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18/11/2017

O que é arte e o que não é arte?


A diferença entre o erótico e o pornográfico todos sabem: o erótico mantém sutilizas que provocam a imaginação, o pornográfico elimina sutilezas e castra qualquer relação ficcional que o observador possa ter com o que é exibido. A diferença entre o que é arte e  o que não é arte tem algo dessa distinção, mas ela é mais complexa.

Fountain, Duchamp, 1919

Fountain, Duchamp, 1919

Aliás, “o que é obra de arte?” tornou-se uma pergunta clássica da filosofia da arte no século XX e, hoje, comanda qualquer curso de História da Arte. A pergunta surgiu exatamente quando das célebres exposições em que objetos comuns, que em princípio jamais foram pensados como arte, foram exibidos como tal em galerias. A pergunta ganhou fôlego quando os ready-mades vieram para seguir essa trilha aberta. Tudo se passa, assim, segundo a cena do Foutain de Marcel Duchamp e das Brillo Boxes de Andy Warhol. Foi exatamente por esses feitos que o belo, que tradicionalmente era o qualificativo que poderia dar aval inicial para algo ser uma obra de arte, deixou de ser critério. O século XX viu a arte ir para um lado e o belo para outro. Foi esse divórcio que trouxe a pergunta “o que é arte?” para o palco. Essa pergunta caiu sob a incumbência dos filósofos da arte, não para os artistas. Mas então, repentinamente, as próprias obras de arte, desprendidas do velho critério – o belo -, pela função de questionarem a arte, deram mostras que podiam dispensar os filósofos. Elas mesmos filosofavam. O filósofo americano, meu amigo já falecido, Arthur Danto, considerou isso uma espécie de “fim da história da arte”. Ele escreveu vários livros sobre isso, além de seus artigos no The Nation. Vale a pena ver o The philosophical Disenfranchisement of Art (1986). Há outros traduzidos, e me lembro ter feito resenha deles em revistas, a pedido da editora Cosac Naify, que os publicou no Brasil.

Brillo Boxes, Warhol, 1964

Brillo Boxes, Warhol, 1964

Mas o próprio Danto não dá uma definição de arte? Ele a procura, certamente. Resumindo ao máximo, ele segue uma fórmula sugerida por Heidegger e lambuzada por noções de Benjamin: o artwork está em dialética com o artword.  A obra de arte não repete mundos, mas cria mundos, é antes uma representação transfigurada que uma representação tout court , e chama o observador para a participação nela, interpretando-a. Nisso, Danto oferece uma quase-definição que é compatível com a sua interpretação da história da arte, do “fim da história da arte”, borrando a distinção entre filosofia e arte. Para ele, a questão do bom gosto ou mau gosto, que Hume marcou como um elemento para que a obra de arte fosse arte, perdeu a razão de ser, trazendo para o centro, então, a questão do significado. “O que significa?” ganhou mais importância do que “nossa, que belo!”.

Isso não quer dizer que se um artista põe um cão para morrer, sem água, numa galeria, não possamos impedi-lo de assim fazer. Nada aí tem a ver com “livre expressão”. Nossa sociedade liberal, que se fundiu com a vida cristã, tem regras claras, na lei, que combatem a crueldade. Além do mais, é ridículo achar que a apresentação substitui a representação e que, então, nessa substituição, há a arte. Antes de tudo, a arte é representação. O cão não é artista de forma alguma – nesse caso, menos ainda. Aliás, se soubermos que um artista vai se auto-imolar em público em nome da arte, em nome da experiência estética, recorreremos à justiça para impedi-lo. O liberalismo democrático e suas regras se acomodam bem com o fim do bom gosto ou mau gosto que caracteriza nossos tempos em termos de arte. Proibir um cão de passar sede é um ato civilizador, e nada tem a ver com a proibição de se ir ver o cão morrer. Apesar dessas questões serem um tanto ridículas, e não serem abordadas por Danto, às vezes é preciso recolocá-las, dado que nossa sociedade anda meio desescolarizada!

É claro que, dentro desse tempo bem qualificado pelo filósofo americano, faz sentido considerarmos arte a exposição do Santander de “arte na temática Queer” (1). Quem ali esteve foi guiado, quase que imperceptivelmente, pela pergunta “o que significa?”. A exposição curta, se não era arte, na medida em que atraiu a censura neonazista do MBL contra a “arte degenerada”, nos critérios de Danto e atuais, virou arte. Colocou na agenda a questão da interpretação, do significado, e jogou a semântica para o interior da galeria de arte fazendo a galeria virar mesmo uma galeria de arte.

Convido o leitor a uma visita ao meu A aventura da filosofia – de Heidegger a Danto, que é um segundo volume, publicado pela Manole. É uma forma de transformar esse episódio provocado pela extrema direita brasileira em algo menos tosco, em um momento de reflexão e aprendizado. Nós filósofos temos a obrigação de vir somente à tardinha, levantando voo para fazer a razão passar a limpo os acontecimentos. Assim agindo, conseguimos arrancar, até mesmo do MBL, algo útil.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 12/09/2017

  1. Nota de revista Veja: A exposição foi cancelada pelo Santander Cultural após críticas de movimentos religiosos e do Movimento Brasil Livre (MBL), a exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira” reuniu obras de 85 artistas, incluindo os mundialmente conhecidos Alfredo Volpi e Cândido Portinari, no museu de Porto Alegre.Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, que foi curador da Bienal do Mercosul de 2015, a exposição tinha como mote a diversidade e as questões LGBT, aos moldes de exposições estrangeiras como  a Queer British Art (1861-1967), em Londres, na Inglaterra, e a Hide/Seek: Difference and Desire in American Portraiture, em Washington, nos Estados Unidos. A mostra foi cancelada no último domingo, um mês antes do previsto, depois que os movimentos apontaram que a exposição fazia apologia à pedofilia zoofilia. Os movimentos também fizeram campanhas virtuais para que os correntistas do Banco Santander, que mantém o centro, cancelassem suas contas como forma de boicote.

 

 

 

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18 Responses “O que é arte e o que não é arte?”

  1. Willams S. de Sousa
    21/10/2017 at 13:50

    Arte é o desconhecido no conhecido. Arte é oposto a ciência. A arte tem um pouco daquilo que nos causa humor.

    Um homem caindo e abanando os braços até em fim caia da cadeira gera certo humor, já que a sua tentativa de buscar a ordem (a ciência) gera também a luta do desconhecido em busca ao conhecido.

    A Ciência nunca intriga, pois é fato, é conhecido. A arte, por sua vez, é surpreendente. O impacto de se pintar homens e a natureza em uma época onde isto é heresia é tão surpreendente quanto pintar ‘crianças viadas’.

    A criança existe, assim como a natureza e o homem, mas nunca vemos a criança da forma com foi exposta da mesma forma que a natureza e o homem nunca fora notada tal qual na arte renascentista.

    E o belo só vai ser despertado quando houver aceitação, do contrário a arte se torna horror. Por exemplo, o homem abanando os braços ao cair da cadeira não vai morrer, ele irá reestabelecer a ordem. Mas um homem caindo de um prédio causará apenas horror e medo.

    Uma ‘criança viada’, quando não podendo ser interpretada pelo indivíduo que a vê como sendo possível reestabelecer a ordem causará apenas horror.

    Para que a arte exista coloque ou tire algo da realidade atual de algo ou alguém e mostre que daquela forma também ‘funciona’ e voilá: arte.

    Então a arte é ordem no caos! É o caótico que, por uma compreensão do observador, pôde ganhar alguma ordem e isto causa uma surpresa conhecida como ‘beleza’.

    A Arte é relacionada com o humor, a descoberta e a beleza. Há humor quando podemos ENTEDER uma piada. Mas não há humor apenas ao entender um conto.

    A arte é uma mitologia que não é trágica ou a ciência em movimento. A arte é a fuga do que é estático em direção a ordem.

    Isso pode ser comprovado cientificamente fazendo alguns experimentos, mas isso deixo para os cientistas (psicólogos ou filósofos).

  2. Roberto
    18/09/2017 at 21:20

    Esse cara alega que não houve censura e sim um estímulo ao boicote. https://www.youtube.com/watch?v=wsAZQMvGY0E
    Paulo, o que vc acha?

  3. Anderson Luiz da Silva
    18/09/2017 at 18:28

    Paulo,

    Gosto muito das suas reflexões. Infelizmente, aqui na minha cidade (Campo Grande MS), tem militantes do MBL que acreditam estar fundamentando-se no seu pensamento. Estão levantando bandeiras e dizendo que o mastro é a sua filosofia.

  4. LMC
    13/09/2017 at 11:28

    A mesma gentinha que propôe
    a Escola Sem Partido censura
    obras de arte.Sabiam que o
    prefeito de Porto Alegre,do
    PSDB,apoiou a atitude do MBL?
    Isso mesmo,ele apoiou!

    • 13/09/2017 at 11:33

      Seu secretário de cultura e seu secretário da educação, ambos filósofos, o que disseram? Que tal saber?

    • LMC
      13/09/2017 at 11:38

      Ih,devem ser filósofos que gostam
      da dupla sertaneja Pondé & Olavo.kkkkk

    • 13/09/2017 at 11:53

      LMC, não, não são. Nada disso.

  5. Rafa
    13/09/2017 at 10:08

    Paulo, excelente texto sobre a estética modernista.

    A polêmica do “Queermuseu” me instigou muitas questões:

    1. Mais que o MBL quem convenceu o Santander Cultural a cancelar a exposição foi o pensamento conservador brasileiro que ganha cada vez mais força, se voce procurar as páginas que mais compartilharam o assunto na véspera do cancelamento perceberá que o MBL ficou entre o 6 ou 8 site mais visualizado.

    2. É um fenômeno bumerangue do politicamente correto: se fossem orixás ou outras entidades religiosas associadas, em uma obra de arte, com símbolos tabu x (não necessariamente sexuais, pois a arte africana sempre lidou bem com isso) qual seria a reação? Você mesmo não foi interditado por “alunos” uma vez? O modus operandi do “politicamente correto” se democratizou.

    3. A estética modernista, nas artes,não atingiu o senso comum, seja por falta de acesso à educação liberal/burguesa ou simplesmente porque a história não é linear.

    Obs: nos EUA a discussão sobre as identity politics está pegando foi depois do artigo do Mark Lilla, seria um prazer ler seus comentários sobre essas questões identitárias aqui no Brasil.

    • 13/09/2017 at 10:57

      Rafa: 1) Quando escrevo sobre esses assuntos (pedofilia etc) meu blog estoura, os conservadores são gente impotente, e a Internet é o canal da impotência como no passado eram as filas de aposentado em banco; 2) A direita está vitimista; 3) A arte é para todos, mas não para qualquer um.
      Estamos em normalidade democrática, grupos de pressão vão querer controlar a cultura.

  6. Augusto P. Bandeira
    12/09/2017 at 22:39

    Perguntar não ofende:
    1- Porque os queer ou grupos LGBT precisam sempre bater nos cristãos para (tentar) se legitimar?

    2- Cabe aí a aplicação do artigo 208 do Código Penal?

    “CAPÍTULO I
    DOS CRIMES CONTRA O SENTIMENTO RELIGIOSO

    Ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo

    Art. 208 – Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:
    Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.
    Parágrafo único – Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.”

    • 12/09/2017 at 23:00

      Nunca vi gente batendo em cristão, só vi cristão falso criando pro blema

    • Augusto P. Bandeira
      12/09/2017 at 23:34

      OK. Vou ser mais claro já que o senhor fingiu que não entendeu: não disse a respeito de agressões físicas. O que perguntei é porque esses grupos se utilizam da simbologia cristã como alegoria para o que quer que seja, sabendo que o objeto daí resultante é sempre depreciativo ao cristianismo?

      Não são somente os cristãos, qualquer grupo que veja seus símbolos próprios de fé sendo desfigurados certamente encontrará respaldo na proteção aos objetos de culto que o Estado garante.

      Os cristãos não têm direito de reagir àquilo que lhes agrida?

      E a pergunta sobre a aplicação do Código Penal continua de pé.

    • 13/09/2017 at 08:21

      Augusto “esses grupos”. Não há grupo nenhum fazendo isso. Desde que o mundo é mundo a simbologias são invertidas se elas começam a se desviar de seu objetivo ou se seu objetivo não condiz com o que diz ou diria. O papa e os cristãos cultos não perseguem a arte. A Igreja Católica se livrou da Inquisição e a deixou só para os ignorantes. A lei brasileira distingue o espaço da arte e o espaço da não ficção. Por exemplo, quando evangélicos começam a pregar abertamente contra terreiros, caberia punição? O bom juiz sempre vai interpretar caso a caso, e ver se há ou não intenção efetivamente de atacar a religião ou se se trata de arte. No caso dos evangélicos atacando verbalmente (e agora fisicamente) os terreiros, aí, eu lhe garanto, não é arte. Consegue entender agora?

    • Fernando
      13/09/2017 at 15:05

      Nada disso aconteceu. Um quadro não é um objeto religioso, é uma representação. Tivesse sido tirado um objeto de uma igreja teria sido o caso.

  7. Fernnado
    12/09/2017 at 20:22

    Eu sempre me surpreendo como o brasileiro é falso moralista e no fundo odeia os lgbt. Quão rápido as pessoas entram na paranóia do pânico moral e como, mesmo as pessoas mais “lúcidas” e mais “mente aberta” olham uma figura de criança viada e entendem como apologia a pedofilia. É de perder as esperanças.

  8. Fernnado
    12/09/2017 at 20:22

    Eu sempre me surpreendo como o brasileiro é falso moralista e no fundo odeia os lgbt. Quão rápido as pessoas entram na paranóia do pânico moral e como, mesmo as pessoas mais “lúcidas” e mais “mente aberta” olham uma figura de criança viada e entendem como apologia a pedofilia. É de perder as esperanças.

  9. Tony Bocão
    12/09/2017 at 13:21

    Em um só exemplo (santander Queer) achamos claramente a teoria interpretativa e a institucional de Danto, um deleite. Agora, sem explicação é a atitude do Santander de escutar o MBL, péssimo exemplo.

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