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23/10/2017

A jornalista simplória


Há algum tempo, quando essa segunda onda conservadora começou (a primeira da nossa história recente foi a que levou Collor à presidência), que é a que vivemos agora de modo agudo, uma jornalista da Veja me ligou para uma entrevista. Ela havia escutado em algum lugar que eu tinha criticado os professores de “cabeça estreita”, em geral marxistas, e então estava ávida de colocar na minha boca um parecer favorável à acusação de que as escolas do ensino médio, na disciplina de História, principalmente em São Paulo, só ensinavam a “história marxista”.

Tentei explicar para ela que as coisas não eram bem assim, que na prática o problema não era de “pluraridade versus não-pluraridade” na aula de história, mas que as coisas vinham se deteriorando por causa dos salários baixos, o que gerava a formação ruim do professor, e que os professores dogmáticos surgiam por conta disso etc. Ela não ouviu. Ela queria fazer uma frase para que eu assinasse endossasse: “só há marxismo dominando a escola” de ensino médio. Recusei-me endossar uma bobagem desse tipo, embora depois eu tenha visto isso na boca de gente que se acha culta! Mas ela voltou à carga. Então, vendo que ela não iria desistir, tentei encetar um diálogo mais sério.

Fui pelo lado teórico. Perguntei a ela no que ela estava baseada para dizer o que dizia, se ela havia visto a bibliografia dos colégios em São Paulo, dada pelos professores de história. Ela disse que sim e, então, me presenteou com Caio Prado Jr., Hobsbawm etc. – todos de fato marxistas. Eu já sabia disso, então, tentei explicar a ela que aqueles autores eram também os pedidos no vestibular (estranho, ela não havia feito vestibular?), e que o marxismo deles não os atrapalhou no sentido de se tornarem clássicos, ou seja, leitura universal, mas, ao contrário, até tinha ajudado. Ou seja, tentei explicar para ela como que ocorre a história do currículo escolar em uma determinada cultura, e como que ele recebe a bibliografia das disciplinas, como se dá os processos de formação dos clássicos considerados necessários e básicos, como se dão os crivos de várias ordens para que uma sociedade consagre determinada literatura escolar etc. Mas ela não entendeu.

Não podia entender! Ela mesma não havia tido, na escola de jornalismo, uma formação cultural para entender como que surge um clássico. Ela estava presa ao registro do jornalismo mais banal e rasteiro, o de que a verdade tem dois lados. Para ela, o ensino da história deveria ser como notícia: ouve-se um lado e outro e pronto, eis a verdade, todo o resto é opinião, e aí, vence a opinião mais sensata (no caso dela, a que ela ouvia na redação da Veja, dada pelo chefe que a mandou fazer a entrevista). Tentei de toda maneira mostrar para ela os processos de uma música que extrapola sua geografia e história, e ao mesmo tempo, por preservá-las, se torna universal. Mas quando eu voltava ao livro de história, para explicar novamente o clássico, ela repetia o que já havia falado. Não aprendia. Nenhuma analogia adiantava. Livre-me dela, nem lembro como. Mas que sofrimento lidar com uma jornalista deficiente culturalmente, ignorante e incapaz de pensar de modo um pouco mais complexo. Meu Deus!

Hoje em dia uma moça assim já não é mais um aprendiz solta por aí. Não sei o que ela virou, mas sei o destino de seu tipo. Gente como ela comanda muitos órgãos de imprensa, mas, pior, agora profissionais assim também comandam editoras, universidades e até posam de professores ensaístas por aí, na defesa de um pensamento politizado em excesso, e que não consegue registrar outra coisa que não o que vem já crivado pelo “direita” e “esquerda”. As mediações complexas da história não são apreensíveis por tais pessoas. Noto muito isso em colunistas de bons jornais. Muitos me parecem paradigmáticos desse tipo que não consegue registrar complexidades, elas são diluídas no crivo político estreito que elegem para julgar tudo que lhes cai nas mãos. Começam com certa sofisticação, mas logo, no meio do texto, cedem rapidamente ao que o público mediocrizado quer. Na verdade, já se tornaram maniqueístas como o seu próprio público.

Esse império da jornalista da Veja hoje é de fato um império. Vem dominando os jovens. Vem ensinando aos jovens a não conseguirem fazer distinções que invoquem o complexo, só as que se tornam as binárias formas de plebiscito. Querem a filosofia do “sim” ou “não”, e, portanto, não querem qualquer filosofia.

Paulo Ghiraldelli, 57.

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7 Responses “A jornalista simplória”

  1. Renan
    22/05/2015 at 21:53

    Poderia ter explicado também que o marxismo é uma orientação metodológica, presente também em outros campos das ciências sociais. Mas concordo com o Cláudio. Acho que no caso não foi simploriedade, e sim, má – fé. Agora, quem dera, os alunos estivessem lendo Hobsbawn, Caio Prado ou outros autores durante o ensino – médio. Em geral, as aulas seguem mais o plano e o conteúdo do “livro didático”, ou da apostila. Será que não seria possível enriquecer mais os conteúdos dados(lógico, sem levar em consideração para a resposta disso os problemas graves de ordem material de muitas escolas, e deficiências graves dos alunos)?

    • ghiraldelli
      23/05/2015 at 10:27

      Ha ha ha vou explicar o marxismo “metodológico”! PUtz!

    • Renan
      23/05/2015 at 20:23

      De fato, o correto era eu ter dito “materialismo histórico”, ao invés de marxismo. Porém, foi essa minha intenção.

    • ghiraldelli
      24/05/2015 at 15:05

      Meu Deus! Qual a utilidade de dizer isso. Aí pioraria, eu lá levo a sério alguém que venha dizer isso: “materialismo dialético” como método. Aí sim eu me desautorizaria de vez. Que bobagem.

  2. Odontologia 2014.1 Noite
    22/05/2015 at 18:29

    E ai, Ghiraldelli, não vai pedir proibição do uso de faca pra combater a violencia nao?

    • ghiraldelli
      23/05/2015 at 10:28

      Odontonto! Olha, para combater a violência devemos proibir o uso do cérebro de quem tem cérebro estragado. Desse modo, proíbo que tente usar o seu aqui.

  3. claudio dionisi
    22/05/2015 at 17:45

    Quando vi a figura e o título já sabia do que se tratava. Quando um(a) jornalista é capcioso(a), malandro(a), seleciona só o que que lhe convém para tentar reconstruir a opinião do entrevistado à sua própria imagem e semelhança. E aí comete no jornalismo o mesmo erro que aponta na educação. afff….

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