Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

25/06/2017

O que é ser de direita?


O que é ser “de direita”? – Quase um mini verbete.

Houve um tempo que “politização” era um pré-requisito para adquirir uma carteirinha universitária de inteligência. “Politizado” era alguém, mesmo que meio abobado, capaz de distinguir mecanismos de poder sobre grupos e indivíduos e, então, articular alguma crítica ou denúncia. Na nossa sociedade ocidental isso significava, em geral, ser de esquerda.

Hoje em dia a direita perdeu a vergonha de ser direita. E já há jovens que são “politizados” sem serem de esquerda. Mas, do mesmo modo que os de esquerda no passado, essa politização não os tem deixado mais inteligentes. Ao contrário, como no passado, trata-se de uma máscara para esconder, não raro, uma profunda incultura ou incapacidade de raciocínio lógico.

Percebe-se isso porque nem mesmo o conceito de “ser de direita” é às vezes absorvido. Claro que no Brasil, por razões de um ensino médio público agora inexistente, algo assim se apresenta de maneira grotesca, pior do que em qualquer outro lugar do mundo ocidental. Então, às vezes temos de falar do be-a-bá. Temos de dizer para pessoas de direita o que é ser “de direita”. Chato isso. Pedante. Mas, no nosso caso atual, necessário.

Historicamente a noção de “direita e esquerda” emerge dos lugares físicos da Assembleia francesa, nos tempos revolucionários. À esquerda ficavam os representantes dos mais pobres, à direita os defensores dos mais ricos. Ou, para se pensar mais amplamente, de modo conceitual: os da direita nunca deixaram de lado uma sociedade com alguma hierarquia, senão de sangue, ao menos de dinheiro; os da esquerda tenderam sempre a privilegiar sociedades menos hierarquizadas, ou ao menos hierarquizadas a partir do saber. Até hoje é assim que, ao menos no geral, esquerda e direita se mostram. Todavia, há um componente filosófico embutido aí ao longo dos anos, e que se tornou parte do conceito de direita e esquerda.

Esse componente filosófico é típico do século XVIII, que é a noção de “natureza humana”. Para o pensamento de direita o homem é autossuficiente e, portanto, se conquista alguma coisa, isso se deve ao cumprimento de um destino divino. Após a Queda, de acordo com o destino imposto ao homem por Deus, o bípede-sem-penas teria de ganhar o pão de cada dia com o suor de seu rosto. O esforço individual como base da humanidade no interior do homem se tornou sua única condição essencial. Desse modo, tudo que o homem consegue de legítimo é pelo seu mérito próprio, inerente à sua natureza de quem lutou por isso – ou pessoalmente ou pelos esforços de seus familiares e antepassados. A meritocracia social e a própria hierarquia social, seja lá qual for, se estabelece, nesse caso, a partir da ideia que guiou o liberalismo e adquiriu nos Estados Unidos sua fórmula consagrada: self made man.

Radicalizada essa, essa ideia ultrapassou o liberalismo e desembocou no libertarismo. Desse modo, o que unifica correntes libertárias, se não historicamente ao menos conceitualmente, é o horror ao estado. Ele não é o mal necessário do liberalismo, ele é o mal de fato, e não tem que se fazer presente – assim pensam os libertários.

Por outro lado, a ideia do homem que vence pelo seu esforço solitário pode desembocar na ideia de disciplina, de força individual, mas colocada a serviço não prioritariamente do estado, e sim, antes de tudo, da nação. Desaparece o self made man e surge o cidadão soldado, uma outra forma de individualismo extremado, mas agora a serviço de uma potência bélica. Por essa via nasceu o fascismo e o nazismo.

Assim, manteve-se no contexto da direita, ou seja, do partido dos ricos, aqueles que vieram a defender o modo de vida inerentemente mais propício aos ricos, ou seja, aos que já iniciam a vida de esforço com um determinado plus de esforço dos antepassados. Nesse contexto, os liberais conservadores e libertários capitalistas ficaram à direita, mas na extrema direita ficaram aqueles que usaram o esforço individual para a glória estatal, os fascistas.

Essa explicação pode parecer reduzida, simplificada, mas ela em sua essência não tem erro. De fato, é assim que devemos tomar o “campo da direita”: há uma elite, que vem ao pódio por algum mérito (dom divino, esforço individual, força física própria, inteligência etc.), e essa elite deve comandar “as massas” (trabalhadores manuais, funcionários da pequena burocracia, a maioria dos pobres, minorias étnicas desadaptadas etc.). O liberalismo conservador e o fascismo adotam essa visão.

Com o libertarismo capitalista as coisas são mais complexas. Mas, na prática, a ideia de elite comandando o resto não desaparece, mesmo que não seja por meio de mecanismos políticos via estado ou via sindicatos. Pode ser simplesmente via posse, ou seja, capacidade de compra em uma sociedade de mercado. Quem pode mais chora menos, quem tem mais dinheiro pode fazer mais dinheiro e se submeter menos.

O liberalismo e o libertarismo podem estar associados ao que há de antigo na filosofia política: a democracia. Já o fascismo não, ele acaba delegando ao estado poderes que fariam liberais e libertários ficarem horrorizados, e nesse caso os antigos diriam que um tal regime tem a ver antes com as tiranias que com qualquer outra coisa.

Não há necessariamente aí, no conceito de “ser de direita”, nenhuma carga de valor, ao menos como eu tentei explicar. As cargas de valor aparecem das práticas históricas e do caráter menos ou mais mesquinho dos homens. A história é responsável pelas máculas aderentes ao conceito.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

Tags: , ,

28 Responses “O que é ser de direita?”

  1. Orquidéia
    27/01/2017 at 08:46

    Prof.Ghiraldelli, há umas semanas atrás publiquei no meu perfil do facebook o vídeo do sr.,que explica as diferenças entre as atitudes da Esquerda e da Direita.
    Agora publiquei também esse texto.
    Alguns amigos do meu perfil precisam conferir. [eu sei que mesmo assim não ficarão convencidos,mas gosto de fazer a minha parte]

    Obrigada por compartilhar de novo no seu “face”,não lembrava mais dele.

    https://www.facebook.com/orquideia.goncalves/posts/2069428143283848

  2. Robson
    02/08/2014 at 21:16

    Caro Prof. Paulo Ghiraldelli!
    Duas perguntas:

    1) Sobre a sua assertiva: “Ela (a explicação de Direita) em sua essência não tem erro.” Asseverar dessa forma não seria um pouco de exagero?

    2) Existe alguma forma (ou conceito) de Direita a qual seria: conjunto de pessoas que desejam somente cooperar entre si, e não querem “dever comandar”?

    Muito obrigado pelo texto e pelo seu tempo!
    Robson

    • 02/08/2014 at 22:44

      Robson eu acho que não há o que dizer mais, acho que se você ler de novo você mesmo resolve isso.

  3. Roseana Sarney
    21/02/2014 at 00:51

    Sabe, você não fala coisa com coisa.

    • 21/02/2014 at 08:36

      Ha ha ha, eu falo tudo certo, e sendo você a Roseana Sarney, fico com mais certeza disso

  4. Luiz Fernando
    20/02/2014 at 17:42

    Paulo, obrigado pelo texto. Bastante didático e ilustrativo. Já encaminhei pra muita gente. Sem querer abusar, mas já abusando, será que você não poderia escrever algo semelhante sobre a esquerda?

    • 20/02/2014 at 18:02

      Eu fiz verbete duplo no blog, e eu fiz um livro bem didático: Filosofia politica para educadores (Manole). Já viu?

    • Luiz Fernando
      04/03/2014 at 13:41

      Vou atrás do livro. Obrigado!

  5. Saulo Almeida
    20/02/2014 at 11:12

    A esquerda que está ai consegue ser ainda pior; Tenta, por um lado,comandar as massas por meio do liberalismo e, por outro, através da força do Estado.

    • 20/02/2014 at 12:54

      “Comandar as massas pelo liberalismo” – bem, não sei o que pode ser isso.

    • Saulo Almeida
      21/02/2014 at 01:00

      Quis dizer comandar as massas segundo as regras do liberalismo, do self made man, ao mesmo tempo em que a força do Estado é acionada, de acordo com a conveniência, a fim de garantir um projeto de poder.

    • 21/02/2014 at 08:36

      Ser de direita não é isso, o meu verbete é conceitual, como todo verbete. As questões históricas são por conta dos historiadores.

  6. 20/02/2014 at 09:25

    Como já havia comentado antes com o Sr. Não acho que exista direita ou esquerda. Há apenas os que pensam em si mesmos e os que não !

  7. 19/02/2014 at 22:08

    No Brasil a Direita devido à ditadura que tivemos ficou associada valorativamente como: anti-ética, imoral, ditatorial, algo a ser evitado a todo custo, ruim, mal, perversa…
    Enquanto que a Esquerda aproveitando-se dessa demonização ficou com a imagem oposta.
    No entanto, no mundo hoje as ditaduras estão ligadas à Esquerda: China, Cuba, Coréia do Sul…
    Mas polarizar o assunto para mim, sempre parece simplista e limitante. Tanto direita, quanto esquerda tem aspectos que podem ser interessantes, desde que não sejamos dogmáticos, presos a uma ideologia. Vendo tudo de positivo naquela que nos agrada mais e tudo de negativo naquela que nos desagrada.
    Penso que o regime Chinês pode levar uma revisão desses conceitos, umas vez que ele cruza as fronteiras que antes serviam para limitar Direita, Esquerda, Capitalismo e Socialismo/Comunismo.
    O que acha Paulo?

    • 19/02/2014 at 22:11

      Edison, a direita não mal vista no Brasil somente, ela é mal vista no mundo. Afinal, a direita fez o Holocausto. É claro que não Europa Stalin tem um peso maldoso quase igual a Hitler, mas não no resto do mundo. O Holocausto é algo que mudou o mundo.

    • MARCELO CIOTI
      20/02/2014 at 10:39

      Pior são aqueles burros de esquerda que
      querem comparar Israel com a Alemanha
      nazista.Ridículo.

    • 20/02/2014 at 12:55

      Bem, o problema é que a beligerância de Israel nem Obama mais aguenta.

    • 21/02/2014 at 01:34

      Bem… mas a esquerda é Fidel (Cuba), URSS/Stalin, China, Coreia do Norte, Hugo Chávez… Colocar toda a direita em um saco, ou toda a esquerda em outro, é um dualismo reducionista primário, simplismo. Coisa que só leva ao engano e desinformação.
      Ambos os lados já mataram muita gente… Associar a direita a Hitler não é algo muito branco ou preto, falta muito cinza nesse quadro…

    • 21/02/2014 at 08:35

      Edison, é necessário desprezar todo o meu texto para dizer isso. Ele é um verbete conceitual, dos melhores.

    • 21/02/2014 at 15:04

      Paulo, não estou me referindo especificamente ao seu verbete, mas sim à abordagem que a sociedade e a intelectualidade faz. Apenas adicionando, ou pelo menos tentando, aprofundar e ampliar o que você escreveu. Deve ter faltado clareza no que escrevi. É que tudo que leio sobre Direita e Esquerda, quase sempre me parece muito dualista e eu sou mais holista, sempre procurando uma abordagem em gradientes, não bipolar.

    • 21/02/2014 at 15:14

      O problema não é bipolaridade. Há muita coisa bipolar que é bipolar ué? O problema é que se você vai à história, então aí meu verbete não serve mesmo. História é coisa de detalhe.

  8. Guilherme
    19/02/2014 at 21:46

    É muito curioso falar em Direita e Esquerda aqui no Brasil. Há quem diga que não existe Direita no Brasil, porém ela existe, mesmo que virtualmente. Essa Direita que está aí é pouco inteligente, pois está apegada a um discurso antiquado e patético. Será que é possível ser conservador sem parecer ser um idiota anacrônico?

    • 19/02/2014 at 21:49

      Guilherme, eu me preocupo com filosofia, não com pessoas que assumem posições políticas.

  9. Augusto Pais
    19/02/2014 at 20:55

    Obrigado pelo texto Professor!

    Acrescento ainda à resposta do Prof. Ghiraldelli a ligação que essas posições políticas estabelecem com outras esferas, como a origem, administração e legitimidade da moral.

    É relativamente fácil perceber, à direita, que o comportamento conservador tende a conservar instâncias morais ligadas à prática religiosa, já que a palavra de deus(es) e sua(s) escritura(s) seria(m) a origem da moral, e a política – enquanto administradora da vida comum – seria a responsável por propagar e legislar as leis humanas tendo a lei/moral divina como base.
    Sendo deus(es) o(s) portador(es) da moral, não se admite que o Estado permita condutas desviantes daquelas contidas nos textos sagrados. A base comum da organização da vida é o caráter persecutório dos que têm religião contra os que não têm.
    Assim são as teocracias. Resultado da ação da extrema-direita.
    Em tempo: para os libertários, basta trocar “deus” ou “religião” por “liberdade mercantil” ou “leis de trocas voluntárias”; para os ultranacionalistas basta trocar “deus” ou “religião” por “patriotismo”, “unidade em torno da pátria”, “nacionalismo” ou “unidade em torno da nação”.
    Também resultado da ação da extrema-direita.

    Já às práticas políticas denominadas “de esquerda” (admitindo aqui a existência de matizes em uma e em outra) são associadas posturas que, em nome da separação Igreja X Estado, reservam ao Partido e aos detentores do poder, o comando sobre a vida comum, tendo a política como origem, meio e fim do mecanismo moral de ação. O que acaba levando o Estado ao papel de promotor da justiça e do bem-estar, e eleva seu líder ao posto de personificação do Estado.
    O que, não tão raro, leva ao culto da personalidade do líder, e, consequentemente, à eliminação de mecanismos de oposição. Isso leva a Estados totalitários, restrição da liberdade individual e isolamento político.
    Resultado da ação da extrema-esquerda.

    • 19/02/2014 at 21:51

      ESsas coisas muito complicadas assim podem ajudar você, mas ajuda pouco, no geral, pensarmos. Quando temos de complexificar dessa maneira, o melhor modo é ir para o caso concreto histórico, não a filosofia.

  10. Claudio Cesar
    19/02/2014 at 18:45

    Daí o dilema da direita brasileira atual: arrogam-se referenciais de valores e condutas históricas éticas, mas que sempre os aproximam com os ideais fascistas – anti-intelctualismo, culto aos vultos históricos, uso das forças em prol da pátria, anulando o self made man….
    Quanto aos do libertarianismo, eles seguem a quem? No comunismo se seguia era ao partido (a pátria líquida e dissolvida); no nazismo, a personificação estatal do partido – ”o estado somos nós, a Alemanha vem atrás de nós”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *