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22/06/2017

Seis livros necessários


Seis livros básicos para você ter alguma cultura filosófica sem ser filósofo. Mas, claro, exigem que você seja escolarizado, bem escolarizado. Fora isso, não leia. 

A República de Platão. Nesse livro o centro é o tema da justiça. Não a justiça social ou justiça como o que se diz sobre crimes e punições. Justiça é, antes de tudo, para Platão, o justo no sentido do ajustamento, o que faz com que uma peça se ajuste a uma outra e, então, todo o corpo da cidade possa funcionar. A questão da justiça nesse livro é a questão da cidade justa, a cidade harmônica. Para lidar com esse tema Platão se vê obrigado a falar em fundamentos, e, então, cria a metafísica e uma série de outras disciplinas filosóficas. Desse modo, A República ganha o centro das obras de Platão e é tomada como a obra de inauguração da filosofia, mais ou menos como a fazemos hoje.

Dialética do Iluminismo, de Horkheimer e Adorno. Nesse livro os dois filósofos alemães dissertam sobre o tema da razão, das luzes, e de como cada sistema que aparece em cena, ao desmistificar o outro, ganha poder e, então, pode também mistificar. O livro é sobre essa incessante reposição de desmentidos, de modo que o que vai adiante diz que a doutrina anterior ainda não é a das luzes, ainda está envolta em mitos. Diferente de Hegel que diz que o absoluto é conjunto dessas doutrinas, as figuras do espírito percorridas, Adorno e Horkheimer vão dizer que esse “todo” não é a Verdade, mas que mesmo assim não há outra saída para os filósofos senão expor essas doutrinas. Talvez se expostas a partir da ótica dos que foram completamente degradados nessa experiência, exista algum ponto mais legítimo para se falar, mas não, é claro, um ponto absoluto.

Genealogia de moral, de Nietzsche. Nesse livro Nietzsche desenvolve uma profunda crítica à metafísica, base de todo o pensamento ocidental. Ele faz uma tipologia do forte e do fraco e associa essa tipologia ao desdobramento da linguagem. Esta, então, é inteira pautada pela psicologia dos fracos, que são prenhes de ressentimento e que inoculam nos fortes a má consciência. Para tal, criam a ficção de que a ação dos fortes poderia não ser a que é, poderia ser contornada. Ou seja, o fracos inventam a ficção da liberdade e, com isso, deixam os fortes acreditarem que existe a figura do sujeito, o que pode decidir e, assim, deixar de gozar a opressão. Quando os fortes engolem essa tese, eles já se corromperam e se tornam fracos, pois já curtem a má consciência.

Totem e tabu, de Freud. A tese central de Freud, que tem a ver com Levi Strauss, é a de que o pai primitivo fica com todas as mulheres do grupo e impõe uma tirania. Os filhos se reúnem, matam o pai e criam o totem, para lembrá-lo e torná-lo insubstituível. Lembrá-lo significa uma forma de criar o tabu do incesto: que nenhum filho venha a substituir o pai, que está totemizado, ou seja, que nenhum filho queira repor o domínio das mulheres sob uma só tutela. Assim nasce a civilização, ou seja, a procriação para fora dos clãs.

Ironia, contingência e solidariedade, de Rorty. A linguagem é não é algo exterior aos homens, mas ela tem sua gênese própria, que se faz pela formação de jogos de linguagem. São como que “frames” de conversação. Só no interior desses frames é que as palavras e enunciados ganham valor de verdade e significado. Na base, então, toda linguagem é metafórica, aliás, a linguagem é isso: uma série de metáforas que se literalizam. As metáforas não tem portanto nenhum sentido, elas são maneiras de chamar a atenção no interior da conversação, criar reações diversas e só ganham valor de verdade se absorvidas num jogo de linguagem que lhes confere sentido. Por isso mesmo a linguagem é um conjunto de metáforas mortas.

O capital, de Marx. Uma questão central na obra de Marx é a transformação do valor de uso em valor de troca. Assim, toda mercadoria para ser mercadoria perde a sua utilidade e se transforma em algo trocável, algo que pode ir para o mercado. No mercado é trocada por outra mercadoria que lhe equivale, por meio do equivalente universal chamado dinheiro. Mas como é feita essa equivalência? Pelo valor que é o valor de troca, que nada é senão a quantia de horas de trabalho humano abstrato nela incorporado. A partir dessa postulação Marx faz as inferências para a questão da mais valia e outras. Para se compreender o capitalismo é necessário, portanto, entender que ele não é o regime da utilidade mas, antes, o regime que faz tudo ser tornar o que se expõe diante de nós, que ficamos separados da mercadoria, assistindo sua dança. Somos expectadores, daí a tese desenvolvida por outros da “sociedade do espetáculo” (Guy Debord à frente).

É o básico para você ter alguma cultura filosófica sem ser filósofo. Mas, claro, exigem que você seja escolarizado, bem escolarizado. Fora isso, não leia.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: se chamado para completar dez livros, eu colocaria ainda:

História da Subjetividade, de Foucault

O Palácio de Cristal, de Sloterdijk

Homo Sacer, de Agamben

A vida do espírito, de Hannah Arendt

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16 Responses “Seis livros necessários”

  1. Silvia
    15/04/2017 at 20:07

    Olá professor! Gostei bastante da sua lista 🙂 . Estava precisando de um guia para começar a ler filosofia. Vc sugere uma ordem para lê-los ou não importa?

    • 15/04/2017 at 20:18

      Sílvia, pegue como guia os meus dois volumes de A aventura da filosofia (Manole)

  2. IVAN ILITCH
    14/02/2016 at 14:35

    Dos três livros (Platão, Freud e Marx) que li desta lista, posso dizer que são realmente fundamentais. Entretanto, dentro todos os livros de filosofia que já li, um se destaca como o mais fundamental entre todos, “devendo” ser lido antes qualquer outro: “Reflexão Sobre a Vaidade dos Homens” de Matias Aires. Um livro que escalpela o “ser” humano, deixando-o pronto para a incansável busca da verdade através da filosofia.

    • IVAN ILITCH
      14/02/2016 at 17:30

      Não sei se foram meus olhos ou o botão de rolagem do mouse, mas passei batido e não percebi “A Genealogia de moral ” na lista. Uma grave desatenção, uma vez que, de todos os seis citados, foi (e continua sendo) para mim, o mais marcante.

  3. Eduardo Rocha
    05/02/2016 at 23:17

    Excelente lista professor. O genealogia da moral está entre um dos melhores que já li até hoje. Recentemente adquiri o Khôra do Derrida e pretendo ler a esferologia de Sloterdijk !

  4. Mark
    01/01/2016 at 17:20

    O Capital de Karl Marx. Obra prima.

    • 01/01/2016 at 17:56

      Igualzinho à outras, claro, exceto Platão, pai de todos.

  5. Andrey Ianaskoyov
    01/01/2016 at 13:47

    Ad hominem: Considerando-se sua potencial capacidade de distinção entre o “bom” e seus opostos, bem como de sua expertise em história da antropologia, pois evidente está que a evocação retórica de uma relação pseudo-linhageira entre Lévi-Strauss e Freud fornece certo glamour à “avaliação crítica” de sua lista de “bons livros que devem ser lidos”, numa tentativa de retificar o estatuto de “verdade” do conto de fadas inventado por Freud – enquanto igualmente ignorando todo um conjunto de leitores igualmente críticos, tanto literária, quanto filosófica e cientificamente, deste ídolo da modernidade (que paradoxo para tanta autoridade, não?) – me sinto lisonjeado pelo elogio à minha (in)capacidade cognitiva. O sr. está de parabéns, pois executa muito bem àquilo que nasceu para realizar neste mundo.

    • 01/01/2016 at 14:22

      Andrey! Livros são para ser lidos como são: literatura segundos seus frames, uns inspiram mais, outros menos. Não são para encontrar verdades. Sinto decepcioná-lo, mas você não sabe ler livros. Tente aprender. Leia-os sem essa tara por ter mandamentos.

  6. Julian Romero
    29/12/2015 at 21:23

    E se fôssemos fazer uma lista “infinita”, para a vida inteira, de livros necessários?

    Ilíada, Odisseia e Eneida;
    Bíblia;
    A República, Teeteto, Górgias, Eutifron,
    Confissões (Agostinho)
    Crepúsculo dos Ídolos, Genealogia da Moral

    • 30/12/2015 at 01:03

      Julian, e por aí vai! Uma época fiz uma programação para ler Platão todo. Parecia infinito, mas concluí. Mas, no geral, fora a formação, um filósofo acaba lendo os filósofos que fazem interlocução maior com seus mestres.

    • Gustavo
      31/12/2015 at 06:48

      Caro Paulo, me interessei bastante pelo programa para ler Platão. Se possível, você poderia compartilhá-lo para que eu possa ter um referêncial? Tenho já lido alguns diálogos (e para os quais volto sempre), como a Apologia, o Mênon, o Fédon, A República, o Teeteto, o Fedro, o Parmenides, a Carta VII, mas gostaria de me organizar para dar cabo do todo.
      Obrigado.
      Inté.

      P.S. Há alguma previsão do seu último livro sair no formato e-book?

    • 31/12/2015 at 11:49

      Gustavo acho melhor pegar meu livro em papel. Tá fila mais um. Sobre leituras, só falar com a Fran e vir para o CEFA.

  7. Matheus Kortz
    29/12/2015 at 19:04

    Anotado, assim que puder adquiri-los-ei (ebook, cebo, desconto em alguma loja hehe) alguns capítulos do capital eu já tive ao menos…

    Obrigado pela lista, Paulo!

  8. Andrey Ianaskoyov
    29/12/2015 at 15:48

    totem e tabu…vomitey!

    • 29/12/2015 at 19:15

      Andrey qual o problema, não consegue ler coisa boa? Tem problema de ordem cognitiva?

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