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25/06/2017

O que fazer com Fernandinha Torres?


Fernanda Torres fez um belo texto – de escritora, claro, não de socióloga – falando o que toda feminista deveria saber falar. Enalteceu a mulher que pode ser mulher, que pode ser sensual, que pode ser negra sensual. Ou seja, fez um texto libertário no sentido de oferecer o “pode” para a mulher. A mulher deve poder! E mais, no que acentuou de diferenças entre o mundo masculino e o feminino, criou um campo de simpatia para que possamos admirar a mulher por diferentes ângulos. Isso foi o que fez num primeiro artigo. Mas … acabou escrevendo outro!

O feminismo e o movimento negro atuais, que possuem grupos internos magoados consigo mesmos e incapazes de entender o funcionamento da língua, caíram de pau no texto da Fernanda. Como a Fernanda não havia repetido os jargões do feminismo moralista atual e do ressentimento que ocupa ainda alguns espaços do movimento negro, então, foi vista como inimiga. Jargão é a porta aberta para ser amigo. Tem de repeti-los. E no caso desses grupos, há algo estranho, eles não conseguem entender que a língua é dinâmica, histórica e funciona no vivido, principalmente em termos de agressão. Ou seja, até mesmo um “filho da puta” depende da situação histórica, geográfica, semântica e pragmática para ser uma ofensa. Não há a ofensa abstrata. O conceito de ofensa não é a ofensa.

Minha irmã NEGRA Berenice, adorava ser chamada de “mulata” e de “negra”. Claro que ela adorava se isso viesse de quem ela achava que a estava elogiando. Essa particularidade de cada evento é que muitos parecem não entender por não saber o que é o abstrato universal e o que é o concreto particular. Não posso definir a palavra “negra” ou “mulata” como um xingamento! Não posso definir a expressão “mulata sensual” como um xingamento. Nem mesmo “negra gostosa” ou “mulata gostosa”. Aliás, em termos de definição, nem mesmo a expressão “é negra, e linda”, é algo que se possa qualificar como preconceituoso – pois ainda nesse caso, posso estar usando essa expressão em um contexto de um diálogo em que os personagens assim se expressam, somente isso. Um diálogo onde o “é negra, e linda”, esteja funcionando sem qualquer semelhança com “apesar de negra, é linda”.

Do mesmo modo, “ser mulher” – outro ponto levantado contra Fernandinha – não é algo que é melhor definir como cultural que como biológico. A expressão “biológico” pode estar sendo usada em uma situação pós-moderna, de pós-conceito e não de pré-conceito, para enfatizar diferenças que vem do corpo, do que é imemorial. Pode-se usar tal expressão, “diferenças biológicas” em um contexto do pensamento libertário e feminista, em que o que se quer enfatizar é que, por exemplo, “mulher”, “criança”, “gay”, “cachorro”, “robô” possuem diferenças em relação ao “Homem” (com H) que são tão arraigadas em nossa mentalidade que se tratam, sim, de diferenças que irão sempre atrasar em muito tais grupos no caminho de busca de uma boa escala de direitos. 

Está difícil para a militância feminista atual e para certos setores do movimento negro perceberem que o feminismo do passado, liberal, foi melhor porque foi mais inteligente, e que o mesmo ocorreu com o movimento negro de Luther King. Está difícil para certas minorias perceberem que estão derrapando para um formato de luta que se aproxima daquelas de grupos reacionários, às vezes com pitadas de fascismo.

Fernandinha se desculpou em um segundo artigo não por que pensou, mas pelo fato de não ter pensado! Funcionou como artista. Artista é um animal carente. Odeia desencantar seu público e, então, faz de tudo para ficar bem com o que acha que é a opinião pública. O medo e a carência dominam muitos, também, que não são artistas. O filósofo não pode ser carente a ponto de ser medroso.

Mas Fernandinha poderia fincar pé pelo outro lado do artista, que ela até mencionou, mas não utilizou: o artista escreve como artista, por relatos de experiências particularidades, não por definições, ele não é sociólogo e não deve assim agir. Que os grupos que reclamaram não sabem distinguir gêneros narrativos, isso ficou claro. Falta na escola acentuar e ensinar essas distinções.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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12 Responses “O que fazer com Fernandinha Torres?”

  1. Renato
    28/02/2016 at 13:13

    Em matéria de feminismo e movimento negro, você como homem e branco não tem conhecimento ( apreensão de conceitos &experiência) nenhuma pra falar nada.

    • 28/02/2016 at 15:02

      Exato Renato, é isso! Mas quando eu escrevo eu ponho peruca, absorvente e me pinto de preto.

    • 02/03/2016 at 22:56

      Hahahaha
      essa foi boa e altura do comentário

  2. 28/02/2016 at 08:41

    perfeito!!!!

    “Fernandinha se desculpou em um segundo artigo não por que pensou, mas pelo fato de não ter pensado! Funcionou como artista. Artista é um animal carente. Odeia desencantar seu público e, então, faz de tudo para ficar bem com o que acha que é a opinião pública. O medo e a carência dominam muitos, também, que não são artistas. O filósofo não pode ser carente a ponto de ser medroso.

    Mas Fernandinha poderia fincar pé pelo outro lado do artista, que ela até mencionou, mas não utilizou: o artista escreve como artista, por relatos de experiências particularidades, não por definições, ele não é sociólogo e não deve assim agir. Que os grupos que reclamaram não sabem distinguir gêneros narrativos, isso ficou claro. Falta na escola acentuar e ensinar essas distinções.”

    muito obrigada!!

  3. joel
    26/02/2016 at 21:44

    Paulo, é possível FILOSOFAR sem “sujeito”?

    No brasil existem filósofos que fazem isso?

    Att.

    • 26/02/2016 at 22:28

      Toda a filosofia é sem sujeito, no sentido da subjetividade moderna. A figura do sujeito é exclusivamente moderna.

    • joel
      26/02/2016 at 23:14

      E sem sujeito do conhecimento, nos cânones da filosofia tradicional?

      Seria um FILOSOFAR construtivista um “construtivismo sem sujeito”?

      É possível?

      Att.

    • 27/02/2016 at 09:57

      Um construtivismo pode ser sem sujeito, claro, como Luhamnn, mas filosofia não se advinha, é preciso entrar nela. Venha para o CEFA.

    • Stay Puft
      27/02/2016 at 14:19

      vcs sao chatos pra caralho hein…

    • 27/02/2016 at 14:20

      Como você não tem nome, tem medo de se expor, então, nem chato você é, é um nada.

    • 27/02/2016 at 09:57

      Joel que tal ler Platão ou os pré-socráticos. Onde está o sujeito ali?

    • joel
      27/02/2016 at 18:43

      Sim!

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