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26/09/2017

O que é arte?


O poeta Ferreira Gullar escreveu: “Uma mancha, um graveto são expressões, porque tudo é expressão, mas nem toda expressão é arte. Quando evoco as obras-primas de um Da Vinci ou de um Cézanne, só posso lamentar que se pretenda apresentar como obra de arte o que não passa de mera ‘sacação’, descartável como os produtos comerciais de hoje.” (Folha, Artes descartável, 24/01/2016).

Essa frase é uma expressão, mas não é uma expressão em filosofia de arte e, talvez, também não de crítico de arte. Primeiro: nem tudo é expressão. Segundo: não há boa razão em se comparar o que achamos que é descartável, dando-lhe valor, com o que a história da arte consagrou como obra de arte e, então, não descartável. Terceiro: não é o produto comercial, por ser comercial ou por ser em princípio descartável, um critério para arrancá-lo da condição de obra de arte.

Gullar sabe é da poesia, não da filosofia da arte. A filosofia da arte respeita a história da arte e, portanto, respeita aquele que ele citou, mas não conseguiu compreender: Duchamp. “Tudo que eu digo que é arte é arte”. Sim, se eu for artista e tiver meu público e uma comunidade que reconheça meu público como qualificado. Sim, se eu puder vencer a má vontade de curadores e proprietários de galerias. Em outras palavras: na modernidade a beleza vai para um lado e a arte para outro. Não é necessário algo ser considerado belo para ser considerado arte. Essa novidade da modernidade é que cria a própria discussão, até então não ocorrida em termos tão amplos, a respeito do que é arte. A história da arte põe a pergunta sobre o que é arte no momento de seu fim. Quando a história da arte acaba, ela chega à filosofia. Mas, diz o filósofo da arte Danto que, exatamente nesse momento, também é quando a arte dispensa a filosofia, pois a obra de arte começa a filosofar por si mesma. Pois se a obra de arte põe por ela mesma a questão sobre o que é arte, então a pergunta do filósofo não sai da boca do filósofo e sim da mão do artista.

É esse feito que Gullar atropela e, então se vê na condição de quem termina um artigo com critérios pobres a respeito de uma questão nada pobre. Ao querer falar o que é arte, não percebe que um desenho de um comercial de TV, aparentemente descartável, ganha rapidamente a possibilidade de comprometer Cronos com um sono insuperável.

Podemos não saber o que é arte, mas dá para saber que Gullar ao nos acompanhar no não saber nos abandona em condição pior do que aquela na qual começamos. O Urinol de Duchamp, citado por Gullar, é a peça chave que chama a arte para seu fim, pois ele é um objeto que, sendo objeto que pode ser arte, põe a pergunta “o que é a arte?” Assim, quando os filósofos pensam entrar, o próprio artista se põe como filósofo e o obriga a tomar a “saideira”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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17 Responses “O que é arte?”

  1. Bruno
    28/01/2016 at 23:38

    Arte é algo que incomoda. Toda arte tem um estilo. Eu gosto de pensar na arte como uma maneira de estilo. Como Bukowski disse, ” fazer uma coisa perigosa com estilo é o que eu chamo de arte”.

    • Daniel Pino
      14/09/2017 at 23:28

      Meu pinto é arte. Certo?

    • 15/09/2017 at 10:27

      Não Daniel! Erado. Leia o texto mais dez vezes. Caso você seja simpatizante do MBL, leia 30 vezes.

  2. Rodolfo Peroche
    28/01/2016 at 21:28

    Professor Paulo Ghiraldelli me lembra Flaubert ”Ama a arte. Dentre todas as mentiras é a menos mentirosa.”

  3. João Bosco Renna Júnior
    28/01/2016 at 02:25

    Ou seja, dizer o que é arte compete ao artista, não ao filósofo. Então a filosofia da arte talvez seja mero sofisma, pura retórica.

    • 28/01/2016 at 11:48

      João, você não entendeu. O que descrevi não é um desejo, é o que ocorreu. Historiado por Danto.

  4. Leonardo
    26/01/2016 at 11:15

    Querer falar em arte afastando-a do conceito de beleza, seria como falar de uma filosofia desprovida de ideias. Ou seja, obtem-se qualquer outra coisa, pois sua essência foi removida.
    Recomendo a leitura da obra Beleza do filosófo Roger Scruton, bem como o documentario Why Beautty Matters (https://vimeo.com/73344145).

    Abraço e parabéns por suscitar o debate do tema.

    • 26/01/2016 at 11:29

      Leonardo, Scruton é um conservador que não sabe do que eu estou falando. E tenho a impressão que você não viu o que ocorreu em história da arte. Mas meu artigo explica. Leia com atenção. E leia a referência: Danto. Não faria sentido em comentar Ferreira Gullar falando de Scruton escroto.

    • LMC
      26/01/2016 at 12:42

      O Scruton é professor da
      Universidade de Boston.
      Já o nosso Olavo é
      formado em…..astrologia.
      kkkkkkkkkk

    • 26/01/2016 at 13:55

      Comparar o Scruton com o Olavo é de novo o erro de avaliar tudo pelo que está no jornal e pela política.

  5. Valmi Pessanha Pacheco
    26/01/2016 at 09:26

    Prof. Guiraldelli
    Platão entendeu Arte como representação e todo artista como um imitador que tenta representar SUA realidade (haja vista o Impressionismo, o Expressionismo, o Cubismo ou mesmo o Surrealismo, para citarmos apenas a Pintura, e até mesmo a Música). Todavia, Kant na Estética dos Costumes, ao expor suas ideias acerca do Entendimento e da Sensibilidade, penso que nos deixou o legado da importância da Arte na Filosofia.
    Com admiração
    Valmi.

  6. Pedrinho, o Valente
    25/01/2016 at 18:24

    Ao mesmo tempo, porém (ou não tão porém assim), o que o artista rumina de sua própria arte se faz paulatinamente irrelevante para a filosofia da arte e para a arte ela mesma. Como disse Adorno, toda arte possível deve fracassar — apenas em ruínas é que se pode novamente escavar conceitos que movem a crítica da, e a, forma. Artistas assimilados como Duchamp tornam-se pequenos obeliscos pálidos na história da modernidade, que é antes de tudo a história da vanguarda. E o que interessa pra vanguarda é desvelar as estruturas mesmas das formas de modo a expor o funcionamento do material artístico ele próprio e da sua produção afectiva. Na produção afectiva encontramos a possibilidade crítica da forma que dá sentido ao formalismo e à negação da subjetividade enquanto resquício do romantismo. Enfim, a filosofia, amiga dos conceitos mais do que da forma, é a responsável por saber melhor distinguir a potência real do que surge do pensamento da arte sobre si mesma — o que há nela que influi e sobrevive além dela, quando a obra mesma estiver morta? Há aqui uma transversalidade temporal muito a própria à história e às ideias filosóficas também.

  7. Marco Silveira Mello
    25/01/2016 at 12:51

    Discutir noções de arte contemporânea a partir da idèia de expressão traz vários problemas. O maior deles é que a arte de nossos dias não radica mais seu juízo sobre tal modo de ser. A arte moderna sim fazia isso: para fazer valer a ideia de expressão é necessário que ocorra, ainda que de modo oculto, a presença de uma norma. A expressão nada mais é que uma distanciação elástica da norma, ela faz parte do território, mas é um morador da extremidade. Até o expressionismo abstrato o jogo do fazer artístico se moveu nestes quejandos. Mas, há muito a arte se afastou desta “mecânica” e se ela subsiste ainda, tal ocorre na “arte” que carece de qualidade ou mais precisamente junto ao kitsch.

    Reply

  8. G. DE JESUS
    25/01/2016 at 09:23

    Não conheço muito de Filosofia da Arte, mas outro dia me deparei com um texto bem provocativo. Ele apresentava uma determinada artista, dessas estereotipadas – pós-modernas, e contrapunha com algum artista já consagrado pelo Devir artístico, questionando em que momento deixamos de considerar arte este por aquela. A tal artista tinha como ponto central de sua obra algumas fotos dela esfregando dólares na boceta…
    Enfim, parece meio reacionário, e pretensioso, querer delimitar o que é o artista, e o que deveria ser sua obra. Só acho interessante pensar como o público, em grande parte do tempo, assim como os críticos de arte, em grande parte do tempo, tentam atribuir símbolos e significâncias para obras que não tem a menor profundidade, como na ânsia de sentir-se um pouco mais intelectual do que realmente são.
    Trabalham a semana inteira e no final de semana ficam olhando para a foto da mulher, dos dólares e da boceta, tentando achar o sentido daquilo.
    É interessante essa perspectiva da modernidade ter separado o belo da arte, assim a mulher, os dólares e a boceta podem significar algo, além de compartilhamento de esquizofrenia…
    Paulo, já ouviu falar daquele tal de Banksy? É um artista urbano inglês, trabalha com stencils, quase kitsch, mas tem bastante coisa legal. As obras dele são vendidas por milhares, beirando os milhões de dólares, só que ninguém nunca viu sua identidade. Certo dia ele vendeu as matrizes de suas obras, mas sem glamour algum, colocou uma câmera escondida e um vendedor ambulante, conseguiu vender algumas por 20-30 dólares cada. Talvez a arte seja isso, esse clubinho…

  9. Orquideia
    25/01/2016 at 08:32

    Esse ponto de vista é formidável,combina com o que penso.
    Só o artista deve deliberar sobre si.
    Se ele “acha que é artista”,quem pode falar o contrário?
    Prof.Ghi,vou compartilhar seu texto em meu perfil do facebook.
    Colarei o link,para que possa ver.

    https://www.facebook.com/orquideia.goncalves/posts/1858023047757693

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