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25/06/2017

O sexo e o filósofo


Peter Sloterdijk escreveu um catatau de mais de seiscentas páginas sobre a intimidade. Ainda está em alemão e, talvez por isso, o leitor brasileiro comum nada saiba desse livro, o Sphären I – Blasen. Caso estivesse em português, já estaríamos ouvindo por aí alguém reclamar, afinal de contas com tantas páginas assim sobre intimidade o livro não fala de sexo. Não há um capítulo sobre relações sexuais. Que pena não?

Não! Pena nada! Felizmente não há um capítulo sobre sexo. Talvez pela primeira vez o tema do sexo seja abordado corretamente na filosofia. No final do livro, Sloterdijk explica que não poderia abordar tal tema ao falar de intimidade porque o sexo, ao menos o sexo humano, não funda relações íntimas, ele deve sua existência à criação da intimidade que, enfim, se faz por outras vias. Nesse sentido, ele diz que

“nada mostra mais claramente que os humanos são condenados ao surrealismo íntimo do que o fato de que, na maior parte do tempo, até mesmo sua interações genitais tem de ser arranjadas sobre o palco de um mundo interior” (Blasen. Frankurt  Am Main: Suhrkamp Verlag, 1998, p. 551) (grifos meus).

As partes grifadas, “surrealismo íntimo” e “mundo interior” são os pontos chaves para se entender Sloterdijk nesse seu projeto de “arqueologia da intimidade”. Resumindo ao máximo: O sexo humano se dá em um mundo interior que é um espaço íntimo surreal;  fora disso pode haver sexo animal ou simplesmente trombada de órgãos genitais, nada além do que haveria numa luta em um ringue qualquer.

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, até por causa da literatura romântica que predomina na nossa modernidade, em que o amor e o sexo se interligam de mil e uma maneiras, a esfera da intimidade não é gerada e nem mesmo sustentada pela intimidade do amor sexual. A esfera íntima que pode fazer o sexo virar sexo humano, onde a fantasia é primordial, não é uma esfera do espaço geométrico, mas uma esfera do espaço surreal. A ideia básica desse espaço é a de que o que contém também está contido, e que o que povoa tal espaço não são objetos, mas ressonâncias entre lugares surreais do espaço, e que funcionam como não-objetos (conceito de Thomas Macho). Entre várias narrativas, a da teologia tem lá sua contribuição a dar para entendermos essa esfera surreal. Trata-se da pericoresis.

A pericoresis é o nome para a situação, certamente espacial, na qual a Santíssima Trindade ocorre. Os que ensinam religião às crianças sabem bem criar uma situação espacial que, ao menos metaforicamente, faz a Trindade ser entendida. Como que há o três em um? Como que três entidades realmente existentes podem ocupar o mesmo espaço? O professor de religião pega três velas e então produz aí o agrupamento da chama. Há uma somatória da chama, ainda que se possa, pelo cabo da vela, continuar a ver a independência de três elementos, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.  A pericoresis é então nada além de um exemplo do surrealismo que podemos pensar em um ambiente dito “interior”, em que a convivência pode fundir elementos sem que suas identidades próprias se percam. Não há dúvida que se fala aí de um espaço virtual, no sentido que cada virtude se cumpra, de modo a realizar o potencial máximo do espaço, que é justamente efetivar a Trindade. Eis aí um espaço surreal íntimo.

O homem é, para Sloterdijk, um designer de interiores. Um construtor de espaços físicos e/ou geométricos chamados “dentro”, e também de espaços chamados “dentro” que são surreais, e estes se põem a serviço do que podemos denominar de intimidade. Quando notamos essa capacidade humana, então começamos a perceber que é isso que dá ao sexo de modo que ele seja sexo na condição de sexo humano. Só então o amor é atraído ao sexo, para satisfazer os românticos, e não o inverso.

É difícil para o homem moderno, o burguês moderno e romântico (como nós, que ou somos isso ou somos herdeiros disso), fruto do século XIX e XX, perceber que a intimidade não é o produto do sexo ou do sexo amoroso, mas que este existe porque o homem é um designer de interiores. Todo o convívio burguês, todo o seu cuidado de separar a loja e os negócios do lar, a vida privada da vida pública, então comercial e não mais só política, obriga a todos nós imaginar que essa vida funda todas as nossas práticas. Esquecemo-nos da antropologia e damos prioridade à sociologia para nos entendermos. Nisso erramos. Nisso acabamos por não compreender que a intimidade não tem a ver com a família burguesa, mas é algo mais básico de nossas práticas. Só quando levarmos a sério o que Martin Buber disse ao falar do homem como um ser com o “instinto de relações” poderemos ler Sloterdijk como ele merece ser lido, especialmente em Blasen.

Sloterdijk não desseuxualiza a abordagem em filosofia social, ele apenas requalifica nossa noção de esfera íntima.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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