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25/07/2017

Onde erram os que falam do “conhece-te a ti mesmo” délfico e socrático?


“Conhece-te a ti mesmo” era uma das inscrições do Templo de Apolo. Não a única. Junto dela estavam “nada em excesso”, “refreia o espírito”, “observa o limite”, “odeie a jactância”, “reverencie o divino”, “tema a autoridade”, “a glória não está na força”. Os filósofos antigos que deram atenção para o oráculo délfico – especialmente Heráclito e Sócrates – selecionaram para si mesmos o primeiro ensinamento, que se tornou então célebre, gnothi sauton. Forneceram-lhe vida própria, ainda que dificilmente em contradição com os outros ensinamentos do Templo.

A tradição do gnothi sauton nas mãos de Sócrates, segundo Platão, criou várias tendências de investigação e procedimento prático, mas nenhuma delas, ao menos no mundo antigo, articulou-se ao que modernamente praticamos quando falamos “conhece-te a ti mesmo”. Quando falamos isso, modernamente, em geral descrevemos como método uma espécie de introspecção, um solitário mergulhar no eu profundo, algo como uma “meditação”. Ou então, depois da popularização da psicanálise, uma investigação a partir de uma narrativa, diante de um doutor, quase que como no confessionário ou, talvez, num tribunal ou na sala de um juiz que lhe fornece a “delação premiada”. Nada disso esteve presente em Sócrates. As descrições da atividade do eu no mundo antigo nunca o tomaram como um self abaulado, culpado e cheio de segredos. Se pudermos falar anacronicamente em sujeito e objeto para esse tempo, teríamos de dizer que Sócrates sempre tratou do eu ou do si-mesmo de uma maneira objetiva. Desse modo, conhecer-se nada era senão tomar consciência a respeito do que se sabia e do que não se sabia, dentro de práticas sociais na polis. Concomitantemente, isso despertaria o cuidar-se. Em que sentido? Cuidar de si mesmo de modo a não continuar com um eu ou um si-mesmo que pudesse perder sua unidade moral. Cuidar portanto antes da alma que do corpo.

Falado assim, parece difícil de entender, mas quando lemos Platão e vemos a atuação de Sócrates, logo percebemos que as coisas eram relativamente simples. Explico.

Um general que se diz corajoso deve saber o que é a coragem. Afinal, se não sabe o que é a coragem, como pode dizer que seu ato bravio foi um ato corajoso. Ora, se num diálogo investigativo com Sócrates, perquirindo “o que é a coragem?”, se exerce o elenkhós, o método da refutação, o general percebe que ele, de fato, não sabe o que é a coragem, então vê que não conhecia a si próprio, que pode ter estado perdendo sua unidade moral, pois fala ser uma coisa que de fato pode não ser. Deve cuidar de si, de sua alma, em um sentido intelectual que é moral ao mesmo tempo. General corajoso é uma posição social na polis, não é algo do âmbito privado, e saber-se general e, no entanto, talvez não corajoso, é a perda da unidade moral exatamente por ignorância. Foi assim que Sócrates colocou cada ateniense sob o jugo de sua frase “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. E foi assim que Sócrates quis dar a cada cidadão de Atenas a condição de avaliar sua posição de homem livre na cidade. Esse autoconhecimento propiciado por Sócrates faria Atenas, como um todo, saber de si, portar-se como a cidade que deveria ser. “Conhece-te a ti mesmo”, assim, funcionava como um lema político. Não no sentido moderno, de relacionamento com o poder, mas no sentido antigo de saber o que é requerido para afirmar de si ou que se afirma no ambiente da polis. Se me afirmo general e, portanto, por ser general, corajoso, preciso saber mesmo que sou corajoso, então tenho de ser capaz de explicitar a natureza da coragem. Faço isso e isso é o cuidar de mim mesmo, de modo a ir para casa sem a companhia de um embusteiro e talvez covarde.

Tenho explicado aos quatro cantos isso tudo, mas quanto mais explico, mais vejo palestrante errando, mais vejo professor seguindo palestrantes e não Platão. São pessoas que não sabem se sabem, ou seja, não enfrentaram Sócrates e o “conhece-te a ti mesmo”. São pessoas que não sabem que não sabem.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 13/12/2016

Veja mais no livro Sócrates – pensador e educador (Cortez 2015).

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6 Responses “Onde erram os que falam do “conhece-te a ti mesmo” délfico e socrático?”

  1. Romero
    14/12/2016 at 10:44

    Sócrates foi condenado a pena de morte por acreditar em outros deuses mesmo ou por algum outro motivo, talvez por questionar demais os cidadãos de Atenas?

    • 14/12/2016 at 10:59

      As acusações foram três: produção de novos deuses, corrupção de juventude, desrespeito aos deuses da cidade. Para não ficar no senso comum, Romero, leia o meu “Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015). OK?

  2. Amador da Filosofia
    14/12/2016 at 09:01

    Acho interessante que as bases fundamentais de filósofos clássicos muitas vezes vinham das investigações sacerdotais estabelecidas da antiguidade, que comumente eram organizadas nos chamados Mistérios Antigos, como atesta a referência sempre presente ao Templo de Delfos quando mencionado o conhece-te a ti mesmo. Até mesmo Nietzsche dizia que era o último iniciado dionisíaco, fazendo também referência às clássicas Escolas de Mistérios. Enfim, enquanto a repetição verbal abriu precedentes para desdobramentos infinitos no labirinto da mente humana ao longo das eras, e sua prova e prática foi primeiramente transferida dos serviços sacerdotais clássicos para a sociedade da polis, e posteriormente para a introspecção moderna, faz muito bem à sobriedade intelectual voltar a Platão e Sócrates para captar como eles estavam usando o conhece-te a ti mesmo, quando viveram e produziram o que se tornou bagagem de base da civilização ocidental moderna. Mais fundo o intelecto não avança, no domínio dos Mistérios, no qual estiveram alguns filósofos.

    • 14/12/2016 at 09:16

      “Tudo está repleto de deuses” – Tales de Mileto.

  3. jonathan
    13/12/2016 at 11:19

    E quando Nietzsche repete essa frase? O sentido já seria outro?

    • 13/12/2016 at 13:42

      Jonathan a frase fez escola, ela começa a ser repetida logo após Sócrates. Poucos filósofos ficaram sem repeti-la. Mas quando não explicamos o que estamos fazendo, então toma-se como sendo o dito socrático.

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