Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

23/04/2017

Ocidente e Mundo Muçulmano não possuem laços humorísticos comuns?


 Para sair da ideia do papa de esmurrar quem xinga a mãe

Quando eu era adolescente iniciou-se uma prática que a geração um pouquinho só mais velha execrava: passar a mão na bunda do colega. Não era uma alusão a nada, nem mesmo tinha lá alguma conotação sexual. Passar a mão na bunda era passar a mão na bunda. Tínhamos entre 14 e 17 anos. Mas quem tinha 22 anos, nos olhava feio. A geração de “Maio de 68” olhava feito para a geração de um pouco menos de Maio de 78. Por quê? Porque eles tinham nos ensinado a sermos livres, e nós levamos a sério isso. Eles mesmos não. Passávamos a mão na bunda enquanto eles estavam ou decepcionados com tudo, ou ainda motivados, mas para a “luta armada”.

Um pouco mais tarde, houve uma entrevista de Lula em que este dizia que, entre operários, quando ele ainda não havia entrado para a política, era costumeiro um colega passar a mão na bunda do outro. Ou seja, até mesmo no meio dito mais rude, talvez menos afeito às liberdades do corpo, tínhamos aprendido a não sermos tão rigorosos conosco mesmo. Havia ocorrido uma revolução semântica, e uma hermenêutica da bunda mostraria que tínhamos nos tornado mais civilizados, levando em conta aí Norbert Elias, para se entender o “mais civilizado”.

Quanto mais civilizado é um povo, segundo Elias, mais ele pode se dar ao luxo de permissividades consentidas, uma vez que as leis necessárias para torná-lo civilizado já foram incorporadas a ponto de não terem o perigo de se deteriorar diante de certas licenciosidades.

Junto com a dessacralização da bunda veio também a condescendência para com o “viado” e até mesmo o “filho da puta”. Reagir com um pedido de duelo a um xingamento de “filho da puta” só em caso de uma situação extrema, em que a rivalidade já havia ultrapassado limites antes de qualquer xingamento de “filho da puta”. Era comum entre amigos da escola algum “filho da puta” brincalhão.

Isso não ocorreu só no Brasil. Foi um movimento mundial, ainda que entre nós, aqui no Brasil e nos Estados Unidos, essas práticas de romper com a sisudez do mundo tenham sido bem mais ampliadas que na Europa. Estávamos caminhando para o tempo que até um “é foda” e um “caralho!” viessem a ocupar a mesa da sala de jantar da classe média escolarizada.

Mas eis que mais recentemente, aquilo que não mais ofendia voltou a ofender. Não com acartoon força sincera do que ocorria no passado, antes dos anos sessenta, mas como uma completa quase falsidade. O movimento evangélico contribuiu para essa farsa. Eis a regra que começou a ser instaurada: transformar as palavras de modo que elas tivessem mais força do que já haviam tido, já que as igrejas caça-níqueis não podem proibir ato nenhum. Junto disso surgiram aqueles que, mesmo entre nós, começaram a achar que a parte do mundo que se ofende com tudo, ou seja, certos campos de sisudez religiosa, inclusive ou principalmente de não ocidentais, tem a sua razão de ser. Desse modo permitimos agora termos entre nós os que acham que um lápis que faz um desenho é a mesma coisa que a metralhadora que assassina. Perdemos o espírito que “Maio de 68” ensinou aos que vieram depois. Pessoas que pensam assim, de modo sisudo, perderam uma das maiores conquistas da humanidade: a leveza, a relevância, a apreciação artística diante de uma das mais nobres e inteligentes artes, a do cartum.

Esse tipo de gente pode, no Ocidente, jogar contra a liberdade de expressão. Esse tipo de gente, à direita é à esquerda, começa com frases esquisitas: “discurso de ódio não é liberdade de expressão”. E no interior de “discursos de ódio” agora cabe tudo. Esquece-se que há tribunais para responsabilizar cada indivíduo pelo que fala, e que por isso, uma tal campanha só tem sentido se o desejo é intimidar as pessoas, criando a censura prévia, a autocensura e, ao final, o terror.

A questão das relações das democracias ocidentais liberais com o mundo muçulmano hoje não é uma questão de correções mútuas, muito menos unilaterais. A estratégia que temos de pegar é outra. Temos de ver as tradições de humor. Temos de ver as tradições do cartum. Temos que fazer sentar à mesa não os governantes, mas diretores de cinema, romancistas e, principalmente, cartunistas dos mundos diversos. É por essa via que podemos encontrar pontes. Os humores possuem elo. Ou não? Ora, se as filosofias possuem ligação, porque a religião muçulmana vinga também por meio do neoplatonismo e do neoaristotelismo, será que não temos elos quanto à leveza do humor?

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

Análise das caricaturas do Charlie Hebdo no Hora da Coruja

Tags: , , ,

7 Responses “Ocidente e Mundo Muçulmano não possuem laços humorísticos comuns?”

  1. 23/01/2015 at 11:53

    Tem quadrinistas orientais fazendo obras como Persépolis e ocidentais falando sobre cultura do oriente médio.

    Estes não poderiam fazer essas pontes da leveza no humor?

    Tudo de bom!

    • 23/01/2015 at 20:00

      Não sei, é isso que cabe investigar, se há boa vontade e se a produção ajuda.

  2. 4F
    22/01/2015 at 18:57

    Congresso alemão discute humor no mundo árabe:

    http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/07/070706_caricaturascrescentiebc.shtml

    Detalhe: a notícia é de 2007.

    • 22/01/2015 at 19:57

      4F, lembre que ocorreu a feira de cartum do Iran, com o tema “não houve Holocausto”. É um tema altamente ofensivo para boa parte do Ocidente. Aliás, um tema ofensivo para toda a Humanidade, diríamos, uma vez que foi o Holocausto que nos fez gerar a noção de “proteção de minorias”. Mas a reação do Ocidente a isso foi bélica? Ou foi só no lápis? Ou nossa direita, no Ocidente, cria o slamofobismo a ponto de também nós nos comprometermos com o belicismo. Temos de parar com a teoria do espelho, a do português Coutinho, onde tudo tem de ser a nossa cópia para ser certo.

    • LMC
      24/01/2015 at 12:18

      Ih,aqui no Brasil muita gente
      bocó apoiou o fuzilamento
      daquele brasileiro na
      Indonésia.Quem criou o
      tal islamofobismo é a
      extrema-direita,não
      a direita tradicional.
      Adivinhem quem
      apóia a pena de
      morte por aqui….

  3. Emerson
    21/01/2015 at 19:57

    Muito bom. Concordo. Reagindo a provocação final, sim, há pontes entre os dois mundos por conta de raízes filosóficas similares. Por exemplo, há no mundo muçulmano a leveza do humor. Lembro de um personagem muito popular em amplas regiões de cultura islâmica, em especial na atual Turquia e parte do irã, antiga Pérsia. (http://www.nasrudin.com.br/classicas-de-nasrudin.htm). Diz-se que foi uma tradição criada por uma autoridade religiosa (Khawajah Nasr Al-Din) que viveu no século XIV, são contos, histórias diversas, muitas delas engraçadas, satíricas, do cotidiano, que criaram raízes em várias culturas, compondo uma parte da tradição islâmica sufi. Sem falar que a própria representação artística (imagem) do profeta já foi realizada inúmeras vezes durante a história e em muitas regiões do atual mundo muçulmano.

    • 21/01/2015 at 22:22

      Emerson mais especificamente a questão é a arte do cartum. Nesse caso, são as pontes rortianas que devemos encontrar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo