Go to ...

on YouTubeRSS Feed

17/08/2018

O racismo ainda existe, mas ele não é o de Monteiro Lobato.


[Artigo para o público em geral]

Um dos trechos de Monteiro Lobato:

“(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…” “A barca de Gleyre”. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).  (grifo meu)

Lobato não tinha ódio de negros. Não era “racista” nesse sentido. Nem mesmo sua carta falando da KKK como uma organização útil para a América tem a ver com ódio a pessoas. Tem a ver com o ideário da eugenia, que contaminou muitos na época dele. A eugenia não é, em si mesmo, uma forma de ódio. É uma teoria associada a uma ideologia. Ela acredita exatamente naquilo que hoje nós também acreditamos, mas ao contrário. Acreditamos hoje que a depuração de raças nos faz fracos e burros. Acreditamos piamente que nosso cachorro vira-lata é mais forte e mais capaz que os cachorros “de raça”. Selecionamos raças de animais para conseguir feitos específicos. Mas jamais para tirar um super cachorro. O super cachorro vem pela não-depuração.

A eugenia continua sendo utilizada hoje em dia abertamente, nas clínicas e laboratórios do mundo todo. Não há Habermas que faça isso parar. Nenhum de nós, que recrimina Lobato por ter escrito o trecho citado, desaprova a pesquisa em engenharia genética no meio humano. Estamos todos os dias tentando nos livrar de doenças, defeitos, falhas e incapacidades. O que muda, então, da eugenia de ontem para a de hoje?

Duas coisas são diferentes hoje.

Primeiro, é que a eugenia, que nem tem esse nome hoje, não é mais associada à ideia de segregação racial humana, como se um tipo de humano não pudesse se casar com outro por conta da propagação de uma deterioração biológica (ainda que tenhamos mantido como lei o problema de casamentos entre parentes). O mundo se globalizou de uma tal maneira que até mesmo as noções de beleza multicultural foram absorvidas. O Ocidente é capaz de ver beleza nos orientais e vice-versa. Aliás, Alexandre o Grande, quando promoveu a primeira grande globalização (e sem Internet), conseguiu fazer seus soldados se casarem com mulheres dos povos conquistados, exatamente para fortalecer a civilização e diminuir as resistências locais. Estamos hoje bem mais afeitos a uma tal ideia. Um Trump criando muros é parte de neofascismo que qualquer Seleção da França, com alguns gols, derruba. É um tonto passageiro.

Segundo, é que a eugenia – volto a dizer, nem tem mais esse nome – é hoje um projeto que passa pela intervenção mais radical da engenharia genética. A palavra “radical”, aqui, diz respeito ao fato de que não temos a ideia de segregação racial, mas a ideia de operação no âmbito micro, no âmbito da “proveta”, no campo de intervenção cirúrgica nos mecanismos de feitura de fetos e coisas semelhantes, e isso é realizado de modo muito distante das loucuras dos médicos nazistas. Ninguém no mundo está criando gêmeos para fazer experiências em um e usando o outro de contraprova. Ao menos não com humanos!

A ideia que restou da eugenia foi para um lado, a ideia do racismo foi para outro lado. O racismo existe, claro. Mas ele próprio não acredita em qualquer instrumento de eugenia. Não há planos governamentais proibindo imigrantes de entrarem em determinados lugares para que não ocorra a “vingança” do negro contra o português, por meio da “liquefação” lobatiana. A questão do racismo, hoje, está entremeada a problemas de religião, guerras e empregos, e a mais asquerosa questão biológica perdeu fôlego. Costumes religiosos diferentes levam a estilos de vida que podem não ser coadunáveis em determinados locais pequenos – e a Europa é pequena. Guerras de um lado forçam estouro de imigrantes de outro – isso afeta o “estado de bem estar social” dos países ricos europeus. Migrações também afetam a questão do emprego. Em alguns lugares, a migração é necessária para suprir a falta de mão de obra que pegue no pesado. Em alguns outros lugares a migração é vista com ruim porque pode criar a falta de oportunidades para todos, a garantia de certa estabilidade europeia. O racismo está mais envolvido com elementos que não estão dirigidos por questões de raça, no sentido biológico do termo.

É por isso que certos movimentos anti-racistas se mostram arcaicos. Há gente que insiste em dizer que o preconceito racial no Brasil, por exemplo, tem a ver com a cor da pele. Diz-se, então: no fundo, somos todos iguais. Ora, não somos todos iguais. E as diferenças não são diferenças de pele e cabelo. As diferenças são sim anatômicas, fisiológicas e culturais. O que quebra isso? A super avalanche de mais diferenças.

O super individualismo moderno atual, que está ligado à sociedade de consumo que não é mais classista e sim individualista e intimista, nesse sentido ajuda a diminuição do preconceito racial. Em um mercado onde tudo é para cada um, e que ser diferente é uma forma de se achar singular, há espaço para empresas que precisam então criar milhões de produtos que satisfaçam essas individualidades que se acham no direito de serem idiossincráticas. No limite, hoje, todo mundo quer ser esquisito, do modo que antes só os habitantes de Beverly Hills podiam ser. Se alguém tem olhos orientais, cabelo afro mas, enfim, é loiro, então está tudo bem. E haverá um tatuador específico para tal pessoal e também um fabricante de cosmético para tal pessoa. O consumo super individualizado está de certo modo em sintonia com a época da Seleção Francesa.

Essa ideia de individualidade, que agora explode em associação com a nova sociedade de consumo, não é propriamente contemporânea em seu todo. Suas raízes ainda são modernas. É na abertura da modernidade que mudamos a ideia de eu, o advento do sujeito ou sujeito moderno. O eu moderno é aquele que se põe na construção de si mesmo. Ele nasceu no Renascimento e foi coroado com Kant (a autonomia, onde eu me dou a lei – racional – que é fruto do meu eu) e, depois, com os românticos. Sartre lhe deu a melhor expressão ao dizer que o importante era ver o que fazer conosco mesmo, a partir do que já haviam feito conosco. Essa ideia de auto-intensificação, auto-criação, de auto-designer, que hoje louvamos, está na base da modernidade. Que isso tenha atingido o corpo, talvez até mais que as ideias, é o que é contemporâneo. Podemos hoje ser todos iguais em relação a normas civilizatórias, em gosto pela democracia liberal, pelas ideias de tolerância – mas isso se nossa diferença corporal, de maquiagem e de vestimenta estiver garantida. A liberdade de expressão é nosso campo sagrado. Principalmente se a liberdade de expressão tiver a ver com a minha possibilidade de escutar como música aquilo que uma geração anterior considera como lixo.

Nesse tipo de sociedade, o racismo perde completamente sua pose. A ideia de liquifação, que Lobato usou para falar de quanto dura foi a vingança dos negros em relação aos portugueses, e de quanto isso nos teria feito incapazes de entrarmos para o concerto dos povos, não seria entendida pelo próprio Lobato, caso ele, como escritor, vivesse hoje. Ele iria olhar para as mulatas com olhos de Sargentelli. Ele iria até estranhar  – e lamentar – o quanto a nossa seleção de futebol está mais distante da África que a da França.  Ia sim!

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Tags: , , , , ,

14 Responses “O racismo ainda existe, mas ele não é o de Monteiro Lobato.”

  1. wandyr sachisida
    11/08/2018 at 08:42

    entendi. então, existeum senso comum vulgar, aquele que, segundo odeia a filosofia, e um senso comum que é acolhido pela própria filosofia, não é mesmo?o autor do texto no site mundo educação está, é claro, referindo-se ao segundo caso.

  2. wndyr sachisida
    10/08/2018 at 14:03

    entendi perfeitamente, professor, o que o senhor acaba de escrever. especialmente a respeito do senso comum. mas, por favor, explique-me, então, o que cláudio Fernandes, no site mundo educação, escreveu um texto intitulado “senso comum, a importância do senso comum”. dê uma lida.a abordagem dele sobre o senso comum não entra em contradição com que o senhor pensa a respeito desse mesmo senso comum?

    • 11/08/2018 at 08:26

      Senso comum é um conceito filosófico. Ao menos no meu caso. Não é o “mero senso comum”.

  3. LMC
    24/07/2018 at 17:32

    Ditadura é tudo igual pra quem
    quer uma ideologia pra viver
    como naquela música.E o
    Erasmo Dias que era de direita,
    gostava da URSS que era de
    esquerda!Putz!

  4. LMC
    24/07/2018 at 13:15

    Claro que ditadura não é tudo igual.
    Pelo menos pros jumentos que
    ficam discutindo qual regime
    matou mais-o nazismo ou o comunismo?

  5. LMC
    24/07/2018 at 11:41

    Ditadura é tudo igual,sim.Caso alguém
    resolva enfrentá-lo,vai pro pau-de-arara,
    vai ser fuzilado,preso ou exilado.A
    não ser que esta pessoa puxe o saco
    do regime em troca de $$$$$.

    • 24/07/2018 at 12:05

      LMC ditadura é tudo igual e tudo é igual a tudo para o burro. O burro sempre acha que tudo é igual a tudo. Tudo é grama. Ah, tenha dó cara, acorda.

  6. wndyr sachisida
    23/07/2018 at 21:41

    professor, e o regime do apartheid, na áfrica do sul?não há uma relação entre o regime segregacionista daquele país e famigerada eugenia e seu congênere, o darwinismo social?

    • 23/07/2018 at 22:49

      As coisas se casam, mas se elas se casam na vida prática, isso não quer dizer que temos que abandonar nossas clarezas e distinções conceituais. Senão virá aquela merda, como a que imbecis dizem. por exemplo, extrema direita e extrema esquerda são iguais, ditadura é tudo igual etc. Você citou conceitos diferentes: eugenia, segregacionismo, darwinismo social.Querer achar que pode colocar tudo no mesmo saco é o que faz o senso comum. O senso comum odeia a filosofia. Pois pensar dói a cabecinha.

  7. wandyr sachisida
    20/07/2018 at 10:18

    claro, professor. o senhor morou lá e, além disso, estudou e conhece a sociedade americana muito melhor que eu. por outro lado, se a eugenia na europa, “não tinha ódio aos negro” e aos porbres, é justamente aí que se ml esconde todo o pérfido caráter dessa doutrina. pérfida e reacionária.

    • 20/07/2018 at 10:32

      Não disse isso, ao contrário, é na Europa que a coisa da eugenia se casou com o hitlerismo e virou um racismo genocida. Nos Estados Unidos ela tinha um caráter racista, mas segregacionista, não genocida.

  8. sandyr sachisida
    19/07/2018 at 15:29

    muito interessante o seu artigo, professor. mas, por favor, não deixe de ler a obra de Edwin blacke, da editora girafa, “a guerra contra os fracos: a eugenia e a campanha norte-americana para criar uma raça superior”.

    • 19/07/2018 at 15:42

      Eu conheço isso mais do que você pode imaginar. Eu trabalhei nos Estados Unidos. Conheço bem as raízes do empresários americanos. Mas lei meu artigo último e verá como lá as coisas sairiam de maneira muito diferente do pensado com Hitler, como já estão saindo. Leia a Mary Rorty na revista REdescrições.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *