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15/07/2018

Os gênios da estrada


Escoltar vocações é também trabalho do filósofo, do professor de filosofia. Explico!

Salieri não era era medíocre como ele pensava. Ele era um gênio. Sim! Ele compreendia mais que todos a genialidade de Mozart, mas infelizmente para ele, isso não bastava. Ele não queria entender Mozart mais que outros, ele queria produzir algo tão grande quanto Mozart fazia no âmbito da partitura, e isso, obviamente, lhe era impossível. Essa foi sua perdição, não saber que a genialidade que tinha deveria funcionar como a genialidade de Russell funcionou diante da genialidade de Wittgenstein. Russell um dia concluiu que o problema a que ele se dedicava não mais lhe cabia, que ele nem mesmo tinha vontade ou energia, e talvez inteligência, para enfrentá-lo. Colocou o problema nas mãos de Wittgenstein.

Sempre quando estou diante de alguém que tem um dom, agradeço a Deus por estar podendo reconhecer aquele dom e usufruir dele. Às vezes, então, me vejo genial também, por poder usufruir daquela genialidade ali presente até mais do que eu esperava. Às vezes sinto, inclusive, que posso estudar mais exatamente para usufruir melhor. Somos geniais quando sabemos o quanto é valoroso o coadjuvante ou o observador que abençoa, e se somos um desses ou podemos ser um desses, nos sentimos então renovados no trabalho. Adoro trabalhar com gente mais inteligente e mais capaz que eu. Todo dia é um dia de aprendizado. Esse é um segredo que poucos conhecem. Mas que, na filosofia, aprendemos cedo, pois nosso trabalho é, em geral, o de sermos geniais por conseguirmos apreciar a beleza da produção dos gênios da filosofia. A função do filósofo começa com o trabalho de poder estar a altura de um texto! Quando entendemos um parágrafo de Platão ou quando lemos algo fantástico de um professor nosso ou quando notamos que um aluno nosso deu um passo que não conseguimos dar, isso acende um luz no nosso peito. Ficamos emocionados. Nessa hora, na filosofia, atua em nós o gênio, e não à toa gênio é a tradução latina de daimon.

Dá um pouco de pena dos que não sabem ser coadjuvantes, dos que não sabem a genialidade de saber receber o gênio. É nesse sentido e só nesse sentido que deveríamos ler a frase de Paulo Freire “não há quem sabe mais ou menos, há saberes diferentes”. Não deveríamos dizer, com tal frase, que não há medíocres. Eles existem. A burrice está aí sim. Mas o olho nosso deve funcionar no sentido de escoltar vocações – principalmente nós, professores. Primeiro temos de escoltar as nossas próprias, depois, ver o quanto há gênios por aí, diversificados, e que podemos ajudar de alguma forma, às vezes vendo-os atuar.

A filosofia é o lugar divino em que podemos conversar com Sócrates!

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 07/12/2016

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7 Responses “Os gênios da estrada”

  1. Matheus Tudor
    15/12/2016 at 15:44

    Acho que esse empreendimento e essa questão de protagonistas e coadjuvantes geniais, cada um a seu modo e sendo intercambiáveis, é algo bem expresso na vida do matemático Paul Erdos. Há um documentário sobre ele legendado, no qual se mostra não só sobre sua vida e sobre a matemática, mas também como se contrói uma investigação intelectual. Certa vez disse a um amigo que, muitas vezes, estudamos apenas para poder ouvir, para conseguir ouvir, entender, e talvez, quem sabe, poder formular uma pergunta. Acho que buscar o mundo inteligível é um pouco isso.

    Link do documentário que comentei se interessar a alguém:
    https://www.youtube.com/watch?v=dTzkrJKUo-I

  2. João Pedro Dorigan
    07/12/2016 at 19:59

    Bom, se Russell não é gênio eu desisto de tudo. Foucault era uma bucha louça, mas o Sr Silva atacar a dupla Russell e Wittgenstein é demais.

    Belo texto Paulo. Só pela humildade já vale a ficha.

    • 07/12/2016 at 20:43

      Dorigan você já ouviu falar de um cara chamado Turing? Leia Foucault como quem lê o que ele era, um gênio. Você pode aprender muito com ele, inclusive sobre homossexualidade.

  3. José Humberto
    07/12/2016 at 18:56

    Paulo você tem essa genialidade de nos fazer pensar e repensar a vida, a filosofia e o pensar. Esse texto é um exemplo de como podemos apropriar do conhecimento do outro e crescer com o outro. Sendo assim, ser coadjuvante é o primeiro passo para compreendermos a genialidade que existe no outro.

    • 07/12/2016 at 19:01

      Humberto essa é a genialidade da filosofia, de nos deixar conhecer a genialidade de nós mesmos.

  4. jósé fernando da silva
    07/12/2016 at 18:34

    Há uma ampla discussão na filosofia alemã do século XIX sobre a noção de gênio. Você deveria ler a respeito, pois usa o termo de uma exageradamente livre. Salieri, gênio? Russell, gênio? Lamentável.

    • 07/12/2016 at 19:04

      Um segredo da genialidade, sr. Silva, é não fazer isso que você fez. Claro que quando fui aluno de graduação fiz trabalhos sobre o tema do gênio na filosofia alemã. Obrigatório eram. Mas o gênio, aqui, realmente é no sentido que dei, e que fica mais delimitado quando mencionei o daimon. Leia de novo o sentido do texto, aí reflita sobre sua atitude para comigo, reflita. Consegue perceber o buraco que caiu? O texto denuncia exatamente esse buraco, para não cairmos nele.

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