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27/06/2017

O que é a verdade?


Mesmo entre professores de filosofia, não é difícil encontrar aqueles que se perdem quando o tema é a verdade. Onde comumente se erra?

O primeiro erro é aquele de invocar os céticos contra a verdade. Impossível. Caso os céticos dissessem que “nenhum enunciado é verdadeiro” ou defendessem a concepção de que “nada é verdade” eles estariam incorrendo na chamada autorrefutação. Pois, como é sempre sabido, se “nada é verdade” for uma frase verdadeira todas as frases restantes, inclusive ela, teriam de ser falsas. O ceticismo profissional nunca disse tal coisa. Os céticos não eram bobos, eles não se insurgiram contra a verdade, mas contra o conhecimento.

Segundo a fórmula canonizada por Platão, conhecimento é “enunciado verdadeiro bem justificado”. O que os céticos fizeram foi duvidar do conhecimento. Eles afirmaram que toda vez que se fosse tentar dar justificações para um enunciado verdadeiro, não se ia conseguir fazê-lo de modo completo. Ou seja, jamais poderíamos afirmar conhecer alguma coisa plenamente. Assim, mesmo os céticos, nunca duvidaram de algo que é tópico obrigatório nos manuais de lógica, e que todo estudante de filosofia deve saber: a verdade é sempre objetiva. O conhecimento, este sim, tem sua componente subjetiva.

O segundo deslize quanto à verdade é associá-la, sem mais, ao que é factual. Desse modo, fala-se em verdades de fato e verdades de razão, ou verdades empíricas e verdades intelectuais. Ora, se adotamos essas formulações apressada e acriticamente, sem ressalvas, não compreendemos uma de nossas intuições básicas sobre a noção de verdade, que é a sua perenidade. Ou seja, a verdade é imutável. Tomados de modo específico, fatos dizem respeito a acontecimentos do mundo e, portanto, sempre sujeitos às mudanças do que é história e geografia. Por sua vez, nossa intuição diz que “P é verdadeiro se e somente se p”, ou “ ‘A vaca é branca’ é verdadeiro se e somente se a vaca é branca”; assim, o que garante a verdade é que se P muda então p tem de mudar, de modo que o “é verdadeiro se e somente se” não irá mudar. Ou seja, o elemento que faz a correspondência entre P e p, e que é onde se localiza o termo “verdadeiro”, é perene.

O caráter perene da verdade nos faz entender, dessa maneira, a avaliação de Agamben sobre o confronto entre Pilatos e Jesus. De um lado, com o romano, o reino dos fatos, de outro lado, com o judeu, o reino da verdade.[1] Ou seja, não se fala em verdade factual, mas em verdade como imutável, enquanto que no mundo sensível e factual fica o alterável. Só com a desinflação metafísica provocada pelo modo de pensar da ciência moderna e com seu coadjuvante filosófico, o positivismo, é que se se pode falar em algo como “verdade empírica”, “factual”. Só com o modelo laico da religião do absoluto se pode dar aos físicos a ideia de que a “partícula de Deus” pode existir na Terra, quase como uma reedição mal feita da cosmologia jônica, que ao invés de dizer que “tudo é água” diz que tudo é “Boson de Higgs”.

Todavia, com Pilatos e Jesus, pode-se dizer – e Agamben diz – que há ali a possibilidade de se pensar em duas concepções de verdade. Lembrando o Evangelho de Nicodemos, Agamben conta que Pilatos pergunta a Jesus se não há verdade alguma sobre a terra, e este responde com uma frase fantástica: ‘Tu vês que aqueles que dizem a verdade são julgados pelos poderes terrenos’. Pilatos parece entender que a questão da conversa é que se está ali com duas concepções de verdade e, no entanto, ao mesmo tempo, luta para entender a concepção de Jesus. A resposta de Jesus lhe dá uma explicação: quem é do reino da verdade, ainda assim, estando aqui na terra, é julgado – é julgado por poderes terrenos. Em vários escritos, Pilatos é mostrado como quem a partir daí se convence da inocência de Jesus.

Na minha leitura, interessa aqui a perspectiva sociológica e filosófica deixada por Jesus. Em termos de sociologia: há um julgamento de estrangeiros feitos sob as leis dos nativos, isso pode render algo justo? Em termos de filosofia: os que falam a linguagem do temporal possuem legitimidade para julgar, em sua linguagem, os que falam a voz do eterno? É como se fosse difícil conseguir legitimidade para o julgamento proferido por todos que vivem sob o reino do contingente quando tentam avaliar aqueles cuja boca profere o que se impõe como alguma coisa que não é deste mundo, ou outro reino. Como que alguém que se vê mais velho cotidianamente, corrompido pela natureza, pode avaliar alguém que todos os dias se mantem com todos os mesmos fios de cabelo? Como mortais podem julgar os deuses?

À primeira vista nossa intuição da verdade como o que é perene parece algo banal. Mas se a investigamos mais, se a vemos no simples manual de lógica que diz que a verdade é sempre objetiva, titubeamos. Descobrimos que participamos da concepção da verdade como algo eterno e, ao mesmo tempo, a todo o momento, conversamos admitindo que a verdade é a verdade de cada um e coisas do tipo. Então, se olhamos para o confronto entre Pilatos e Jesus, mais ainda titubeamos. A verdade que não é perene não nos faz sentido, mas, ao mesmo tempo, também fazemos a pergunta de Pilatos: então não há verdade sobre a Terra? Procuramos na filosofia a busca da verdade e, ao mesmo tempo, ficamos aqui e ali dizendo que o que é a verdade para um pode não ser verdade para outro. Isso quando não dizemos a bobagem “contra fatos não há argumentos”! Ora, há algum fato que não nos chegue por uma narrativa, dos outros ou nossa mesma, e então carregado de capaz interpretativas?

[1] Agamben, G. Pilatos e Jesus. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 34.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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4 Responses “O que é a verdade?”

  1. Henrique
    19/03/2015 at 11:22

    Há uma Verdade que é anterior ao homem para a qual estamos todos orientados.

    • 19/03/2015 at 11:47

      Henrique ao invés de religião, que tal filosofia, afinal você está lendo filosofia aqui.

  2. 4F
    13/03/2015 at 11:41

    Em [1], aforismo 344, Nietzsche expressa que “a nossa fé na ciência repousa ainda numa crença metafísica”, que ele denomina “vontade de verdade”.

    Lendo o texto, agora fiquei na dúvida se essa “vontade de verdade” se refere à “verdade” mesmo ou ao “conhecimento” como no caso dos céticos.

    Mudando ligeiramente de assunto, tinha a seguinte interpretação:

    A verdade como o que é perene pode estar fundamentada em algum princípio trascendente ou metafísico.

    Na religião, esse princípio seria Deus. Na metafísica de Platão, poderia ser mundo das idéias. Na ciência, poderia ser essa “vontade de verdade”.

    Atentando para essa pluralidade de princípios, surge naturalmente a dúvida se essa “verdade” existe e se, caso afirmativo, poderia chegar a ser conhecida por alguma via.

    Quando tal suspeita se instaura e a “vontade de verdade” cessa, estamos a um curto passo do relativismo cognitivo e moral.

    Esse “estágio terminal do logos” é o que Nietzsche denomina niilismo.

    Seria esta interpretação mais ou menos correta?

    [1] F. Nietzsche. A gaia ciência.

    • 13/03/2015 at 11:55

      4F tudo que você tem para pensar aí é para você pensar. Não há elementos a mais para se posto no meu texto, a não ser que se deseje falar de teorias de verdade, o que é outra coisa, e está em outros textos e livros, inclusive o comentário sobre a crítica de Nietzsche.

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