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28/04/2017

O que disse Marx no Manifesto Comunista? Fortunatus, O aprendiz de feiticeiro e Frankenstein


Não pergunte “o que Marx disse?” aos que você vê por aí falando dele, mal ou bem.  Faça o seguinte: pergunte ao Marx. Após a Playboy da Fernanda Young não há coisa mais barata no sebo que o Manifesto Comunista, em diversas traduções e também no original. Compre e leia. Vai encontrar um texto panfletário, sim, mas, meu Deus, que panfleto! Tão bom que, como panfleto, se tornou um clássico. Em qualquer bibliografia de pós-graduação em Ciências Humanas e Filosofia, lá está o texto, imperioso. E não sem razão.

De acordo com uma das minhas leituras, o que Marx diz nesse opúsculo, entre tantas outras coisas, diz respeito ao fim de um tempo. Não fala sem uma certa dose filosófica de ironia e de um certo pesar. O progressista Marx faz um elogio do modo como a burguesia destruiu as relações feudais, mas não sem ceder ao passadista Marx que sabia bem valorizar as instituições e tradições que ele mesmo via como de necessária desaparição. A frase tudo que é “sólido desmancha no ar”, que está nesse texto e que busca comentar as revoluções burguesas, ficou famosa. Mas o trecho que mais diz do Manifesto como uma captação do espírito de época, é aquele no qual Marx diz que “a moderna sociedade burguesa, com suas relações de produção, troca e de propriedade (…) assemelha-se ao feiticeiro que perdeu o controle dos poderes infernais que pôs em movimento com sua palavras mágicas” (1). Se agruparmos essa frase com a que informa, ainda nesse texto, sobre o aumento do trabalho gerado com menos tempo, que em O Capital está na base do conceito de mais-valia, temos tudo o que precisamos para ver Marx não como o teórico do controle, mas como o visionário do descontrole, não como o profeta da miséria, mas como o anunciador da abundância – abundância do exagero, mesmo no capitalismo.

Olhando por esse lado, vemos o Marx liberto da ideia de controle, típica do século XIX, que com Comte acabou nos fazendo obcecados pelo “prever para prover”. Também podemos notá-lo liberto da ideia de miséria, que Lênin e Stalin acabaram por incorporar e deixaram como sendo – talvez injustamente – a desgraçada fama do comunismo, o que resvalou até para a social-democracia. Peter Sloterdijk chamou os homens presos a isso de vanguardeiros da Internacional Miserabilista (2), uma visão hegemônica da esquerda na sua compreensão de mundo, e que já deveríamos ter abandonado.

O que 1830, quando escreveram o Manifesto, os jovens Marx e Engels tinham em vista, quando falaram do feiticeiro, não outra coisa senão o poema de Goethe, o célebre O aprendiz de feiticeiro, de 1797. A história foi reposta por filme de Walt Disney, com Mickey Mouse como protagonista. O enredo é breve.

O feiticeiro se ausenta e deixa o lugar sob os cuidados de seu aprendiz. Claro que este logo se imagina grande feiticeiro. Encanta um esfregão de chão, de modo que este faça o serviço que ele deveria fazer. Enquanto o esfregão trabalha, o aprendiz volta a dormir. Sonha que pode dominar a natureza, comandar estrelas e ventos, mas quando acorda vê todo o lugar encharcado. O esfregão foi cumprindo a ordem sem qualquer parada ou pensamento. O aprendiz não consegue pará-lo, uma vez que não tem o domínio completo das palavras mágicas. Sai então com um machado para picar o apetrecho rebelde, mas quando o acerta, este multiplica-se em outros tantos esfregões e continua a atividade maquinal. Caso o mestre não chegasse, seu local de trabalho teria sucumbido. Ele então ensina o aprendiz a lição óbvia: “Forças tão poderosas só devem ser invocadas pelos mestres que as dominam”.

Marx tem claro essa ideia ao entender que o modo como a modernidade retirou do mundo as amarras feudais não possui mais parada, e a própria burguesia deixaria de ser sujeito da história para se ver envolvida pelo modo de produção capitalista, alguma coisa com vida própria e criadora do monstruoso. Num reino de forças enfeitiçadas e descontroladas, sob as quais Marx viveu e sob as quais estamos, ainda que acreditando às vezes que é Comte que nos ordena, tudo que temos é realmente a Fortuna. Sorte e Azar são nossos mestres. Ora, é aqui que Peter Sloterdijk faz valer sua ideia de um tempo um pouco anterior a Goethe e, claro, a Marx. Ele lembra de outro conto.

O conto que Sloterdijk lança mão, e insiste sobre a sua popularidade nos anos de 1500, é o Fortunatus. (3) Também aqui entra em cena poderes mágicos. Fortunatus se encontra com uma fada na floresta encantada. Ele se faz então o herói que se envolve em mil e uma peripécias, enfrenta mil e uma aventuras, tendo a bolsa mágica, recebida da Fada, que sempre repõe quarenta moedas de ouro já gastas. Sloterdijk lembra do quanto essa história fez sucesso no Renascimento, o quanto a “fortuna” virou elemento da teoria de Maquiavel, e como que hoje estamos na modernidade porque reconhecemos que se ganhamos algo em dinheiro, se somos ricos, ou seja, se temos fortuna, isso só vale pela riqueza que vem com desencargo. O mundo moderno é o mundo no qual ficar mais leve pela riqueza, ter fortuna, é alguma coisa que vem pelo casamento, pela ascensão social provinda deste, ou por formas de ganhar herança, boletos de loteria, lances na bolsa, descoberta de petróleo e coisas assim. Desonerar-se é alguma coisa do mundo moderno, mas vale mesmo quando por caminhos eles próprios já desonerados. O que reina no mundo moderno é, para Goethe e Marx, o imponderável da oficina do aprendiz de feiticeiro que perdeu o controle do feitiço maquinal; o que condiz com o que é a modernidade, para os leitores de Fortunatus, no Renascimento, e mesmo hoje, como Sloterdijk se põe, é o jogo de sorte e azar. Essas ideias, claro, não são nada incompatíveis.

Fortunatus deu ao Renascimento o que se completou com o poema de Goethe: o monstro do imponderável desperto pelo mundo moderno não tem qualquer controle. Monstro monstruoso. O homem que virá a ser o homem do futuro será produzido por nós, pela nossa tecnologia não mais só educativa, mas efetiva no seu lado maquinal-técnico-tecnológico. Apesar de criado por nós mesmos, não nos obedecerá. Apesar de ser algo pedido por Richard Rorty como “uma versão melhor de nós mesmos”, poderá ser apenas uma versão espetacular de nós mesmos. Poderá sim ser um monstro. Ou seja, alguma coisa nos fará lembrar de um terceiro conto, o de Frankenstein, publicado anonimamente em 1918, quando a autora, Mary Shelley, tinha vinte anos. Este sim foi várias vezes visto como a literatura capaz de retratar bem os nossos tempos, a nossa modernidade tardia.

Fortunatus, O aprendiz de feiticeiro e Frankenstein dizem para nós muito desse trajeto do Renascimento aos dias de hoje. Essa luta toda nos engolfa e nos mantêm em movimento tresloucado. No centro dela, entre Fortunatus e Frankenstein, claro está o menino aprendiz de feiticeiro, a burguesia com Napoleão, o Espírito a Cavalo queimando cartórios feudais, eliminando barreiras jurídicas para que as forças produtivas do capitalismo pudessem avançar. Mas, essas forças sempre pedem mais. Picá-las significa ver a sua multiplicação, como o esfregão desenfreado. É sobre esse dorso de tigre que estamos. Não temos o direito de deixar o saber de lado, num processo ininterrupto de ascetismo, mas não temos garantia de que esse saber nos faz escapar do que diz os três contos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 24/10/2016

(1) Marx, K. & Engels, F. Manifesto do partido comunista. In: Laski, H. Manifesto comunista de Marx e Engels. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 

(2) Sloterdijk, P. Sphären III. Schäume. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2004, cap. III. 

(3) Sloterdijk, P. Das Reich der Fortuna. In: El reino de la fortuna. Virgen de Guadalupe: Fundación Ortega Muñoz, 2013.

Foto: turista em Frankfurti, diante do quadro “Goethe in the Roman Campagna”.

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3 Responses “O que disse Marx no Manifesto Comunista? Fortunatus, O aprendiz de feiticeiro e Frankenstein”

  1. Fabiana Marques
    25/10/2016 at 13:07

    Magnífico sem comentários

  2. Valmi Pessanha Pacheco
    25/10/2016 at 11:41

    Prof. PAULO
    Excelente texto!
    Imaginei-me revendo o clássico desenho de Walt Disney ao som da maravilhosa e inesquecível obra musical do compositor francês Paul Dukas, que enriqueceu sobremaneira a obra prima cinematográfica.
    Permita-me lembrar mais uma analogia do cinema com o desmonte da monstruosidade assinalada no texto: 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, quando o astronauta David, sob risco, desliga os circuitos do supercomputador assassino Hall.
    Certamente Karl Heinrich Marx teria apreciado e muito, mais esta obra da burguesia capitalista.

  3. Thiago Carvalho
    24/10/2016 at 20:48

    É tão bom e completo que resta pouco a dizer.

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Filósofo