Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

16/08/2017

A origem do verdadeiro amor


Relacionamento entre homens e cães


Que o homem domesticou o cão é uma verdade, claro, mas também é verdade que um primitivo cão “domesticou” um homem primitivo. Isso é que permitiu a relação entre homem e cão se dar de maneira tão única, com laços afetivos tão intensos, originais e exclusivos. A fidelidade do cão ao homem deveria espantar. A fidelidade do homem ao cão, como ocorre com o morador de rua no mundo todo, deveria nos ensinar mais, além de já nos ensinar a sermos menos egoístas – uma lição que só gente boa aprende de todos os cães e mendigos.

images (13)Temos amor e medo do cão. Como é com os nossos familiares. Principalmente pai e mãe. Seus dentes nos lembram a fera, o lobisomem de quem queremos nos afastar e, ao mesmo tempo, sua figura aterrorizante nos seduz. Que se lembre aqui do sucesso de Chapeuzinho Vermelho!

A aparência horrenda do cão é também a aparência que mais amamos no mundo animal, e só o cão desenvolveu o branco nos olhos, como nós, permitindo expressões semelhantes às que fazemos e consideramos humanas.

Nenhum dos primatas nossos parentes têm comportamento de família como nós temos, e307 que dividimos com a matilha. Nenhum macaco se individualiza como nós e como … o cão!
Nas cavernas nasceu a amizade daquele que seria nosso ancestral com o que seria o ancestral canino, e esse comportamento ficou incrustado no córtex cerebral de ambos os lados dos sujeitos da amizade. Dormimos juntos, nos amamentamos uns aos outros na troca de prole, nos ajudamos na caça, aliás, é evidente que o cão caça coletivamente melhor o que símio. Em uma era em que o homem ainda não era homem e o cão ainda não era cão, trocaram-se favores em um cotidiano que durou muito tempo.

homeless_man_dog_xlargeAssim, quando veio aquilo que chamamos de domesticação, esta não foi o início de algo completamente novo, mas sim a continuidade de algo que já era inerente à nossa natureza evoluída. Quando o homem reencontrou o cão e vice-versa um passo adiante na evolução, os elementos para os laços psicológicos já estavam programados.

O Pitoko levantou ontem e foi beijar a Fran pelo aniversário. Fez isso de um modo especial, diferente. Sabia da data. Todo nosso comportamento no dia anterior permitiu a ele “entender” o que ocorreria, e ele não tardou em expressar o afeto. Um afeto que é tão arcaico que nos parece o maior afeto, o completamente desinteressado. Pitoko sabe gostar com o desinteresse solicitado por Kant e com o envolvimento explicado por Hume. Sem a linguagem, sem conceitos e, no entanto, com um pensamento capaz de se comunicar de igual para igual com o humano, eis o que o cão faz, e que é alguma coisa que só se explica por conta de uma natureza evolutiva em comunhão.

Fomos fundidos evolutivamente com nosso parceiro. Se pensássemos melhor nisso tenderíamos a começar uma nova etapa de vida na Terra.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

Apoio: The evolution and natural history of dogs

Tags: , , , , , ,

One Response “A origem do verdadeiro amor”

  1. José
    30/12/2014 at 12:19

    A amizade com um cão é a melhor coisa da vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *