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22/10/2017

O que é o ressentimento?


Tudo que se populariza sem cuidados dá frutos podres. O tema de ressentimento está nesse barco. Trata-se de uma noção tipicamente filosófica, mas por conta da popularização descuidada de Nietzsche, surgiram leituras incultas que só causam desserviço. Nessa linha, o ressentimento ganhou aspectos exclusivamente psicológicos e passou a ser utilizada numa guerra de todos contra todos. Qualquer rabiscador de papel acha que pode falar de ressentimento.

Em Nietzsche a noção designa uma categoria psicossocial que emerge na moral de época e povos, e que se torna transhistórica uma vez que, pertencendo ao campo do niilismo, vigora como eixo de uma filosofia da história.  Explico.

Vamos à tipologia de Nietzsche.

O tipo “fraco” ou “escravo” ou “servo” ou “mulher” ou “judeu” ou “cristão” ou “moderno” ou “liberal” etc., é por definição ressentido. É aquele que cria a primeira revolução moral e que, exatamente por valorar tudo, dá valor moral e cria o caminho do niilismo, a perda de todos os valores máximos. Os valores não humanos, ou seja, aqueles valores que foram assumidos pelos humanos a partir da virtude de cada situação, pessoa, coisa, instituições e povos, perderam brilham para os valores tipicamente criados pelo homem. Este, então, deixou a virtude de lado para colocar em seu lugar uma valoração “humana demasiadamente humana”, sempre de desprezo para com a vida. Em lugar de procurarmos a melhor realização de cada elemento, passamos a procurar o que cada elemento tem de serviçal os que então se reconheceram como oprimidos.

Foi essa revolução que destronou Deus como elemento capaz de mostrar Caim e Abel como produtos do jogo de dados, do destino. Veio então o Deus cristianizado, e eis que passamos a culpar Caim por sua inveja. Ora, pelo raciocínio cristão seria mais fácil, então, culpar Deus por não perceber que não deveria ter tratado de modo tão desigual dois presentes, um filho de Abel e a produção de Caim. Todavia, antes da cristianização de Deus, este não estava em seu lugar de absoluto por outra coisa senão a de ser mesmo o absoluto: que todos nós saibamos que estamos à mercê de idiossincrasias do destino, tomado absolutamente. Se não pensamos assim, se somos filhos de um Deus cristianizado, começamos a ver as coisas por merecimento. Então, a cada infortúnio, gritamos o quanto fomos injustiçados ou então perguntamos o que estamos fazendo de tão errado para merecermos tal castigo. Castigados mais e mais, logo passamos também a culpar os “fortes”, os que não são castigados, pela nossa desgraça. Isso é parte da revolução moral que irá falar em “bons” e “maus” e não mais em “bons” e “ruins”. Nessa hora, junto com o fora dado no Deus absoluto, que é criador sem ser pai, vão por água abaixo também uma série de valores decorrentes dessa linhagem. Os valores vigentes passam a ser o do Deus que é nosso parente, nosso pai, que são tudo o que faz dos “fracos” merecedores de um “reino melhor” fora daqui, uma vez que, aqui, os infortúnios continuarão a ocorrer.

É nesse contexto não histórico, mas teórico, que há o ressentimento.

Mas, infelizmente, a má formação de alguns professores de filosofia inventou de dar guarida para jornalistas que ouviram o galo cantar sem saber onde e inventaram de usar “ressentimento” para tudo. Foi aí que “a mágoa” ou “o recalcado” ou “o complexado” foram tomados, erradamente, como sinônimos de “o ressentido”. Quando se coloca Nietzsche e a filosofia no campo de conversa, essa sinonímia não vale. Não se mistura o clima filosófico de tom psicossocial com sentimentos exclusivamente psicológicos empíricos e individuais. Um lugar de ressentimento pode não ter ressentidos no lugar que esperamos.

Do mesmo modo que é bobagem achar que a “consciência de classe” do marxismo posterior a Marx pode ser expressa como sendo a consciência individual de uma pessoa que está bem informada e engajada nas lutas sociais, também é ridículo ver o “ressentimento” como a mágoa pessoal de um pobre diabo que só teve fracassos na vida. A mediação entre o “espírito”, em um sentido hegeliano, e determinações das figuras do espírito que, por sua vez, podem aqui e acola apontarem para exemplos contingentes, através de nossa atuação individual, é uma arte do escritor filósofo. Não é para qualquer um. É para filósofo com boa formação. É para gente que sabe fazer filosofia social.

Talvez seja por isso que Rorty tenha alertado para a capacidade de literatura (eu diria, do cinema) de expressar melhor o que a filosofia tentou expor em termos analíticos argumentativos.  Vamos ao caso. Ao cinema.

O melhor exemplo recente é uma cena, que eu já comentei várias vezes, de Samuel Jackson no filme Django.

Quando ele vê Django entrando na fazenda a cavalo, sua expressão vai se alterando. Tarantino pede que Jackson crie um espaço de tempo próprio: vagarosamente e, ao mesmo tempo, em minutos, o rosto do negro capataz vai do espanto ao medo passando pelo ódio. Eis tudo que é necessário para que o personagem de Jackson se desiniba de modo a colocar em prática seu plano de destruição daquele homem que representava o futuro – o negro liberto e altivo, o negro liberto não pelo puxa saquismo dominador, mas pelo simples fato de não haver mais escravidão. Django apontava para isso, para um país que estava prestes à Guerra de Secessão. Mas um país assim seria desesperador para aquele negro, o capataz, que, sendo humilhado ganhou a condição depois de mandar, contanto que fosse ainda tomado por um humilhado. A vida de sofrimento do personagem de Jackson, naqueles minutos que demoraram a cavalgada de Django do portão da fazenda até a porta da casa grande, foi um acontecimento inaudito. Em poucos minutos ele compreendeu toda a história e o futuro da América e, ao mesmo tempo, o quanto havia sido desgraçada e em vão sua própria vida, a daquele que foi capacho, que se fez de capacho e seria, mesmo mandando, eterno capacho. Quando o futuro mostra que o que se fez até então foi uma grande bobagem, e que não há mais tempo para a salvação diante da carga de pecados com as quais terá de se ver no Juízo Final, o desespero é a solução.  O personagem de Jackson tomou as rédeas dos acontecimentos. Ele tinha o ressentimento como clima exato para lhe dar as justificativas que um sujeito precisa para agir como sujeito.

Peter Sloterdijk diz que se o lugar do orgulho e, portanto, a identidade moral, é propriedade do thymos, é então melhor ver que o ressentimento é outro ponto timótico. Assim, uma cultura timótica pode servir para causas nobres, mas pode servir para o mais profundo desejo de fazer o passado vencer o futuro. Uma cultura timótica guiada pelo diabo daria todo o ressentimento necessário para energizar então os personagens não só de Samuel Jackson, mas, a partir daí, também os do próprio Django. Aliás, Tarantino sempre matreiro, põe ambos respirando no mesmo clima. Não haverá vitória para nenhum, ainda que, em termos de melodrama de HQ, Tarantino não deixe de cumprir seu papel de diretor que proporciona a catarse. Mas que não se pense que, ao final, não está escrito o destino da América: a escravidão poderá acabar, mas ninguém mata o que não está exclusivamente em cada homem, mas no espírito da terra, o ressentimento.

É nesse sentido que se pode articular o ressentimento entre seu campo filosófico e os personagens humanos históricos. Fora dessa construção, o que tenho visto, principalmente ultimamente, é a incapacidade compreensão e uso do termo filosófico de Nietzsche.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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11 Responses “O que é o ressentimento?”

  1. Leo
    17/06/2016 at 20:20

    Impossível entender. E para quem diz que quem não entende é porque não é culto o suficiente, para estes eu digo: o rei está nu.

  2. Thiago
    19/03/2015 at 20:20

    Questão importante: ou estou com esquizofrenia ou o tempo está continuamente retornando para mim: somente os eventos mais gerais, o calendário não. Favor me auxilie: thg.caio.ita@gmail.com

  3. Rico
    12/10/2014 at 18:04

    Bem lembrado, é necessário colocar os conceitos no lugar. O nietzsche-pop foi um tremendo desserviço à filosofia, todos agora querem apontar o dedo para “casos individuais” da “vontade de poder”, do “ressentimento” e de um “estar para além do bem e do mal”. Leem Nietzsche como um catálogo de tipos individuais, traindo o esforço hermenêutico de Deleuze e a própria letra de Nietzsche.

  4. 10/10/2014 at 00:30

    Lendo esse artigo me lembrou o pondé com seus discursos, coitado dele, não sabe o que fala.

    • 10/10/2014 at 11:38

      Enoque o Pondé é aquele cara que escutou o galo cantar a palavra “filosofia” e está procurando até hoje o galo.

    • Usp10
      10/10/2014 at 13:32

      Eu tenho a suspeita de que tem inveja da esquerda, mesmo aquela insignificante de DCE. Acho que é porque na faculdade ele tinha que trocar fraldas enquanto tinha outros viviam farriando. O cara não viveu a juventude direito.

    • 10/10/2014 at 17:47

      USP 10 você está lendo o Pondé demais e confundindo o que é inveja, ressentimento etc. Sai dessa.

  5. Valmi Pessanha Pacheco
    07/10/2014 at 12:47

    Magnífico pensamento
    Alguns psicólogos e psicanalistas entendem o ressentimento como um” mecanismo de defesa do Eu” freudiano: projetar no outro, por carência da autocrítica, as causas de seu fracasso, mesmo porque torna-se mais cômodo.
    Belíssimo exemplo. No Django (Tarantino) aparecem bem marcantes, creio, outras formas de ressentimento, admiravelmente abordadas pelo grande cineasta.
    Forte abraço.
    Valmi Pessanha.

    • 07/10/2014 at 13:29

      Valmi — bem, em termos filosóficos a coisa é não-freudiana. É nesse sentido que vai o texto. Freud pegou o termo e psicologizou, veja que eu aviso isso no texto.

  6. Ferdnand
    06/10/2014 at 19:22

    O 2º e o 4º parágrafos são completamente confusos e, por isso, ininteligíveis… Mas, claro, o problema é da minha falta de leituras e não do iluminado autor…
    Perdão.

    • 06/10/2014 at 23:51

      Ferdnand você acertou, sua estupidez não deixou você entender. Filosofia não é para qualquer um. Mas fico feliz que percebeu. Não volte mais aqui, vá ler quem você entende.

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