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28/02/2020

O que é o pensamento trágico e o pragmatista?


Resumindo ao máximo. O pensamento trágico vem da literatura, não da filosofia. Sua linha diretriz é a seguinte: que ocorram dezenas de episódios e que mil caminhos sejam postos alternadamente, sem qualquer determinismo, ainda assim o desfecho final ocorrerá e ele não será outra coisa senão a derrocada. Assim, a vida é trágica: todo o sucesso nosso, mesmo até o último momento da vida ainda terá um final trágico, a morte.

O pensamento pragmatista não vem de outro lugar senão da filosofia. Sua linha diretriz é a seguinte. Ocorre o que ocorre porque nós, bípedes-sem-penas, encaminhamos as coisas segundo perseguição da satisfação de nossos interesses, e o desfecho final poderá, com um pouco de sorte, ser alvissareiro. A vida é uma promessa, quase uma utopia: todo êxito nosso será mesmo um êxito quanto mais pudermos ser em futuros sucessivos “versões melhores de nós mesmos”.

Dois filósofos? Ora, Clément Rosset para o pensamento trágico, Richard Rorty para o pragmatismo. Duas obras? Sugestão para iniciantes: Lógica do pior da Espaço e Tempo  e Pragmatismo e política da Martins Fontes. Com qual programa filosófico ficar? Se usarmos de certa compreensão panorâmica, talvez eles não se atrapalhem.

O trágico pode trazer menos euforia para o pragmatista, enquanto que este pode induzir mais desconfiança ao primeiro. Afinal, o trágico não é um determinista quanto ao enredo de nossas narrativas, de nossa história, mas ele aposta que o desfecho final não deverá trazer uma melhora moral ao mundo. Isso pode conter o pragmatista, deixá-lo menos afoito. Mas o pragmatista sempre pode falar para o trágico que a morte, como parece ser para todos, não conta, e que só a vida conta, e esta, pelas narrativas que temos, mostra que vem sendo entortada senão pelo nosso gosto, ao menos não totalmente contra ele em todos os momentos. Nossos interesses pesam.

Nesse sentido, Nietzsche é um filósofo disputado entre trágicos e pragmatistas. Uns dizem que ele é trágico, outros dizem que se for para falar isso em um determinado grau e setor de abordagem, Nietzsche pode ser chamado legitimamente de pragmatista. Ou seja, uma visão setorial do trabalho nietzschiano poderia nos deixar ver duas de suas múltiplas faces. O Nietzsche trágico empurra o niilismo de modo que até mesmo a vontade de nada, que ainda é uma vontade, desapareça. O Nietzsche pragmatista quer uma ultrapassagem dessa situação “demasiadamente humana” que tudo valora e é excessivamente moral; ele quer um deslocamento do homem para o seu fim de modo a abrir uma porta para o Übermensch. Em todo esse percurso, pragmaticamente estamos imersos na nossa práxis. Lidamos com o mundo com a linguagem como a formiga com suas antenas e cortadeiras.

Ambos, o trágico e o pragmatista contestam o platonismo, aquele que, em certo sentido, Nietzsche tomou como senso comum da modernidade. O trágico contesta porque está longe de qualquer cultivo da bem aventurança do Mundos das Formas. O pragmatista porque o mundo das formas é apenas um modo da racionalidade, aquele que ajuda a colocar fins, mas a racionalidade é também colocar meios e ser razoável. Além disso, tanto o pragmatismo quanto o pensamento trágico não são fundacionistas. Não possuem fundamentos para a ação, somente, talvez, justificativas – razões. A autodesinibição necessária ao sujeito para que ele possa se autoconsultar e atuar como sujeito (Peter Sloterdijk) são razões, justificativas. Desse modo, toda teoria é “ad hoc”, mais ainda o pensamento trágico e a filosofia pragmatista. Eles dão razões, não bases necessárias que garantem com fundamentos metafísicos a prática desenvolvida.

Por isso, é um erro fundamentar posições progressistas ou conservadoras a partir da filosofia trágica ou pragmatista. Quem acha que com o pensamento trágico está fundamentando a sua ação política não sabe nada do pensamento trágico. O mesmo ocorre com o pragmatismo. Todavia, há aí uma pequena diferença, no favorecimento do pragmatista quanto à democracia. O pragmatista só existe como pragmatista em uma situação de liberdade, pois para exercer interesses é necessário que exista pluralidade de interesses. Já o pensador trágico pode conviver com regimes políticos fechados, uma vez que a liberdade para ele, enquanto trágico, não importa: os caminhos todos deverão levar à Roma.

Do modo como eu faço filosofia essas posições podem ser coadjuvantes. Mas, particularmente, eu extraio delas não doutrinas, mas aprendizados. Eu mantenho minha posição doutrinária relativamente socrática, que eu costumo resumir por meio da frase: a filosofia é a desbanalização do banal.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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6 Responses “O que é o pensamento trágico e o pragmatista?”

  1. Ademar Braga
    30/11/2014 at 19:19

    Nietzsche afirmava que socrares tinha um caráter extremamente ambíguo, uma figura apolínea, mas também,
    dionisíaca.

  2. 30/11/2014 at 17:43

    Locke definiria pessoa como um ser pensante, capaz de razão e de reflexão, e que pode consultar-se a si mesmo como o mesmo, como uma mesma coisa que pensa em tempos diferentes e em diferentes lugares; e o faz unicamente pelo sentimento que tem de suas próprias ações, que é inseparável de seu pensamento, e lhe é inteiramente essencial, sendo impossível a qualquer ser de perceber sem perceber que percebe.

    • 30/11/2014 at 21:51

      Fonseca! O texto NADA tem a ver com Locke.

    • 01/12/2014 at 01:45

      Eu citei Locke pra mencionar essa ideia do Peter Sloterdijk sobre consultar a si mesmo.

    • 01/12/2014 at 01:52

      Fonseca não é o caso. Não é a consciência ou a reflexão. É o sujeito. A consulta diz respeito à desinibição.

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