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29/03/2017

Peter Sloterdijk: o que é o homem?


“O que é o homem?” Kant formulou essa pergunta como uma espécie de corolário de três outras: “o que posso saber?”, “o que devo fazer?” e “o que me é permitido esperar”? Sloterdijk se aproxima mais das duas últimas que das duas primeiras. “O que me é permitido esperar?” e “o que é homem?” são subsumidas em uma pergunta que eu expresso como: o que é o aperfeiçoamento humano? Na terminologia de Sloterdijk caberia algo do tipo: o homem é o homem do ascetismo, mas por que e como?

A ideia de que o homem é aperfeiçoável é uma banalidade. Por isso mesmo, não damos mais atenção a tal coisa. Sloterdijk busca as raízes dessa concepção. Quando que realmente decidimos ver no homem o protótipo do que será o homem? Ou do que deva ser o homem?

Uma das respostas mais interessantes de Sloterdijk (1) a respeito dessa pergunta se dá na sua abordagem de um aforismo de Heráclito, também trabalhado por Heidegger: “éthos anthrópo daímon” (aforismo 19, por Stobeus). Lembra que a tradução corriqueira é “O caráter do homem é seu destino”. Também menciona o quanto Heidegger se insurgiu contra tal tradução. Mas não segue Heidegger, preferindo um caminho próprio. Anthrópo está entre éthos e daímon, e não precisamos lidar com isso de maneira horizontal. Podemos ver a frase como indo verticalmente do éthos para o daímon. Nesse sentido, anthrópo é o que sobe do éthos para o daímon. Anthropós é  o que tem de ir de seu costume ou hábito (ou caráter) para o destino, ou seja, para o que é o daímon, o divino ou gênio ou uma boa psiché. Nessa linha, o homem realiza o que é, na direção dos deuses, ou de seu melhor aparelhamento próprio mental. Sloterdijk conclui, após uma digressão: “a mais antiga noção do imperativo metanoético já demanda que humanos distingam entre o alto e o baixo dentro de si mesmos”. Trata-se de admitir então que o homem é o que se aperfeiçoa, o que é alguma coisa do âmbito do vertical, o que tem dentro de si e como destino atingir este tomado como lugar mais alto. O homem é o que vai do animal-homem ao homem-Deus. Ele pratica, repete, se prepara para ser divino. O sujeito é um esforçar-se, diz Sloterdijk.

Pensando desse modo, Sloterdijk rompe com a filosofia do limite, ou seja, com o projeto crítico. Rompe com as leituras erradas que acreditaram que o “conhece-te a ti mesmo” deveria ser lido como “saiba de seus limites”. Eis o melhor: saiba-se ilimitado, uma vez que seu destino é o seu “alto”, e este não tem parada. Não há um ponto alto. Daímon é sempre alguma coisa além, pois divino. Nesse sentido, o ascetismo para Sloterdijk é antes de tudo uma postura inerente ao homem como o que pratica a superação, o esforço de ir mais longe, o que arranca de si a disciplina e os exercícios escalonados para ir além. Talvez nem mesmo Nietzsche tenha pensado tão grande. Todos os textos de Sloterdijk trabalham com esse imperativo, e com essa noção de ascetismo, e não a de Nietzsche. Este, por sua vez, vê o ascetismo como um subproduto da religião. Sloterdijk vê a religião como algo do ascetismo, sendo este o fio condutor do homem, seu caráter e destino.

Olhando assim, podemos compreender perfeitamente não só o projeto do Humanismo, mas também as situações todas que indicam familiaridade com as próteses, a engenharia genética, a melhoria em sentido geral, tudo isso como fazendo parte do que é inerente ao homem,. Pois sabe-se que ele está entre o éthos e o  mais alto, daímon. Não que ele esteja assim, propriamente, mas é que ele é exatamente isso. “O que é homem?” Trata-se do animal que tem como missão virar Deus.

(1) Sloterdijk, P. Du muBt dein Leben ändern. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2009, cap. 3.

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6 Responses “Peter Sloterdijk: o que é o homem?”

  1. Emisson
    02/10/2016 at 19:41

    Que texto magnífico.Dar vontade reelê-lo várias e várias vezes.De acordo com este texto magnífico,o homem ou o “anthropó, é aquele que busca o “divino” o “ser Deus”, por intermédio do esforço.A leveza está presente nesta busca por ser Deus?.Texto excelente, um dos melhores que já li aqui no seu blog.

    • 02/10/2016 at 20:30

      Emisson gosto de agradar gente inteligente e desagrada burro.

  2. Orquidéia
    02/10/2016 at 07:25

    Prof.Ghiraldelli,costumo acompanhar seus textos quase em silêncio,mas eu seria muito “imperfeita” se não contasse que esse me comoveu.
    Que lindeza de idéia irretocável!
    Achei grandioso.

  3. Eduardo Rocha
    30/09/2016 at 15:05

    Paulo, eu poderia dizer que em Sloterdijk existem “verticalidades de grandezas superiores” e “inferiores”? Ou seja os polos negativos e positivos acabam se relacionando atingindo no homem uma influência orientadora (porque o exercício tem um objetivo específico, apontando a direção a ser tomada que é, ao mesmo tempo, tensa. Tensa, porque exige as “faíscas” do esforço. Os exercícios estão para superar um estado dado a favor de uma superioridade ainda não alcançada?

    • 30/09/2016 at 17:19

      Não, nada disso. Para entender você tem de levar a sério a palavra ascetismo.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo