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21/07/2019

Os falsos donos do próprio corpo


Você odeia a propriedade privada? E quer seu corpo só para você? Que estranho!

Há aquela pessoa que acha pode se drogar e não cuidar da sua saúde, como se a falta de saúde não fosse pesar nas costas de familiares (pelo dinheiro e atenção dispensada) e da sociedade (pelos impostos que se paga aos sistemas médicos etc). Há quem ache que pode não usar cinto de segurança, como se isso fosse algo que afetasse só a ela (como se a morte dela fosse afetar somente ela mesma, e não os familiares ou outros etc.). Há quem ache que o aborto é coisa de “foro íntimo”, ou como um tipo de operação de apendicite. É como se um bebê fosse um órgão que pudesse ser retirado, como um órgão vendido (é proibido  vender órgãos; esta é uma proibição bem aceita socialmente). Há quem ache que o bebê pode ser descartado porque não está “pronto” (por acaso alguém nasce pronto?), sem que isso tivesse implicações com outros. Essas pessoas são deuses, não conhecem o inferno, já que “o inferno são os outros” e, para elas, os outros não existem.

Que se leia Foucault para se tornar uma pessoa melhor, tudo bem. Que se leia Foucault para entender o bio-poder, tudo bem. Mas, se ao ler Foucault sobre o bio-poder você se transforma no homem ou na mulher que acha que pode descartar outros, ou acha que descartando a si mesmo (ou partes de si mesmo) não descarta outros, então vou lhe dar um aviso: você está lendo errado. Faça o ensino fundamental e só então, depois, bem depois, na faculdade, leia Foucault, Se já fez faculdade, volte tudo, você está lendo errado, em uma situação pior ainda. Agora, caso você seja um professor universitário e esteja lendo Foucault para legitimar o seu desejo de tudo descartar, facilmente, como quem acha que é dono de seu próprio corpo, sem consequências, então não faça nada em termos de ensino. Tente não fazer nada de nada. Nem mais falar. Seu caso é um caso perdido. Você se descartou.

Paulo Ghiraldelli Jr. 57, filósofo.

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10 Responses “Os falsos donos do próprio corpo”

  1. Eliene
    12/12/2018 at 00:55

    Tem um caso muito usado em aula de direito constitucional que é o do “arremesso de anões”, para falar sobre a disponibilidade do próprio corpo e a dignidade humana. Gosto de pensar que corpo não podemos usar a lógica patrimonialista sobre o corpo. Coisificar o corpo é trata-lo como patrimônio que pode ser disponibilizado ou não. Coisificar é tratar indignamente o ser humano. É desassociar corpo e mente, como se houvesse mente que não fosse determinada pelas vivencias do corpo.

    • 12/12/2018 at 01:02

      Não necessariamente coisificar é ruim. Sem coisificar, você não goza minha cara.

  2. marcos vasconcelos de lima
    31/05/2015 at 09:54

    O uso do corpo, em muitos casos, não está na autonomia do sujeito, e sim objetivamente regulamento por leis, neste caso quem é dono do seu próprio corpo?

    • ghiraldelli
      31/05/2015 at 10:40

      Marcos todo o uso do corpo, todo o uso de nós mesmos, não é feito segundo nossa deliberação por uma razão simples: estamos e sempre estivemos em sociedade.

  3. roberto quintas
    27/05/2015 at 09:02

    nesse caso temos que entrar no mérito da diferença entre o que é público, o que é privado e qual a relação destes conceitos na cultura, na sociedade e na politica.

    • ghiraldelli
      27/05/2015 at 10:22

      Roberto, não creio ser necessário fazer isso, e esse é o mérito do meu texto.

    • roberto quintas
      27/05/2015 at 11:05

      como o tema de fundo é o aborto, questões de direito, deveres, sociedade e corpo, eu creio que deva entrar no mérito. };)

    • ghiraldelli
      27/05/2015 at 13:28

      Roberto, sinto desapontá-lo, mas se fosse isso, eu escreveria isso e cairia no banal que você quer ficar.

    • roberto quintas
      27/05/2015 at 14:27

      considerando que o tema seja a propriedade sobre o corpo e a cultura do descarte, seria banal limitar o tema utilizando o aborto.

      se for esse o tema eu gostaria que o sr lesse meu texto: https://zvezdasociety.wordpress.com/2015/05/27/a-dimensao-do-corpo/

    • ghiraldelli
      27/05/2015 at 14:46

      Roberto seus interesses são outros, não tem a ver com filosofia. Você está forçando a barra comigo à toa.

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