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17/08/2017

Os cabeçudos são os outros


Nietzsche se divertia ao dizer que o platonismo é o nosso senso comum. Como? Uma filosofia tão importante, propriamente a origem da filosofia, seria o nosso senso comum?

Sim! Nietzsche não tinha lá muito respeito – certamente necessário – pelos filósofos e não se importava em tomar as vulgatas como os seus feitos propriamente filosóficos. Assim, a mania de achar que aquilo que se apresenta aos nossos olhos é ilusão e que a realidade está por detrás das coisas, que é uma ideia de um platonismo rasteiro, e não propriamente a ideia de Platão, foi vista por ele como o nosso senso comum. Ora, sabemos que é efetivamente assim que nosso senso comum pensa e que, enfim, se acha crítico por isso.

No mundo moderno o senso comum se vê como crítico ao dizer que aquilo que está diante de todos é a ilusão provocada pelos fazedores de ilusão, em geral um inimigo real ou simplesmente um inimigo inventado para tirar o fardo de culpa de nossos próprios ombros fracassados. Foi assim que nasceu a noção da mídia que mostra a magia da câmera, que faria a mentira parecer verdade. Ora, e como a câmera, como tantas outras coisas, caiu bem na América, muitos acharam que poderiam pegar dois coelhos numa só tacada. Surgiu então a ideia de que os americanos, donos da fábrica de fantasia chamada cinema, poderiam sempre forjar uma ilusão coletiva, e nisso seriam inimigos perigosos que de fato não venceriam senão por mágica – mas venceriam!

Assim, em 1945, quando os americanos colocaram fotos em muros da Alemanha derrotada, revelando as atrocidades dos nazistas, muitos alemães diziam: “são produções do cinema americano, fantasias, nenhum de nós fez isso”. Ninguém queria reconhecer como seu parente algum oficial nazista, então revelado como assassino e ladrão, como apareciam nas imagens espalhadas por toda a Alemanha.

Quando o homem pisou na Lua, em 1969, ouviu-se a mesma coisa. Muitas pessoas diziam que o apresentado na TV, com Neil Armstrong deixando sua marca em solo lunar, era apenas uma campanha publicitária americana, gerada dentro de estúdios de Hollywood. Até hoje há gente (mal) escolarizada que acredita nisso.

Nos dois casos, as pessoas queriam acreditar de toda maneira que a enorme indústria do entretenimento não cria fantasia quando diz que cria fantasia, mas, na verdade, gera uma ilusão perversa. Essa indústria manipula os “ingênuos”, os que não sabem que tudo que é visível é falso, e que o real está “por detrás”. Claro que a tolice desse tipo de pensamento está agregada a uma bobagem maior, que é alguma “teoria da conspiração”. Mas, mesmo quando não está nesse tipo de cesto de teses de energúmenos, é esse platonismo de boteco que alimenta o senso comum que regra a vida dos “críticos”. É explorando esse tipo de pensamento, que vê na câmera a mágica, que os líderes populistas à direita ou à esquerda sempre conseguiram tornar a imprensa ou a “grande mídia”, como instâncias de poder maior que o próprio poder de governo. Assim, a tal mídia exerceria seu poder mágico e diabólico de manipulação da visão e da vontade, e que, por esse feito, deveriam ser atacadas “pelo povo”.

Tanto faz se a mídia, em vários momentos, pode mesmo tentar fazer uma reportagem muito tendenciosa. O político populista em geral a ataca sempre. É uma estratégia. Ele a coloca no pedestal do poder, de modo que a sua imagem, mesmo ele sendo rico e/ou estando no governo, fique associada como “o povo”. Esse tipo de pensamento é aproveitado pelo político populista para dizer que, por exemplo, a TV, nunca diz a verdade se fala contra ele.

A complexidade inaudita com que a mídia moderna teria de lidar para poder omitir ou inverter uma informação não passa pela cabeça de quem acredita nesse tipo de denúncia do político populista. O pior senso comum é aquele que se entende como crítico. Ele está na boca do velho aposentado, na fila do banco, que diz “o povo não sabe de nada!”. É o que Chomsky diz! O “povo” americano não sabe de nada, só ele sabe. O interessante desse tipo de coisa é que o sabichão nunca explica como que tanta gente é ignorante e só ele sabe “o que está por detrás”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (São Paulo: Cortez, 2015).

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7 Responses “Os cabeçudos são os outros”

  1. Claudio
    14/09/2015 at 18:18

    Concordo com que o senhor falou, Paulo. Mas, em parte, este comportamento de desmentir/desacreditar na mídia não viria do fato de que a mídia televisiva não tem focado no pertinente, no importante para o povo?

    Claro que o jornalismo puro e exclusivo não é obrigação dela, mas há uma medida que a torna mais ou menos útil para o povo, no sentido de passar informações mais precisas e mais pertinentes. Não seria a noção de baixa “qualidade jornalística” que nos faz mais céticos em relação à mídia televisiva brasileira?

    Nas manifestações populares de 2013, muito menos de 0,1% dos manifestantes poderiam ser taxados de “vândalos”. Não concordo com o termo, mas não importa… O que chamou minha atenção foi o fato de que as mídias televisivas, no início, mostravam o tempo todo alguém quebrando alguma. A palavra “vândalos” era pronunciada em quase todas as frases. A impressão que dava era de que metade dos manifestantes estavam no quebra-quebra! E pior: intercalando as imagens com comentários do Pondé,… do tipo “onde vamos parar?”

    Acho que isso abre o caminho para todo tipo de imputação negativa para a mídia brasileira. E claro, alguns se aproveitam disso também.

    • 15/09/2015 at 00:30

      Quer que a mídia fale o que você, “o povo”, quer? Faça o seu jornal, tenha seu blog ao menos. É por aí. A mídia é um negócio meu caro.

  2. Gustavo
    12/09/2015 at 18:59

    “O Sistema” – seja lá o que isso for – parece-me ser o grande eleito de uma geração inteira que adora não pensar e jogar todos os problemas do mundo nas costas de uma “mão invisível” que nos faz viver uma vida sem sentido. Esse platonismo vulgar é mesmo sedutor por fazer parecer intelectual o que, como você bem diz, é rasteiro. O bizarro é que trata-se de uma verdade acessível apenas aos gênios dos centros estudantis acadêmicos, cujo poder de descortinar o real (assim como eles dizem) os tornam oráculos. E quem espera, reflete, questiona, espelha sua postura na coruja de Atenas, esses são os manipulados por sabe-se lá o que.

    Inté.

  3. José Silva
    11/09/2015 at 11:45

    Li um livro uma vez do Noam Chomsky chamado “Mídia: propaganda política e manipulação”, parecia o Pondè às avessas.

    • 11/09/2015 at 11:45

      A diferença, Silva, é que o Chomsky é alfabetizado.

  4. luiz gonzaga teixeira
    11/09/2015 at 11:36

    senso comum é Aristóteles e não Platão. O idealismo é exatamente o oposto do senso comum. Senso comum é o materialismo. Tanto que os filósofos materialistas, como Demócrito e Hobbes, eram exatamente filósofos do senso comum. Além de Aristóteles, que é o senso comum elaborado. Até que Marx conseguiu produzir um materialismo aceitável no meio acadêmico. Mas a resposta não tardou, só um pouco mais de um século: Foucault. O mundo não se organiza nem evolui através de modos de produção, e sim modos de pensamento, epistemes. Cada época configura um conjunto de fundamentos, as epistemes, que evoluem até entrar em crise e daí produzir da crise uma nova episteme. Isso é idealismo, em Foucault e Habermas. Sofisticado. E não senso comum. Mas que talvez seja senso comum um dia.

    • 11/09/2015 at 11:37

      Luiz avise o Nietzsche disso, OK? Obrigado. Agora, quanto a mim, eu não disse Platão, eu disse platonismo vulgar. Conseguiu entender agora? Mas nem precisa explicar, no artigo fica claro como funciona.

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