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28/04/2017

O socialismo na América – hoje!


Em A condição humana de Hannah Arendt há um dos melhores ensinamentos sobre o tema do trânsito da liberdade. A “condição humana”, isto é, o que pode nos dar condições de nos chamarmos de humanos, foi na antiguidade a liberdade. Mas se tratava da liberdade do homem-cidadão de uma cidade-estado livre. A “condição humana” moderna nunca foi a liberdade, mas sim o trabalho. A liberdade se tornou, na modernidade, uma questão de dignidade – humanos todos somos, livres ou não. Além disso, na modernidade a liberdade passou a ser a liberdade individual, alheia aos destinos do aparato político e até mesmo contrária a ele. É nesse segundo sentido que a nação que mais representa a modernidade, os Estados Unidos, trouxe para si a defesa da liberdade.

Assim, “liberdade, igualdade e fraternidade”, ideais da Revolução Francesa e da modernidade, sempre foram tomados, nos Estados Unidos, não como elementos em conjunto, mas, não raro, em oposição. O igualitarismo podia significar uma intervenção do estado na vida dos cidadãos, como era o caso do programa da bandeira socialista e, mais ainda, da comunista, e os americanos nunca gostaram dessa ingerência. A ingerência governamental na vida cotidiana sempre lembrou a eles a condição de colonos que tiveram de se rebelar contra a então mais forte potência imperialista da Terra, a Inglaterra. Os cidadãos americanos sempre reclamaram dos impostos e sempre preferiram, quando em desastre contornáveis, apelar antes para o comunitarismo embutido em seu liberalismo que ao governo ou ao estado. Nesse contexto é que se fez o desenvolvimento de dois tipos de esquerda, a “velha” e a “nova esquerda”.

A velha esquerda era socialista em um sentido social-democrata, às vezes até alimentada levemente pelo trotskismo, ao menos durante certo tempo. O seu auge ocorreu nos anos vinte. A nova esquerda, já no contexto dos protestos contra a Guerra do Vietnã, se firmou como marxista e acadêmica, e como disse Richard Rorty certa vez, antes preocupada em tomar o Departamento de Letras da Universidade que qualquer sala da Casa Branca. Apesar de acadêmica, a nova esquerda nem sempre foi inteligente. Seu feminismo radical e seu marxismo um tanto pueril, a la Chomsky, muitas vezes se confundiram com o anti-americanismo grostesco. Do ponto de vista teórico, esse pessoal, não raro, agrupa Foucault a Marx como se as divergências do primeiro com o marxismo de Marcuse, por exemplo, bem dentro dos Estados Unidos, jamais tivessem existido. A nova esquerda ainda patina um pouco nessa incultura (e não raro alimenta gente no Brasil, na esquerda e na direita, que inventou de achar que Marx e Foucault falam a mesma coisa!)

Richard Rorty escreveu um livro que traduzi para o português chamado Para realizar a América (DPA, 2000). Nesse texto e também em outro de entrevista, Contra chefes, contra oligarquias (também publiquei este pela DPA), ele pedia uma “nova velha esquerda”. Ele queria que os americanos de esquerda deixassem as fileiras da mistureba descabelada Foucault-Marx para se reintegrar em uma plataforma no estilo daquela do lendário Eugene Debbs, então renovada. A ideia era a revitalização do liberalismo americano enquanto uma versão do socialismo democrático ou da social-democracia. Nesse sentido, Rorty foi um autêntico filho de seu pai, não o poeta, mas o militante trotskista que serviu de secretário de John Dewey quando este fez a defesa de Trotsky nos processos movidos contra o revolucionário, então na América.

Quando Rorty escreveu o Para realizar a América – livro que várias editoras se recusaram de

Barnie Sanders senador socialista, candidato a candidato à presidência dos Estados Unidos. Ao fundo, foto de Eugene Debbs, líder socialista ameicano do passado.

Barnie Sanders senador socialista, candidato independente à presidência dos Estados Unidos. Ao fundo, foto de Eugene Debbs, líder socialista ameicano do passado.jpg

publicar aqui no Brasil, inclusive e principalmente a editora da Unesp – a maior parte dos acadêmicos brasileiros da área de Humanidades não era só anti-americanista, era também ignorante da história da esquerda nos Estados Unidos. Os ataques da “nova esquerda” americana a Rorty reapareciam aqui na boca de vários, às vezes sem mencionar que eles vinham dos Estados Unidos. Mesmo o marxismo de Chomsky, por aqui, até então não era citado. Era necessário falar de Chomsky quase como se ele fosse um mexicano, um latino-americano de esquerda. Mas de dez anos para cá, muita coisa foi alterada. As coisas mudaram por lá. As coisas mudaram por aqui. Já existem professores por aqui, no Brasil, que começam a ficar com vergonha de terem chamado Rorty e eu de “neoliberais” (já fui chamado de “agente da Cia” por petistas ou figuras do PCdoB!). O anti-americanismo idiota ainda está em alta, mas ao menos não no sentido de rejeitarem Rorty nas editoras.

Os Estados Unidos enfrentaram uma crise do capitalismo. Mais uma. E dessa vez sem o medo da URSS ou do “comunismo”. Tiveram de equacionar melhor “liberdade” e “igualdade” e, então, viram que Obama só poderia salvar a nação por meio de uma intervenção estatal na vida das grandes empresas. Essa intervenção foi radical, profunda, algo jamais imaginado antes nos Estados Unidos, e jamais sonhada até mesmo em países de tradição social democrata. Dez anos depois disso, os Estados Unidos possuem agora, sem poder esconder mais, muitos pobres, mas a nação se recuperou. Voltou a ser a potência que tem o dinheiro mais forte do mundo e os papéis compráveis, os títulos do Tesouro, onde o mundo inteiro investe. “Para onde forem os trabalhadores do país da bandeira listrada, todo os trabalhadores do mundo irão juntos”, disse Marx uma vez, em carta de cumprimento a Lincoln, pela sua reeleição. Essa verdade hoje se concretizou, mas não em relação aos “trabalhadores”, mas em relação à burguesia do mundo todo e, então, quanto à economia de todas as nações. Uma quebradeira americana, como a que ocorreu antes de Obama entrar, transformaria a China em um caos inimaginável e extinguiria de vez a Europa.

O esforço de Obama fez vários americanos perderem o medo da palavra “socialismo”. Além disso, não há “lá fora” o que Reagan chamava de “O Império do Mal”, a URSS. E o socialismo da Suécia passa a ser mais conhecido da juventude americana, que melhorou em muito seu nível de leitura e conhecimentos gerais nos últimos vinte anos. É nisso que surge alguém que nunca desapareceu. Trata-se do jovem de 73 anos Bernie Sanders, um senador socialista de Vermont, que agora é candidato a candidato à presidência dos Estados Unidos. Ele está na disputa com Hilary Clinton, dentro do Partido Democrata.

Por incrível que pareça, o staff de Hilary Clinton está preocupado com ele. Ela já perdeu para Obama, por conta de seu tradicionalismo, e pode ser arranhada por Sanders, que agora conta com um eleitorado que não quer só a liberdade, mas também mais igualdade. Trata-se de um eleitorado que já não tem tanta ojeriza às intervenções estatais em favor de benefícios públicos, como até pouco tempo era o caso. Diante de Sanders, Hilary de novo pode parecer aos mais pobres, aos negros e latinos que agora são maioria no eleitorado e base principal do Partido Democrata, uma senhora com rosto não do Partido Democrata, mas de uma posição light do Partido Republicano. Talvez!

Seja lá como for a presença de Sanders é tão significativa quanto foi a de Obama, e revigora a nação que ainda é a que mais se revigora no mundo, os Estados Unidos.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

Sobre outras iniciativas de socialistas nos Estados Unidos atualmente veja aqui.

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8 Responses “O socialismo na América – hoje!”

  1. Léo Castro
    24/09/2015 at 18:37

    Li com muito interesse Para Realizar a América à época do lançamento, não me dei conta que a tradução era sua, parabéns! Voltando ao artigo acima, uma questão: nunca tive Chomsky na conta de marxista, mas como um “radical” independente sem filiação clara a tradições intelectuais da esquerda. Acho admiráveis algumas posições de Chomsky, mais pela coragem moral do que por afinidade intelectual. Sobre a new left, creio que produziu coisas muito interessantes, mas do outro lado do Atlântico, na antiga metrópole colonial do que veio a se tornar os EUA.

    • 24/09/2015 at 19:34

      Léo existe marxistas e não marxistas de esquerda na América, bons. Chomsky é o cara da mídia, mas ingênuo.

  2. roberto quintas
    30/06/2015 at 15:12

    ser esquerda e ser socialista nem sempre estão juntos. curiosamente a alcunha “esquerda” surgiu na burguesíssima França. curiosamente os grandes teoricos do socialismo/comunismo foram burgueses e intelectuais. curiosamente nenhum ousou profetizar como seria um Estado e uma Economia Socialista.

  3. João Pedro
    19/06/2015 at 15:59

    Professor, vc viu que picharam a calçada da casa do Jô Soares?

  4. Matheus Kortz
    17/06/2015 at 14:50

    “A nação que mais se revigora no mundo”! Matou meu anti-americanismo a pau! obrigado

    • ghiraldelli
      17/06/2015 at 19:25

      Matheus de fato as crises americanas são estrondosas, e várias vezes os Estados Unidos ressurgem das cinzas. Mas também a cultura americana é autocrítica ao extremo.

    • Everton
      17/06/2015 at 21:56

      Autocrítica! Já faz um tempo que este remédio está em falta nas prateleiras tupiniquins! Excelente texto, Paulo! Assim como a América, os seus textos, também, revigoram-se, incessantemente!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo