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24/11/2017

O que é o filósofo ironista


Há um modo de compreender a filosofia que é só para pessoas inteligentes. É aquele modo que exige a sofisticação do ironista.

Em um sentido estrito a ironia se expressa no enunciado que afirma algo que não é efetivamente endossado por quem o enuncia, e por isso mesmo não possui nenhum fundamento ao qual se possa recorrer para tal endosso. O irônico diz o que diz e não acredita no que diz. Cabe à inteligência que convive com jogos de linguagem que permite a ironia, vir a compreendê-la e saber quando ela aparece.

Em filosofia, Sócrates é um irônico, enquanto Richard Rorty é um ironista.

Sócrates afirma algumas coisas que podem muito bem não ser endossadas por ele. Richard Rorty defende algumas afirmações, ainda que o faça ad hoc, porque não tem qualquer fundamento para tal.

Sou um fã de Sócrates, mas efetivamente filosofo à maneira de Rorty. Há várias teorias que endosso ad hoc, mas não tenho condições de apresentar fundamentos filosóficos, ou seja, metafísicos, para elas. Ora, mas se é assim, o que legitima filosoficamente minha adoção de tais teorias? Simples: o meu desejo de não deixar que doutrinas se cristalizem, pois essa cristalização é que impede o pensar e, então, cria a chance do cabeça-dura tomar as rédeas do ambiente.  Em outras palavras: a filosofia às vezes só serve como antídoto temporário, fora disso seria uma grande bobagem. Nessa praxe, não raro adotamos a postura que só possui validade ficcionalmente ou em termos condicionais.

Dogmáticos

Dogmáticos

Por exemplo: o endosso da vontade de potência de Nietzsche. Não tenho a mínima ideia de como seria pensar o mundo, cientificamente, ou seja, a partir da física experimental e da biologia atual, tendo como um princípio cosmológico a vontade de potência. Todavia, é excelente pensar que a vida não é busca de conservação e, sim, busca pela extrapolação. Pois posso, então, lançar mão do exemplo de um ser unicelular que joga seus pseudópodes sobre uma gota de água, para se alimentar, e acaba apanhando mais que pode, explodindo. Pensando em uma cosmologia assim, escapo das cosmologias da adaptação e da conservação, sempre aceitas. Levo o pensamento para uma nova perspectiva, desviando-me daquela via já consagrada, tomada como base do real, o chamado princípio da autoconservação, tão célebre para a biologia e para a atividade racional.

Uma série de filosofias só serve assim, tomada negativamente. Com essa prática, adotamos uma filosofia apenas para deslocar uma outra. Feito isso, jogamos o instrumento que usamos fora.  Não queremos nos tornar adeptos da filosofia adotada, apenas dar umas marteladas por aí nas coisas fixas.

Esse me parece o modo inteligente de viver a filosofia hoje. Talvez seja a disposição necessária em uma época em que o saudável relativismo se faz presente e, ao invés de ser considerado, é ele próprio transformado em dogma e bandeira para o fanatismo. Um fanatismo tão intenso quanto as tais posições absolutistas, não relativistas.

Esse modo de filosofar fez Horkheimer e Adorno dizer que a prática deles era sempre colocar a filosofia de um filósofo contra ele próprio. Essa também foi uma estratégia é boa. Mas, como disse, esse tipo de filosofar só serve para inteligentes. Nossa época considera esse tipo de atitude inteligente.  Seria útil fomentá-la entre jovens. Mas não é fácil. Justamente os jovens, ou os velhos deslumbrados, são os que mais querem se fanatizar.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura. (Cortez, 2014)

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7 Responses “O que é o filósofo ironista”

  1. Paulo Henrique Andrade
    04/07/2014 at 20:50

    Alguns dos piores adversários da filosofia e do pensamento crítico são – o maniqueísmo de ideias, o pensamento único, o politicamente correto, o reducionismo de assuntos complexos em ideias fáceis de assimilar, a autocensura, e a linguagem de propaganda. Creio que a filosofia deva relativizar a si mesma, e evitar se colocar como uma solução mágica para o autoconhecimento, embora muitas vezes ela possa ajudar a aumentar a clareza das ideias – e sua coerência.

    • 04/07/2014 at 21:00

      Bem, “clarear as ideias” é pretensão, mas voltar-se contra si mesma é um pouco a atividade do ironista.

  2. 30/06/2014 at 07:48

    Grande!

  3. Ivan
    29/06/2014 at 21:54

    Imagino então, que não seja possível um ironista à serviço da religião? Certo? Mas mesmo que não tenha, posso perder meu tempo pensando nessa possibilidade?

  4. Alex Alfa
    29/06/2014 at 11:25

    Olá Paulo.
    Eu não sou formado em filosofia, tentei cursar um tempo atrás mas não tive exito, no entanto me interesso por alguns textos filosóficos e pela maneira como a filosofia faz pensar. Acompanho seu blog e o hora da coruja sempre que posso. Gostaria de ler um livro seu, mas sou iniciante do iniciante. Qual você me recomenda?

    Obrigado.

    • 29/06/2014 at 12:29

      A aventura da filosofia, dois volumes (Manole) e o A filosofia como crítica da cultura (Cortez)

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