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18/11/2017

O que o neopragmatismo de Richard Rorty não é


Em um livro de título William James, a construção da experiência, publicado no Brasil pela Editora n-1 (2017), o autor David Lapoujade faz questão de dizer que o pragmatismo não é aquilo que Richard Rorty defende. A frase que ele usa é exatamente esta: “nada mais distante dele [James] que as recentes teses ditas ‘neopragmatistas’ de um Rorty, que propõe estabelecer um critério especificamente americano para a Conversação Universal e promover os Estados Unidos como fonte originária fundamental de valores”.

Após esse desfile de desinformação e preconceito, o autor ousa dizer que há preconceito contra William James, e que de fato existe uma postura americana imperialista, mas que o grande filósofo americano soube rechaçá-la! Desse modo, Lapoujade não peca só contra Rorty, mas até mesmo contra o filósofo que é seu objeto, o próprio James. A coisas jamais foram tão simples para James. E Rorty nunca disse qualquer coisa que se pareça com essa sua avaliação.

Deixo James de lado, pois meu objetivo não é comentar o livro citado. Meu objetivo é me aproveitar dessa visão completamente distorcida que Lapoujade tem de Rorty, para lembrar alguns elementos básicos do neopragmatismo de Rorty. Escrevi junto com Rorty e fui estudioso de Davidson, e nisso passei boa parte dos anos noventa. Escrevi sobre o pragmatismo e vale a pena retomar, se há novamente quem ainda fala de Rorty sem conhecimento do assunto.

Primeiro: a Conversação Universal a que se refere Rorty é realmente universal. Ela não tem pátria e muito menos modo de funcionar que seja outra coisa que em geral todos fazemos no mundo moderno, sob o crivo das sociedades liberais que defendem a liberdade de expressão. Quando Rorty cita os países que vivem sob esse regime – as democracias que permitem a filosofia – ele jamais centraliza a fonte de referência nos Estados Unidos, mas no que chama de “democracias ricas do Atlântico Norte”. O patriotismo de Rorty serve para muita coisa em esperança política, mas não aparece nenhum um pouco para nomear algo que se pode chamar de filosofia. Participar de uma conversação universal que possa ter a ver com filosofia é conversar como temos conversado, na produção das “notas de rodapé da obra de Platão”, que é a maneira como Whitehead nomeou a própria história da filosofia. Em quase todos os seus livros, Rorty mostra ter muito apreço por essa expressão.

Segundo: em seus livros, Rorty não tem qualquer preocupação em fundamentar (em sentido forte) qualquer coisa, ele é um anti-fundacionista. Fundacionismo para ele é o platonismo e derivados. A metafísica do Bem é o fundamento necessário ligado à tese de como conceber a Justiça e, portanto, a cidade Justa. Isso é Platão. Rorty acha que toda e qualquer boa teoria filosófica tem de no máximo servir a propósitos de justificação a partir de uma relação ad hoc com a prática a que deseja se ligar. Isso é o não fundacionismo, ou seja, o anti-Platão. O pragmatismo de Rorty, como o de James e Dewey, é não fundacionista – ainda que Dewey, mas não James, tenha caído em contradição às vezes e falado como quem estaria fundamentando alguma coisa. Além do mais, se Rorty fala de valores, não o faz em relação aos Estados Unidos, e sim à America. E aqui todo cuidado é pouco: América não o continente, a terra, mas a ideia “América”, ou seja, aquela ideia de liberdade que estava na cabeça dos Pais Fundadores, dos que deixaram o Velho Mundo para “fazer a América”. É uma maneira de Rorty falar de uma utopia sem com isso criar monstros, pois trata-se de uma utopia vaga, delineada por algo palpável porém plural. Os colonizadores queriam uma nova terra, uma terra livre, é isso e só isso a “América”. Para Rorty, como para Dewey, essa ideia, a América, podia se contrapor ao “complexo industrial militar” às vezes chamado de Estados Unidos.

Rorty nunca se opôs a James ou se distanciou dele, apenas não o repetiu. Não podia repeti-lo, pois novos desafios apareceram para o pragmatismo. Rorty teve trabalhar sobre a noção de verdade do pragmatismo de modo a melhorá-la e, assim, enfrentar os objetores do pragmatismo, e até mesmo o “fogo amigo” de Habermas. Fez isso adotando a “virada linguística” e colocando sob análise não a Verdade, o que seria adotar uma postura metafísica, mas voltando-se para o uso (a utilidade) da palavra verdadeiro. Foi assim que encontrou a verdade como uma noção primitiva, endossada por Donald Davidson, e viu três usos do termo verdadeiro. Elencando esses três usos, como expliquei no meu livrinho de 1999, Richard Rorty – a filosofia do Novo Mundo em busca de mundos novos (Editora Vozes), Rorty conseguiu então descrever a verdade sem ligá-la ao Bem ou a Deus e coisas do tipo, mantendo-se fiel ao princípio pragmatista do uso (linguístico), e ao completo deflacionismo metafísico da filosofia contemporânea.

É desagradável ter de lembrar isso após eu ter sido um dos pioneiros do neopragmatismo no Brasil, e ter batido tanto nessa tecla, e ver que novamente se publicam por aqui, ainda que por conta de autores estrangeiros, pessoas falando de Rorty sem o terem lido com cuidado. Será que já não basta os nossos midiagogos palestrantes, que citam livros que não leram e autores que não estudaram?

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 11/09/2017

Leituras sugeridas, dois livros meus que podem ajudar: Richard Rorty. Petrópolis, Vozes, 1999; Introdução à filosofia de Donald Davidson. Rio de Janeiro: Luminária, 2005. Também: O que é pragmatismo. São Paulo: Brasiliense, 2006.

 

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2 Responses “O que o neopragmatismo de Richard Rorty não é”

  1. Daniel
    11/09/2017 at 08:30

    Você errou o nome do sujeito. O correto é: “David Lapoujade”, especialista em Deleuze, mestre de conferências da Paris I.

    • 11/09/2017 at 10:19

      Sim David, eu corrigi, mas voltou o erro! Agora vai. (Você desvendou o mistério: “mestre de conferências”).

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