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16/12/2019

O sujeito como vestimenta do aborto


O homem é um erro da natureza. Pode até ser um erro daqueles do Mr. Magoo, mas ainda assim é um erro. Ele se fez por meio de um processo falho, esquisito, fora de eixo. Sabe-se lá quando, uma fêmea abortou um filhote cuja cabeça havia crescido demais, e que então, no último momento em que ainda poderia sair do útero, veio à luz.

Era para ser deixado para trás, mas a fêmea notou que o aborto se mexia – estava vivo! Não deveria durar mais que minutos, mas contra todas as expectativas, vingou. Demorou a andar, mas um dia andou. Foi desculpado pelo retardo, afinal, era um aborto.

Um descendente longínquo desse aborto, num tempo futuro, gerou outro aborto desse tipo. E então, de erros acolhidos pelo destino, a figura “mal nascida” apontou para o futuro – o homem.

Procurar a noção de sujeito moderno na individualização da vida moderna, um feito da burguesia e com a comemoração em forma de doutrina política, o liberalismo, é algo de filósofos influenciados demais por sociólogos. Tecer uma narrativa sobre o sujeito levando em conta peripécias antropológicas e esquisitices da puericultura, é coisa de filósofo com criatividade. Esse segundo caminho pode não ser novo, mas a maneira como traçado por Peter Sloterdijk é bem útil. O sujeito é um produto não do conceito do homem, mas uma peça de uma história em que o homem conta porque nele mesmo, na forma como aprendeu a vir ao mundo, tem lá alguma coisa a ver com o sujeito. Ser sujeito é nascer mal nascido. E isso somos todos nós.

Somos aqueles que são o esforço, uma vez que nascemos desequipados e, ao mesmo tempo, passamos por um estágio de molusco, para depois receber saudações e promessas. As saudações começam quando ainda estamos em companhia da placenta. As promessas vêm tão logo a placenta se foi e deixou em seu lugar nosso anjo da guarda. Promessas falsas, claro, pois ninguém pode prometer o que as mães prometem. Então, para que não cairmos no vazio, arrancamos do nosso equipamento inexistente os modos de ficarmos em pé, de nos desinibirmos para agir. Somos sujeitos porque somos esse bicho mal nascido. O conceito de sujeito pode ter vindo tarde, mas ele nos é inerente. Algo parecido com ele, algum dia faríamos.

Viemos ao mundo sem equipamento, mas não despreparados. Como um molusco, nós passamos um bom tempo em uma caverna escura cujas paredes detinham um tubo que nos alimentava enquanto nadávamos sem esforço, esbarrando em corpos moles e aprendendo tudo por sinestesia.

O mundo antes de tudo é um campo de sinestesia entre amigos, parceiros – a placenta e o seu hóspede. Somos desequipados e, no entanto, não despreparados, porque nascemos não sozinhos, mas segundo uma vida que montou antes de tudo o ambiente chamado íntimo, pré-requisito para o “interior”, algo próprio também ao sujeito. O sujeito é o que age, o que põe a teoria na prática, mas o faz porque se consulta e no seu interior tem os desinibidores da sua ação. Essa definição de sujeito que pode ter a linguagem sem ter de dizer que a linguagem ou é inata ou é social, é construída em uma microesfera de ressonância entre dois polos, placenta e hóspede. Um hóspede que não preencheu ficha para pegar o quarto. Quando se compra o hotel, lá está ele, como se sempre morasse ali. Esse hóspede é o herdeiro do cabeçudo que saiu na hora certa.

Considerando tudo isso, evitamos a mônada, o indivíduo. Evitamos também o ser em interação social. Escapamos dos que colocam na barriga um indivíduo e dos que colocam fora do útero indivíduos em interação, para explicar como o homem é homem e como ele se adaptou ao conceito que criou, o de sujeito.

Paulo Ghiraldelli , 56, filósofo.

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