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11/11/2019

O sucesso do filósofo tolo


Antes de tudo, o que se impõe é ter sucesso. Chamar um homem de “fracassado” é pior do que chamar uma mulher de “gorda” ou de “mal amada”. No entanto, se o mundo dependesse de sucesso como ele é entendido hoje, talvez não tivéssemos nunca saído sequer da condição de quase símios.

Quem conhece a mãe de Schopenhauer como escritora? Em sua época, ela foi a última bolacha do pacote, enquanto ele, um professor ridículo que não tinha alunos tanto quanto Hegel, o filósofo oficial. Hoje, sua mãe é conhecida como “a mãe de Schopenhauer”. Ninguém sabe de um livro dela, embora tenha vendido proporcionalmente mais que Paulo Coelho. Aliás, pensemos em Peirce, o grande filósofo fundador do pragmatismo e expulso da universidade por ter uma vida “incompatível com os bons costumes”. Ou então a desgraça que se abateu sobre Oscar Wilde, preso por ser homossexual e empurrado para fora da vida por todos. Não falo só de gênios. E quantos homens comuns, mas dotados de inteligência, não são cotidianamente massacrados pelo rótulo do fracasso, tendo suas contribuições ou jogadas para escanteio ou simplesmente não aproveitadas? Às vezes, nem o aproveitamento tardio aparece como consolo para seus fantasmas! Não raro, há o aproveitamento feito por roubo, enquanto que o próprio inventor e criador e colocado na masmorra.

A injustiça é a coisa mais bem distribuída entre os homens. Foi Deus quem disse isso. Não em palavras, mas em atos. Ele escolheu Abel!

Desse modo, aparece contra isso a tenacidade e a inteligência inerente. Há pessoas que sabem que estão fazendo o certo ao fazerem o que fazem, ainda que o foco dos holofotes modernos não esteja sobre elas. Não estou falando do fanático que acha que está certo apesar de tudo no mundo dizer que ele deveria duvidar. Estou dizendo daquele cuja profissão é exatamente colocar um “senão” aqui e ali além de dizer “será?” O filósofo.

Filósofos com holofotes iluminando suas línguas e até bundas e carecas me causam certa preocupação. Sempre me pergunto: será que ele é suficientemente filósofo para suportar ter se tornado um jogador de futebol que acha que vai para a seleção? Será que ele é suficientemente maduro para suportar ter virado uma estrela pornô? Será que vai conseguir ainda caminhar com a filosofia após ter se tornado a Sabrina Sato?

Funk ostentação e teologia da prosperidade podem ser objeto da filosofia, mas não são coisa apropriada ao filósofo, embora alguns achem que podem recitar Pascal ou Marx nesses ritmos, requebrando na imprensa e escolas do momento por aí e por aqui.

Há algo que mata o filósofo quando foi ele quem abraçou a filosofia e não quando foi ela que o tornou filho. A claque – ela mata. Ter público é bom. Ter público cativo é péssimo. O escritor pode viver assim, o filósofo se destrói se tem público cativo. O público do filósofo é volúvel. Pois o filósofo autêntico não vive do sucesso, ao contrário, ele vive de contrariar aqueles que há menos de um minuto o aplaudiram. Pois a filosofia ou é uma força “do contra” ou não é filosofia.

Adoro encontrar leitores e interlocutores que não receberam dos meus textos “uma direção de ação”, mas uma sugestão de pesquisa e conversação. Por isso não gosto da política. E por isso não tenho nenhuma crença no sucesso daqueles filósofos que há muito não falam nada de filosofia, somente de política. Pior ainda os que travestem a política e a militância com frase de filosofia. Filósofo bom não escreve sobre seu cavalo e lá pelas tantas resolve fustigar a esquerda ou a direita políticas num texto que vinha por conta de seu cavalo. Filósofo bom escreve sobre seu cavalo – ponto! Se for para falar de política e cavalo, então que comece logo com Incitatus, senador. Isso de escrever de alhos para falar de bugalhos não é coisa de escritor ou de filósofo, mas de quem não saber produzir um texto.

A política há tempos não é a administração da polis, nem talvez o exercício do poder e do contra poder. Ela é apenas o carimbo para o sucesso imediato no campo do marketing pessoal, uma forma de viver o mesquinho “vou me dar bem”. Mostro minha adesão à esquerda e à direita e, então, tenho uma claque e amigos influentes que vão me colocar nas melhores posições editoriais, universitárias, jornalísticas e sexuais. Quando vejo isso rolando por aí, o vômito me vem à boca. Não por ver uma pessoa perdida, mas por ver tudo aquilo que poderia ter sido e não foi, e nunca será.

O dinheiro corrompe o homem comum, o sucesso imediato corrompe o corrompido filósofo que não foi escolhido pela filosofia, mas que a agarrou à força.

Faz tempo que venho dizendo isso aos mais jovens: escrevam para serem lidos, mas não  queiram ser lidos pelos que não sabem ler, só adorar. A adoração é o pecado da filosofia.

Filósofos com claques de jornalistas pensam estar com a filosofia, mas estão somente com a ideologia. A filosofia há muito os abandonou.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

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9 Responses “O sucesso do filósofo tolo”

  1. Alexandre Magno
    22/05/2014 at 01:56

    Criativo de sua parte ter citado o Incitatus. kkk

  2. Wagner
    20/05/2014 at 19:57

    Entregar-se ao mass media pode dar a sensação de sintonia com o tempo, para muitos. A solidão amedronta.

    • 21/05/2014 at 10:58

      Wagner, e o que faríamos sem a mídia? Ficaríamos sabendo só do nossos bagos?

    • Wagner
      21/05/2014 at 11:32

      Não é isso Paulo. A mídia permite muita coisa, inclusive o que fazemos aqui. O que me assusta é como os antigos conseguiam pensar mais e melhor com menos recursos. Porque a abundância empobrece o pensamento?

    • 21/05/2014 at 13:42

      Wagner, pensavam melhor? Não. O que havia é mais coragem. Só isso. Agora, há o silêncio sobre o colega por medo, covardia mesmo, pacto do silêncio.

    • Wagner
      21/05/2014 at 14:30

      Então estão querendo engessar a filosofia no Brasil? Torná-la um agente em desfavor de si mesma?

    • 21/05/2014 at 14:34

      Wagner, os meninos da mídia querem só falar, ouvir nunca.

  3. L.Silva
    20/05/2014 at 11:55

    “Alguns homens nascem póstumos. ” essa frase deve aterrorizar esses filósofos

    • 20/05/2014 at 13:13

      Silva, essa frase deveria não ser de mínimo interesse dos filósofos. Posteridade não é mérito. Atualidade não é mérito. A filosofia não precisa desse tipo de crivo.

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