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18/11/2017

O que é o riso?


Para o meu amigo Pedro Possebom

 

Cachorros e crianças não gostam que seus entes queridos mudem de imagem. Óculos escuros ou uma barba retirada são motivos de estranhamento e até desespero. O estranhamento continua, em certas circunstâncias, em relação à interrupção de sequências causais esperadas ou hábitos alterados. Esse estranhamento é quase um protossoriso.

O riso é fruto do inesperado, de certa transgressão. Uma pessoa que deveria dar um passo e cai sentada faz rir, uma pessoa que deveria responder algo de uma maneira e responde de outra, inusitada, faz rir. Os portugueses são engraçados para nós, brasileiros, porque esperamos sempre um pensamento que respeita a metáfora, enquanto que eles pensam de modo literal. Essa verdade sobre o riso é mais ou menos o que nos ensinou Bergson, em obra clássica sobre o assunto. Há vários que dizem que sabem mais coisas que Bergson sobre o assunto. Mas, quando os lemos, voltamos a Bergson.

Hobbes escreveu que o riso é “uma paixão que não tem nome”. Falando isso, de certo modo ele, sem saber ele revelou muito sobre o mistério do riso. Ou seja, é sua caracterização do homem como desenhável com pincéis de “paixão versus razão” que, enfim, não permite que expliquemos o que não é dessa ordem. O riso tem a ver, claro, com o humor, e o órgão do humor, do espírito, é o thymos, dos gregos antigos. Os modernos resolveram extirpar o thymos da figura humana e, então, perderam a chance de entender o humor.

Na antiguidade, em Aristóteles principalmente, o riso estava ligado ao escárnio dos de cima em relação aos de baixo. Hoje isso não é verdade. Mudamos nossa sensibilidade em relação aos de baixo, graças ao cristianismo e ao liberalismo progressista. O riso vem se alterando. Mas a ideia bergsoniana da quebra de expectativas vale para isso. E se reintroduzirmos o thymos nesse quadro, tudo fica mais fácil.

O thymos é responsável pela ira, o orgulho, a coragem e alegria. Muitos não entendem como que o grego colocou sentimentos tão díspares num lugar só, ou seja, o peito. Mas quando rimos de alguém caindo ou quando rimos do português que responde as coisas que perguntamos de modo literal, há um orgulho de não sermos como ele ou como quem cai, há uma perversidade nisso, uma certa ira, mas há também uma alegria provocada pela quebra do tédio que é viver sob o tacão da sequência sabida e imutável. É nesse sentimento sutil que o corpo, o peito comandando, cutuca sua parte mais baixa, o diafragma, e nos põe sob o regime do riso.

O riso não é o sorriso. O riso não é a gargalhada. O sorriso tem a ver com a sedução e a gargalhada com o poder. O riso tem a ver com o relaxamento de quem vê que o mundo pode abriga o contingente! Ou seja, há algo que nos diz, e que talvez nos engane dizendo que a liberdade é possível, que hábitos, sequências e estruturas podem se romper. Esse rompimento é tudo que o reino da liberdade promete. O riso é o sinal do encontro com a mentira (ou verdade?) da existência da liberdade.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 58. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (São Paulo: Cortez, 2015)

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