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25/03/2017

“O talento é imperdoável” ou Da Inveja


Uma das melhores descrições da inveja que conheço foi desenhada por  Nabokov, no conto “A destruição dos tiranos”, misturando aspectos que poderíamos atribuir a Lênin e a Stalin, uma vez conhecendo a trajetória do escritor.

Todas as vezes que Nabokov monta essa figura, em contos ou em episódios biográficos, não nos deixa dúvidas: ele foi um dos poucos humanos que viu de perto esse demônio. E o faz sem um traço de ressentimento ou corrupção moral, por causa do que passou na mão de tiranos. É um trabalho de mestre. Poucos conseguiram estar tão perto do diabo sem ceder. Nabokov mostra tudo que move vários revolucionários bolcheviques. Nada além do que Marx chamou de “comunismo de inveja”: socializar para se tornar, na prática, os novos donos, os novos proprietários, agora mais legítimos ainda que os antigos – a legitimidade vinda “do povo”.

A inveja atinge muita gente. Dizem que quando ela chega, entra não pela porta, mas por vãos dos armários. Não se aloca no cérebro, mas no coração. Depois, atravessa a glândula pineal e vai para a alma. Quando volta, já deixou instalada na mente os resquícios da gosma verde. Toda a inteligência é comandada por ela, a partir daí. Não à toa Adorno escreveu que “a inteligência é uma categoria moral”. São mores, e não ethos, os elementos que comandam a inteligência. A inteligência do invejoso é paradigma disso.

A inveja atinge a esquerda e a direita. Quem viu Mussolini manter Gramsci na prisão até os últimos dias da vida do deputado italiano, pode saber bem o que é a inveja. Tendo sido colega de Gramsci no parlamento, Mussolini se remoía ao ver os discursos perfeitos do sardo. Quando conseguiu o poder, tratou de eliminar aquele que o havia ridicularizado. Mussolini, no fundo, queria apenas uma coisa: ser Gramsci.Um escritor célebre me contou certa vez que entrou em uma lista de internet de sua universidade, preocupado em responder questões a respeito de seus livros. Eis, então, que começou a ser agredido pessoalmente por vários desconhecidos. Eram pessoas com nomes e RGs, certamente, mas que nunca haviam publicado nada nem haviam se destacado em seus lugares de trabalho. Usavam das possibilidades da internet para dar vazão para a inveja. Ele concluiu, então, que não deveria sair da lista, mas que responderia somente aos críticos não-invejosos. Ficou anos na lista, sem poder escrever! Então, esqueceu o que prometeu e voltou a escrever. Não deu mais bola para inveja e escreveu contra ela – diretamente.

No mundo filosófico não há ninguém que descreveu a inveja melhor que Nietzsche. Aliás, foi ele, e não os psicólogos e menos ainda Freud, que conseguiu colocar a inveja como categoria descritiva. A tipologia de Nietzsche, quando ele fala do “fraco” ou “escravo” ou “doente”, é a que mostra alguém que antes de ser só ressentido, é invejoso. Está corroído. O “fraco” de Nietzsche não é apenas a antítese do “forte” – ambos desprezíveis para o filósofo. O “fraco” tem um tacão no peito, que o sangra dia após noite: a inveja. O invejoso não aparece. Ele se esconde. Está resguardado pelo seu nome que é uma capa, pois ninguém sabe quem é ele. O nome de alguém que nada fez é um nome que vale como uma máscara de ladrão. Pode usar o nome, mas o nome não diz nada. É assim que o invejoso, o “fraco” de Nietzsche, age rotineiramente: ele é como o inseto – também um exemplo nietzschiano – que muda de cor para se parecer com a paisagem. A covardia e a inveja são irmãs, e elas às vezes tentam se mostrar antes como virtudes que como vícios, e então se travestem de “prudência”, até de “sabedoria” e “altivez”.

Todavia, não foi Nietzsche, e sim Diderot, quem melhor qualificou a inveja por meio daquilo que mais a incomoda: o talento. As pessoas invejosas, de fato, não invejam o outro por terem dinheiro ou qualquer coisa “material”. O verdadeiro invejoso inveja o outro pelo talento que o outro possui. Diderot escreveu “o talento é imperdoável”. A sabedoria e grandeza dessa frase ecoam todos os dias no mundo da cultura: um artigo censurado, um livro queimado, um autor posto no pelourinho, um e-mail imbecil contra um escritor ou pensador, um escritor medíocre que ataca um filósofo clássico, uma lei contra a liberdade de expressão, a perseguição (simbólica ou física) de um superior – tudo isso se apresenta como “moral” ou “política”, mas quem quiser ver verá a mão da inveja nisso tudo. Se assim fizer, acertará mais que os teóricos. Basta olhar para o canto da covardia.

Os sociólogos, quando fazem sociologia, tendem a desacreditar a inveja. As grandes teorias sociais nem sempre encaram a inveja. Rawls e Nozick a encararam, mas não suportaram seu rosto e a desenharam como “inveja social” produzida por questões sócio-políticas, deixando de lado sua mão psicológica. Quem quiser falar em teoria e vier a afirmar que um ato ocorreu por inveja, em geral é desacreditado. Ou seja, a inveja, ela mesma, já tomou posse inclusive dos instrumentos teóricos. Ela comanda a teoria, exatamente para se mostrar como desimportante. Assim, pode agir mais ainda no anonimato. Os clássicos da sociologia, como Marx, Durkheim e Weber, quando pensaram teoricamente, não deixaram espaço para a inveja; penso que acreditaram que a literatura faria sua parte. Mas, com isso, deram liberdade para ela continuar agindo. A inveja foi vista por eles como contingente, não como estrutural. Mesmo quando eles tentarem fazer psicossociologia, eles não deram à inveja a importância merecida. Seus “tipos” ou “atores” não foram caracterizados pela inveja, ainda que pudessem ser caracterizados por outras faltas ou virtudes “psicológicas”, digamos assim. A inveja sabe como ninguém usar de nomes que não dizem nada, e com isso se alimenta.

No cinema, é claro, eu poderia falar da figura clássica de Salieri, no filme Amadeus. Mas Salieri não é o invejoso típico. Na verdade, ele foi torturado por uma desgraça, uma doença rara, a de ser um dos poucos que conseguia compreender e viver em plenitude a obra do invejado, Mozart. O invejoso de que falamos aqui é diferente, ele é que é o típico: ele gostaria de ser o invejado, de ter seus dotes e sua altivez de caráter, mas não tem a pequena grandeza de ao menos compreendê-lo.

Um dos diálogos mais impactantes entre uma pessoa altiva e o invejoso, é o do chefe de polícia, que busca evidências de subversão em estudantes, e a garota panfletista que ele interroga. Isso está no filme “Uma mulher contra Hitler“. O filme é sobre estudantes que desafiaram no nazismo, dentro da Alemanha. Quando Sofhie (o nome é significativo aqui!) é levada para o oficial que a interroga, o interrogatório se torna rapidamente não uma exposição da vida da garota, e sim da vida do interrogador. Ele diz claramente que nunca teria subido na vida, nunca teria sido alguém caso não viesse o nazismo, que deu cargos de comando para gente como ele. Que tipo de gente? Os “sem nome”, os incompetentes. O próprio Hitler, sabemos, era um pintor frustrado.

Deveríamos ficar atentos para os olhares dos que, não sendo nada, não tendo nenhum talento, estão prestes a adquirir um cargo de mando. Eles serão os algozes nossos, caso saibamos fazer alguma coisa que dependa de talento.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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4 Responses ““O talento é imperdoável” ou Da Inveja”

  1. Alex Machado
    03/11/2015 at 16:57

    Muito boa reflexão e boa indicação de filme!
    Entretanto, se deixarmos as questões morais de lado, a inveja não teria um sentido positivo, por exemplo, provocar no invejoso um desejo de construir algo de bom para si e para os outros?

    • 03/11/2015 at 17:21

      A inveja é uma noção moral, desde sua fundação. O querer simplesmente não é inveja.

  2. Matheus Kortz
    27/03/2015 at 19:36

    Seu melhor texto que li, mais um pouco e até eu me renderia à inveja, mas por poder entender sua grandeza, a transformarei em admiração!

    • 27/03/2015 at 23:01

      Kortz assista os dois filmes referenciados, são maravilhosos. Obrigado por ler minhas coisas.

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Filósofo