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22/07/2017

O que é preconceito?


Você não sabe o que é preconceito? Está usando errado?

A moda agora é usar a palavra “preconceito”. É preconceito para lá e para cá. Já está pior que “machismo” ou “neoliberal”, palavras que todo mundo usa já sem saber do que se trata.

Vamos à palavra “gordo”.

Basta pronunciá-la e rapidamente atrai um alienígena vestido de girafa para dizer “tá com preconceito”.

Adjetivos descritivos podem ser ofensivos, claro, mas não perdem o poder de descrição por causa disso. Agora, se são pronunciados por preconceito, isso depende da razão pela qual foram pronunciados.

Por exemplo, gordo é gordo, mas se gordo aparece como adjetivo importante numa frase em que o qualificado está sendo tema ou referência da frase por conta de fazer uma redação ou pintar um quadro (ou dar aula), aí então há antes o preconceito (não o pré-conceito – esse é outro caso) que o conceito. Ou seja, a noção de gordo não pode vir atrapalhar o conceito de escritor ou professor ou pintor. Caso venha, então o usuário da linguagem não sabe o conceito de gordo, ou melhor, falando nos termos dos filósofos Wittgenstein, Donald Davidson e Rorty: não sabe jogar o jogo de linguagem na qual a palavra “gordo” cabe. Sacou?

Agora, o pré-conceito que pode gerar preconceito é algo mais complexo.

Alguém pode dizer “Aquele gordo não vai nadar e conseguir competir, nem adianta colocá-lo na equipe”. O atingido pode dizer: “você está me discriminando por pré-conceito, que gera preconceito”. Nesse caso, quem disse o não ao nadador gordo pode contra argumentar: “gordo é como cortiça, flutua bem, mas não tem velocidade uma vez que velocidade depende de potência muscular e o tecido adiposo atrapalha a potência muscular”. O gordo pode pular na piscina e ganhar a competição, ainda assim a objeção contra ele não será pré-conceito ou preconceito, pois o que foi dito sobre os gordos e o desempenho em água é correto segundo o conceito de fisiologia da natação utilizado.

Nos termos filosóficos: segundo o jogo de linguagem da fisiologia do esforço atual, “gordo” é uma palavra que indica algo ruim quando se trata de procurar um bom nadador.

Claro que se, depois, o conceito for mudado, o que ocorreu terá ficado no passado, mas não como pré-conceito ou preconceito, e sim como um erro induzido por um conceito falho.

Você pode pensar assim de muitos outros adjetivos, de muitos outros qualificativos, e começar a instruir outros sobre o assunto. Sim, eu sei que isso demanda paciência! Mas tente. Já que o brasileiro está sem escola, você que aprendeu um pouco, ensine.

Espero ter tornado as coisas claras, neste texto rápido. Chega de errar, tá?

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 56, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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9 Responses “O que é preconceito?”

  1. Cesar Marques - RJ
    24/05/2014 at 00:12

    Professor, duas perguntas:

    – Não ficou muito claro (para mim) a diferença exata entre pré-conceito e preconceito. O senhor poderia sanar está minha dúvida?

    – No Brasil, gordo é uma Minoria (no sentido sociológico do termo)?

    Abçs.

    • 24/05/2014 at 09:14

      “Gordo” pode ser uma minoria, mas num sentido especial. Por exemplo, se o governo do estado começar a insistir em não dar posse aos gordos como professores, vai gerar um negativismo que irá permitir que apareça um movimento, baseado em lei (a aparência, o pedido de “boa aparência” etc.), para defender os gordos, e entao eles se aproximarão da noção de minoria, que em geral é fixada também por aspectos negativos, não só o positivo (características culturas inerentes). Agora, sobre conceito e pós conceito, aí você tem de procurar no meu blog e também no meu livro “A filosofia como crítica da cultura” (Cortez). OK?

    • Guilherme Gouvêa
      24/05/2014 at 11:56

      Paulo, de acordo com o Ministério da Saúde, 52,6% dos homens estão acima do peso; entre as mulheres, o número é de 44%; o sobrepeso atinge 55% dos cidadãos entre 25 e 34 anos e 63% daqueles entre 35 e 64. Então, do ponto de vista matemático, ao menos, não dá para se falar que são uma minoria.
      O que acontece é que há muitos falsos magros, e padrões diferentes de obesidade, que diferem os gordinhos (“fortinhos”, diriam os antigos) dos gordões.
      *****
      Acredito que muito em breve, os comunistas infiltrados no governo vão aproveitar a deixa para sobretaxar planos de saúde aos obesos, frituras e chocolates, sob o pretexto de que esse pessoal agrava o custo para o Estado, afinal a obesidade é mesmo fator de risco para uma série de doenças.
      *****
      Como a Souza Cruz um dia, a Nestlé cairá em desgraça, e o Sonho de Valsa terá o preço quadruplicado; as gordas de todos os tipos passarão a se enfileirar em becos mal iluminados à procura de um novo inimigo público: o traficante de balas 7 Belo, brigadeiro e cajuzinho.

    • 24/05/2014 at 12:08

      Tirando a parte dos “comunistas”,que é óbvia brincadeira, o resto vai vigorar sim. E será uma verdade: gordo saudável só existe até os 25 anos.

    • Guilherme Gouvêa
      25/05/2014 at 00:30

      Brincadeiras à parte, é uma discussão bastante válida perguntar até que nível da liberdade individual estamos dispostos a ceder em nome do “bem comum”.
      Até porque quem está gordo como um elefante e precisando de um regiminho urgente é o nosso Estado superintervencionista (que o digam os novos sacoleiros brazucas, enchendo os cofres americanos comprando bens de consumo comuns, mas inacessíveis aqui por causa da carga tributária).
      Mas esse tema foge muito da proposta do seu texto e, por isso, melhor deixar para outra oportunidade.

    • 25/05/2014 at 02:02

      Gouvêa, especificamente sobre os gordos, eu escrevi a propósito do concurso para professores em São Paulo.

    • MARCELO CIOTI
      26/05/2014 at 11:37

      Guilherme,o Sonho de Valsa
      não é da Nestlé,mas da
      Lacta.Só esqueceu de
      dizer sobre aquelas
      modelos raquíticas que
      aparecem nos desfiles
      como verdadeiras
      tábuas ambulantes.

    • 26/05/2014 at 15:59

      Essas modelos são lindas. Elas são o supra sumo do desenho bidimensional posto para andar em três dimensões. São arte pura.

    • Guilherme Gouvêa
      26/05/2014 at 18:31

      “Faia” nossa. Dica para o cara que quer arruinar a noite: quando a mulher aparecer mostrando o novo look, diga: “Nossa… é esse vestido ou você engordou mesmo?”

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