realmente, é muito injusta e despoporcional a divisão entre miséria e humanidade. Penso que há algo, além do ódio das classes médias pelos pobres, hoje, bem mais do que antes com a crise. Corrija-me se estiver enganada, mas um medo quase que móbido de estarem, de repente, no lugar dos menos favorecidos, do pobre tomar seu espaço. Imagino o nível de amargura que é para o coxinha ver o garotinho do sinal ficar milionário cantando funk ou mesmo um Joaquim Barbosa da vida se destacando mais do que ele.

  2. Guilherme Pícolo
    13/09/2015 at 12:44

    É difícil ouvir o discurso do PSDB sobre meritocracia no Brasil, já que aqui as relações e indicações pessoais contam muito, não raras vezes mais do que a competência pessoal e profissional. Sem contar as Odebrechts da vida, que estão aí sempre a mostrar que o que se chama de mérito muitas vezes pode se traduzir em oligopólio, reserva de mercado, conchavo ou propina.

    • 13/09/2015 at 13:14

      A meritocracia como doutrina é uma benção, a desgraça é como ideologia.

    • Guilherme Pícolo
      13/09/2015 at 16:44

      Sim! Soa muito estranho um cara como Aécio Neves levantando a bandeira da “meritocracia”, justo ele que é um legítimo representante dos coronelatos regionais… Qual o mérito dele? Ter nascido em família rica e influente, que manda e desmanda no seu estado!?

  3. henrique
    13/09/2015 at 11:30

    filósofo, um crescimento do ódio contra o governo de esquerda do PT tem a ver com esse ódio pelo pobres, já que pelo menos ideologicamente o governo tem alguma preocupação com o pobres, deu mais visibilidade a eles.

    • 13/09/2015 at 13:15

      HENRIQUE NÃO MESMO! Acorda cara. O PT traiu seus eleitores.

    • Claudio
      25/09/2015 at 17:42

      Penso o mesmo. o PT SE traiu!

  4. Matheus
    13/09/2015 at 02:28

    Ghiraldelli, porque há tão poucos com tanta lucidez como vc, ou eu que não estou treinado o suficiente pra reconhecer a lucidez de outrem?

    • 13/09/2015 at 13:17

      Lucidez a gente alcança por partes, perspectivas, momentos. No que dizem que sou lúcido é exatamente nos lugares em que consegui, com esforço inaudito em favor de alguma objetividade, ter mais informações de perspectivas diferentes.

    • Guilherme Pícolo
      13/09/2015 at 16:50

      Então a lucidez tem como elemento mais a empatia ou a observação?

    • 14/09/2015 at 00:35

      Nossa, que pergunta estranha.

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