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23/10/2019

Operação vaginal e tatuagem anal – vamos nessa?


corujaAs cirurgias vaginais estão deixando de ser apenas corretivas. As mulheres começam a procurar cirurgiões plásticos para que eles se esmerem como artistas, agora não mais para reconstruir um nariz ou tirar uma papada, mas para dar simetria aos lábios vaginais ou tornar a vulva menos murcha e coisas desse tipo. Elas querem que o seu cirurgião atue como um Caravaggio vaginal. A beleza da xoxota está na moda.

Também entra em cena a tatuagem anal. Apesar de se constituir em um sacrifício muito maior que a tatuagem costumeira, as mulheres (mais que os homens) estão aderindo a uma arte especial, a que se faz nas partes mais recônditas do traseiro. Há aí algo de estético, é claro. Afinal, a maioria das pessoas que opta por uma tatuagem não a faz para não ser vista e apreciada. Todavia, no caso em questão, há também uma tentativa de atingir uma dimensão humorística. A tatuagem anal depende de movimento. Pode-se tatuar uma estrela que, com o ânus fechado, nada se mostra, mas com o ânus mais relaxado, aparece como que dizendo “achô, sou uma estrelinha”.

Tatuar o ânus e cortar a vagina! São façanhas que podem emergir a partir de motivações distintas, mas há algo comum nisso tudo. O corpo se torna cada vez mais analítico à medida que deixamos Eros lá no mundo grego, trazendo conosco o sexo. O sexo nos dá prazer, mas o erotismo nos dá vida prazerosa. São coisas diferentes. Ora, em um mundo em que a vida prazerosa está longe de ser alguma coisa conhecida por alguém, o sexo vai se tornando algo menor e, quando chegamos ao corpo, o processo de redução continua. Sem Eros desaparecem zonas erógenas, é claro, ainda que fiquem recantos sexuais. Recantos sexuais são espaços, Eros era um Deus. É fácil notar a diferença. Geometria é uma coisa, divindade é outra. Quando só temos a primeira sem a segunda, precisamos fazer com que a primeira, de alguma maneira, ganhe alguns dotes da segunda. Como fazer de partes sexuais alguma coisa que tenha espírito?

Ora, a cirurgia plástica de embelezamento da vagina e a tatuagem anal são obras que podem garantir à mulher, e também ao seu parceiro, o retorno de um espírito, ou melhor, um pseudoespírito, para aquilo que nem mais corpo é, mas apenas um pedaço dominado por pele. Caso no sexo um homem ainda faça como os da minha geração, que miravam a vagina como quem mira o caminho da felicidade por conta de promoção na hierarquia da hombridade, ao se deparar com a xoxota toda simétrica e arrumadinha, talvez ele fique curioso. Pode não achar nada bonito, mas certamente poderá exclamar, sendo um parceiro costumeiro: “nossa, você arrumou isso daqui, ficou bom”. Pode ser engraçado, belo e, enfim, um gesto de carinho. Os homens sempre acham que as mulheres que vão para a cama com eles estão perdidamente apaixonadas e nunca mais irão querer outro. A tatoo anal pode dar o mesmo efeito, ainda que, em alguns casos, o tiro possa sair pela culatra. Talvez o parceiro comece a rir ao ver que os movimentos anais se tornaram uma espécie de princípio de desenho animado.

Iniciei com a minha tese geral da deserotização do mundo, com a qual, costumeiramente, falo da insensibilidade que nos domina. No entanto, agora estou com um problema filosófico mais particular: o da confusão de sentimentos. Posso achar belo (e sexy) aquilo que me faz rir? Ao olhar para um cu que vira estrela não serei obrigado a gargalhar e, então, ficar distante do clima de apreciar a beleza e despertar o tesão?

Não há espaço aqui para desenvolver uma reflexão sobre esse assunto, mas a colocação da questão já é o suficiente. As pessoas riem no sexo, claro. Mas isso por causas bem diferentes do que é o riso provindo do escracho, daquilo que é o riso provocado pela “comédia pastelão”. O sexo demanda uma certa objetificação. Ele desperta a gana. Precisamos disso para “a pegada”. A contemplação da beleza não anula essa iniciativa. Mas o humor de escracho, diferentemente, age de modo relaxante e, portanto, não tem o que fazer no âmbito das chamadas “preliminares”.

Tatuar o ânus ou consertar e “embelezar” a vagina não seriam, então, atos impensados ou mesmo atos de quem pouco sabe da arte de sexo? Não seria, de certo modo, ainda uma infantilidade e, portanto, alguma coisa sem coadunação não com o sexo, mas com a atividade sexual determinada própria da vida adulta?

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br

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19 Responses “Operação vaginal e tatuagem anal – vamos nessa?”

  1. Danilo Henrique
    14/10/2013 at 16:03

    Seria a morte do Eros para um sexo Dionisíaco? Afinal não viveríamos hoje uma “era de Baco” como uma expressão que se opõe um apolíneo hegemônico, tanto na estética como na própria concepção de prazer?

  2. Doni
    28/09/2013 at 19:31

    “Antigamente” as mulheres não se depilavam, tatuagem era para marinheiros e presidiários, também acho que está havendo uma deserotização, não enxergo, dentro do meu universo, um clima de sedução entre os mais jovens, me parece que falta glamour. Agora nada contra as plásticas e tatoos, muito pelo contrário, acho bacana. Também acho que tô ficando velho!

    • 28/09/2013 at 19:51

      Deserotização no caso, Doni, não é falta de glamour, no caso, é uma tese mais ampla no sentido de que não estamos em uma sociedade erotizada porque não cultivamos nada como o Deus Eros.

    • Doni
      29/09/2013 at 08:43

      OK. Entendi, realmente glamour não tem muita relação com Eros, apesar de fazer parte, certo? Mas como introduzir o “culto” a Eros em nosso universo?

    • 29/09/2013 at 14:20

      Doni, não tem mais. Passou. Somos monoteístas, cristãos. Acabou. Amor para nós virou Agape, e isso ninguém pratica.

    • Doni
      30/09/2013 at 16:49

      Àgape.. que coisa mais chata (em se falando de tesão)Estamos todos fraternalmente ferrados!!!Vida de gado, povo marcado, povo feliz… é verdade amor virou Ágape, e todo mundo usa a mascara da fraternidade.

  3. Thiago S.
    27/09/2013 at 22:45

    Essas cirurgias são assustadoras. Onde tudo isso vai parar? Eros foi solapado, isso sim. Sinceramente, não é ser puritano, mas não há limite para certas bizarrices? Terapia pode ajudar, enfim…

  4. José Pedro
    27/09/2013 at 15:43

    Eu entendo certas mudanças na vagina como uma anti-brincadeira. Não faz sentido cortar os lábios vaginais para deixar só um buraco a vista. Não vejo isso como lúdico. Seria lúdico alguém cortar as pernas para ficar sexy ao transar?

    • 27/09/2013 at 17:31

      José Pedro, você é maluco? As cirurgias não são para decepar lábios! Quem disse isso? Putz!

  5. Guilherme Assis Aroeira
    27/09/2013 at 15:42

    Paulo, essa questão da cirurgia me fez lembrar uma conhecida, que me contou que fez o mesmo procedimento, e hoje se sente muito satisfeita consigo e com o namorado, que gostou muito do resultado.
    Mas, há quem diga que isso é desnecessário, e que “cada um tem que ser feliz do jeito que deus lhe fez”. É correto afirmar ato de modificar o corpo, e moldá-lo conforme a própria vontade e desejo encontra muitas barreiras moralistas?

    • 27/09/2013 at 17:32

      Bem, modificação corporal é algo do momento, até porque nosso “eu” se deslocou para o corpo. Mas meu texto vai noutro sentido.

  6. Daniel Mota
    27/09/2013 at 12:15

    Professor, é muito legal trazermos temas recentes assim para uma pauta de reflexão, quanto ao tema, não julgo a cirurgia de embelezamento vaginal nem a tatuagem anal como”infantis” ou outros termos que tenham tom depreciativo, pelo contrário, considero ambos como um aperfeiçoamento erótico mesmo, aumentam o nível de excitação entre os parceiros no momento do sexo, seja vaginal ou anal, mas, claro, a adjetivações quanto a qualidade de tais práticas inovadoras, se ficou “bom ou ruim”, podem variar de acordo com as opções, gostos peculiares ao parceiro em relação à parceira sexual.

    • 27/09/2013 at 13:20

      O infantil não era no sentido depreciativo, mas no sentido de quem brinca. É possível brincar no sentido de rir e fazer sexo ao mesmo tempo? Muita gente diz que sim, mas isso merece uma reflexão mais detalhada, mais atenta, mais analítica, e não simplesmente genérica.

    • Daniel Mota
      27/09/2013 at 13:45

      Perfeitamente entendido!

  7. Geraldo Moreira
    27/09/2013 at 09:25

    É o que acontece quando pai reprime o menino de brincar de boneca. Ele cresce, não gosta da fruta, a mulher quer dar, e acaba fazendo um monte de cirurgia pra ser a bonequinha que o bonequinha sempre quis brincar.

    • Guilherme Assis Aroeira
      27/09/2013 at 15:36

      Não cara. Não.

    • Geraldo Moreira
      28/09/2013 at 00:38

      Citei uma das possibilidades. E a sua antítese, Guilherme Assis Aroeira?
      Eu poderia fazer um texto “blasé” e discorrer sobre. Mas pra que?! * Sem querer parecer um niilista radical, por mais redundante que essa última questão que te fiz pareça ser.
      O caso é que qualquer intervenção corporal por razões estéticas não é novidade alguma há milênios, por uma penca e um punhado de motivos. Nos tempos de hoje não é diferente, as motivações também são diversas, seja a modificação corporal que for. Eu, por exemplo, gosto de buceta comportadinha, nada daquelas beiçudas (mas não as dispensaria). Sobre o cu não tenho opinião formada quanto a estética, só quanto a higiene. Tudo se trata de interesses pessoais no caso, independente do motivo. Sendo assim, concluo a dissertação e crença que, nem genericamente seja possível fazer um apontamento distinto das referências de modificação corporal e motivação citadas no texto do professor dos nossos tempos para anteriores. Talvez, sendo possível apenas para um psicólogo apontar as razões em um caso específico ou a um antropólogo, que é devidamente ferramentado para lidar com fenômenos culturais. “Eu acho.”

  8. José Pedro
    27/09/2013 at 04:27

    Paulo, acho desnecessário grande na maioria dos casos essa mutilação, mas infelizmente as mulheres costumam ser muito críticas sobre as xoxotas entre elas. Além do que as brasileiras estão entre as que mais fazem cirurgias estéticas no mundo.
    Na net tem um site que critica justamente essa questão da cirurgia vaginal, lá vemos xoxotas maravilhas com lábios e clitóris grandes. Quanto maior os lábios melhor, pois quem já chupou percebe o tanto que é bom para encher a boca.

    • 27/09/2013 at 04:49

      José Pedro, nem sempre é mutilação. Ao contrário!

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