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16/08/2018

O que é a subjetividade moderna? Sloterdijk e Agamben


[Artigo indicado para o público acadêmico]

Segue aqui dois aspectos da noção de subjetividade moderna. Em ambos os casos, o relato é exclusivamente não científico, e sim filosófico. Na filosofia as hipóteses nunca deixam de ter algo de mitológico e fantástico.

Criada em uma dupla estrutura – feto-placenta – a intimidade é campo próprio para a subjetividade humana, na sua acepção moderna. O bebê espera que a parceria intrauterina se mantenha no campo extra-uterino. Chora. E então, a voz da mãe, bem familiar, reaparece para prometer. “Tudo vai ficar bem”. É uma promessa mentirosa. Ninguém pode prometer isso. Mas uma tal promessa evita o niilismo, incrusta valores para a criança, lhe dá condições de retribuir. O mecanismo de promessa exige retribuição. A criança responde também prometendo ajudar nisso, resumido na fórmula “tudo vai ficar bem”. Agarra a falsa promessa. Quando percebe que poderia se tratar de uma mentira, já é tarde. Assume a função da promessa, transforma-a em auto-promessa. Esforça-se para manter-se esforçando e não decepcionar a mãe e a si mesmo. Eis que se tem aí a base da subjetividade: a capacidade de encontrar justificativas em si mesmo para uma desinibição, ou melhor, autodesinibição que resultará na passagem da teoria para a prática, do discurso sobre o necessário para o fazer o necessário. Mas o necessário, em humanos, é sempre um plus, um mimo. Na estrutura do mimo nasce a autodesinibição, tendo origem na promessa.

É assim que temos uma “filosofia do nascimento” em Peter Sloterdijk, e ao mesmo tempo o modo como ele trabalha a respeito da formação da subjetividade. A subjetividade moderna, para ele, faz parte das antropotécnicas que geram, ontogeneticamente e filogeneticamente, o homem. Criar o homem e criar um ser que pode ser descrito por meio do conceito de sujeito moderno é quase a mesma coisa nessa teoria.

Se mudamos de paisagem, saindo do da Alemanha para a Itália, as coisas todas se alteram. A ideia de autoposição perde para uma segunda característica do sujeito moderno: a identidade. O mundo sinestésico perde para o mundo da linguagem. Giorgio Agamben aponta para outros elementos na conceituação do sujeito.

Nesse caso, a subjetividade se apresenta como alguma coisa que deixa para trás a infância, tomada aqui como um campo histórico-transcendental. É o momento em que teríamos a vinda daquele que fala, e não mais o in-fante, o que não fala. O sujeito aqui é um eu. Este eu se faz enquanto um processo de subjetivação e desssubjetivação. A dessubjetivação ocorre no momento em que o humano se desfaz de sua vida de experiência para adentrar no campo estruturado e formal da linguagem. Sai da voz espontânea para falar a voz de algo pronto, a linguagem. Mas esse é o momento, também, de subjetivação, pois com a fala agora empunhando não só a voz, mas a voz com linguagem – a fala humana – é possível dizer “eu”. Este eu não aponta para uma entidade psíquica, mas para um elemento linguístico que não tem referência em alguém em particular, mas visa única e exclusivamente o próprio enunciado, dando-lhe condições de fixar tempo e espaço no gancho do que seria um emissor. O eu dá para o enunciado emitido condição deste se manter agregado em si mesmo, unido, quase que mostrando uma identidade. Sai-se da condição de voz para a condição de voz-com-lingua, que é o discurso, o campo da semântica, do particular e do criativo, mas, ao mesmo tempo, perde-se o particular e original ser que tinha voz. Fala-se, agora, como que no impedimento de falar, dado que a língua falada já é uma prática que recebeu a gramática enxertada do exterior, ou seja, a voz humana retransformada pela formalidade da língua. Essa voz diz “eu”. O sujeito, nesse caso, é o aríete da instância subjetiva que se faz pela enunciação, pela linguagem.

Da Alemanha para a Itália, de Sloterdijk para Agamben, o que está em jogo não são propriamente duas noções distintas de subjetividade, mas a ênfase em uma característica do conceito moderno de subjetividade.

O sujeito moderno filosófico tem de lembrar o indivíduo sociológico que se assemelha ao empresário, aquele que se arrisca em empreendimentos por promessa a si mesmo que, enfim, o desinibem. Isso é Sloterdijk.

O sujeito moderno filosófico tem de lembrar o indivíduo em sua identidade, que é capaz de manter-se em si mesmo segundo esse instrumental que assim o permite: a voz que fala uma linguagem, ou uma língua, a voz que diz eu, o pronome, e o faz acompanhar por verbos. Isso é Agamben.

Uma terceira característica do sujeito está preconcebida em qualquer uma das acepções: a consciência, o saber que se sabe. Sem isso, não podemos pensar na autodesinibição e passagem da teoria para a prática, nem a identidade e a capacidade de assumir responsabilidades.

Autoconsciência, capacidade de agente com autojustificação e, enfim, identidade – eis aí as três características do sujeito moderno, a estrutura chamada subjetividade, como a filosofia moderna a toma para exibir, criticar, desconstruir, recolocar, alocar. Em todas essas atividades, é a própria filosofia atual que se faz.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo., autor entre outros de Dez lições sobre Sloterdijk (Vozes, 2018)

 

 

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13 Responses “O que é a subjetividade moderna? Sloterdijk e Agamben”

  1. Gabriel
    01/02/2018 at 04:05

    Adorei a noção de que o necessário para os humanos é sempre um plus. De fato, não consigo ver uma vida digna que não exija um extra, uma donatividade e cuidado das pessoas ao redor para se constituir como tal.

    • 01/02/2018 at 09:38

      Gabriel, essa noção é básica para Sloterdijk e ela é condição para que o homem tenha surgido.

  2. Anderson Silva
    24/01/2018 at 19:43

    Paulo, sem querer insistir (rssss), mas não parece que essa ideia de “subjetividade somática”, “eu neuroquímico” e “sujeito cerebral”, não é, na contramão de uma instância subjetiva que se faz pela enunciação, adequada a uma “governamentalidade” contemporânea que incentiva os indivíduos a se tornarem um “capital mental” (estou pensando no discurso de patologização do ensino, no uso de remédios que estimulam a atenção, mesmo de quem não tem deficit, e na eclosão de métodos de ensino, como o SUPERA)…..

    • 24/01/2018 at 21:46

      Há uma tendência geral, em uma determinada tradição do materialismo, de ir por essa via. Davidson rompeu com isso, criando um materialismo de ordem diferente, o monismo anômalo.

  3. Eduardo Rocha
    24/01/2018 at 18:40

    Paulo, depois da “era antiga”, “mundo moderno”, “pós-moderno” e “contemporâneo”, o que virá depois disso?
    Parece que Sloterdijk se mostra cada dia mais presente no mundo em que vivemos.

    http://www.oestadoce.com.br/editorias/viver/lente-de-contato-inteligente-monitora-glicose-em-diabeticos

    http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2018/01/1952959-nascem-os-primeiros-primatas-clonados-com-a-tecnica-da-ovelha-dolly.shtml

  4. Marcos
    24/01/2018 at 17:46

    E a desoneração na cultura atualmente, de onde ela vem? Por que as pessoas deixam de assumir suas responsabilidades, sem tanta inibição como antes?

    • 24/01/2018 at 21:47

      Marcos, a moral do dever teria mesmo de vir em uma sociedade da abundância. Somos mais ricos, ao menos em alguns polos centrais, e isso favorecer uma moral dos sentimentos.

  5. Anderson Silva
    24/01/2018 at 17:20

    Então Paulo, também penso nessa mesma direção “vida nua é vida orgânica somente, não vida ética”, no entanto, fico um pouco preocupado, principalmente nos âmbitos da educação, medicina e direito, que vêm associando o senso moral (atualmente, o racismo e até a espiritualidade) a correlatos neurais, portanto, a uma espécie de vida nua. Há um discurso, bastante forte e também conhecido, que reduz a “dimensão humana”, antes vista como incorpórea, ao cérebro. Por exemplo, uma neurocientista Andreasen, afirmou na década passada, que o objetivo do século XXI era desenvolver uma “penicilina” para as doenças mentais. E há aquelas pessoas que acreditam que além de corrigir a própria identidade (personalidade?) é possível também potencializá-la. Enfim…. é um panorama muito polêmico.

    • 24/01/2018 at 17:25

      Anderson, o neurônio do racismo não existe, mas o neurônio da burrice de quem vai por esse tipo de ideologia existe.

  6. Anderson Silva
    24/01/2018 at 13:14

    Paulo, o que você pensa sobre a ideia de uma subjetividade somática, e\ou a ideia de um “sujeito cerebral”, tal como é trabalhado por Francisco Ortega, Ehrenberg e Nikolas Rose, entre outros?

    • 24/01/2018 at 13:35

      Anderson, sinceramente, acho essas saídas neurolinguísticas coisa de ciência, não filosofia. Filosofia é para escrever sobre o fantástico, o mitológico, o imaginativo. O conceito de sujeito na filosofia é uma construção rica, complexa.

  7. Anderson Silva
    24/01/2018 at 13:07

    Muito interessante o conceito de subjetividade desenvolvido por esses dois pensadores. Mas, fiquei com dúvida, sobretudo, porque Agambem fala também sobre uma vida nua ( que parece muito o conceito de animal laborans de Arendt). Afinal, qual o papel do corpo na constituição dessa subjetividade moderna? Qual a função da biologia para a emergência do “eu”?

    • 24/01/2018 at 13:34

      A vida orgânica é a do sujeito que experiencia, mas que cede espaço para o falante que não fala só a voz, mas fala a voz da linguagem. Vida nua é vida orgânica somente, não vida ética. O sujeito falante que fala a linguagem, aí sim entra a vida ética.

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